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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

27
Mar20

Consequência ou Consequência?

Olavo Rodrigues

A Gabriela e a Andreia passeiam juntas no parque num dia soalheiro e livre de nuvens. Nem parece inverno. A segunda avista um lugar perfeito para abancar depois de algum tempo de caminhada e galhofa misturada com correria. Sob o firmamento, estende-se uma gigantesca passarela de água reluzente de onde se pode ver a vila vizinha, bem ao longe, na outra margem do rio. Um coro de gaivotas, que por ali vagueiam, junta-se à animada conversa das raparigas, que se sentam na relva de um verde fresco e revitalizante. A Andreia maravilha-se com a relva, crescida e húmida, em contacto com a parte das pernas que os calções não tapam.

- Não sei quanto a ti, mas não me importo nada de me sujar. Por mim, ficamos já aqui. - A Gabriela senta-se também de pernas esticadas enquanto observa o vazio para lá da água. A luz ilumina-lhe o rosto, dando ao seu ar pensativo um belo toque. Instala-se um silêncio, pois também a Andreia se perde, embora seja o frenesim das gaivotas que a fixa.

- Sentes isto? - Pergunta a Gabriela.

- Sim. Os cheiros da maresia e da relva misturados. É como se fosse um cocktail de verão para o nariz.

- Não, isto. - A rapariga mais larga empurra a outra e desequilibra-a, fazendo-a quase beijar o chão.

- Está quieta! Porque é que és tão bruta?! Podia ter-me magoado.

- Oh! Vê lá! Realmente, empurrei-te com uma força... parecia um vendaval...

- Já te disse que não gosto de que brinques assim.

- Quem te mandou encharcares-me com o chafariz? Eu disse que não perdias pela demora e ainda não acabei.

- Não. Está mas é quieta.

- Verdade ou consequência?

- Não gosto desse jogo.

- Tu também nunca gostas de nada. - A Gabriela volta a empurrar a Andreia.

- Para!

- Verdade ou consequência? Vá lá, estou entediada. 

- Não... - Outro empurrão e desta vez é o suficiente para a pobre rapariga franzina cair. Nem tem tempo de se sentar como deve ser e volta logo ao chão.

- Não paro enquanto não escolheres.

- Pronto! Verdade. - A magra vai para se endireitar e a mais corpulenta faz os preparativos para atacar novamente, embora sejam só um engano para levar a outra a encolher-se.

- Muito bem, deixa cá ver. - A desafiadora põe-se a fitar o mar, adotando de novo o ar que lhe favorece as bonitas feições à luz do sol. - É verdade - começa poucos momentos depois - que já... tiveste um fraquinho pelo stor Manuel Joaquim?

- Aquele velho jarreta rabugento? Claro que não!

- Está bem. Consequência...

- Porquê? Eu disse a verdade.

- Não tem a ver com isso. Quando dizes "sim", é a minha vez de responder. Quando dizes "não", passamos à consequência.

- Não é assim que me lembro do jogo.

- Há quanto tempo é que não jogas?

- Há uns quantos anos.

- Ora aí está. Eu sei jogar melhor. Vá, tens direito a três opções. Primeira - a rapariga olha à sua volta - vais ter com aquele rapaz jeitoso ali ao pé da árvore e dizes-lhe que está tudo acabado entre vocês.

- "Acabado"? Mas eu não o conheço de lado nenhum. - A Gabriela revira os olhos. - Ah! Já percebi. Mas e se aquela rapariga for a namorada dele?

- Espera, ouve as outras opções. Segunda: vais ao pé daquela mulher sentada no banco de jardim, a tirar selfies, e pede-la em casamento. Terceira: estás a ver aquele puto ali ao fundo com uma bola do Ruca? Aproxima-te e diz-lhe que foi adotado e que tu é que és a verdadeira mãe dele.

- Não! Ele só deve ter três ou quatro anos! Tu és doente!

- Não és obrigada a escolher essa.

- Quero uma quarta opção.

- Népia. Só podes escolher entre três. - A Andreia morde o lábio, suspirando em seguida com os nervos a apoderar-se de cada fibra do seu ser.

- Então? Como é que é?

- Vá lá, Gabriela, não me obrigues a fazer essas coisas.

- O tempo está a contar até ao próximo empurrão. - A magricela sopra exasperada, levantando-se.

- Porque é que eu ainda me dou contigo?! - Atira ao afastar-se em direção ao alvo da partida.

- Desculpa? - A mulher baixa o telemóvel e, no lugar do ecrã com o seu rosto, apresenta-se a Andreia com um boi na garganta. - Não pude deixar de reparar... ah... - o olhar intrigado da outra dá-lhe um aperto no estômago. - Bom, pareces ser bastante fotogénica e estava a pensar se...

- Estás a convidar-me para sair? - Bebe um gole de água da garrafa.

- Bem... quer dizer... - A mulher levanta-se. É alta e curvilínea. Uma modelo, talvez, que vai bebendo água enquanto fala.

- Quantos anos tens?

- Dezanove... - Responde a rapariga tímida a medo. - A outra moça avança mais uns passos.

- E o teu nome?

- Ah... Andreia. - Está prestes a desatar a correr, mas não sabe se teme mais a Gabriela ou esta desconhecida. Pelo menos, da primeira sabe que não ia calar-se com as bocas durante, no mínimo, um mês. "És tão medricas". "Nunca fazes nada de jeito, porque estás sempre com medo".  "Ninguém gosta de pessoas enfadonhas".

- Chamo-me Flávia. - A mulher observa todas as suas características, aparentando estar satisfeita com o que vê. - Está bem. Estás ocupada agora ou...?

- Estou com um amiga. Olha, isto não...

- Estás disponível amanhã a esta hora? Podemos encontrar-nos aqui mesmo.

"No que é que eu me estou a meter? Porque é que ela não percebe que estou claramente desconfortável?" Pensa a mais jovem para os seus botões, pois, uma vez mais, não distingue o que mais a assusta: a ideia de um encontro com alguém por quem não sente qualquer atração ou uma provável reação colérica se a Flávia descobrir que é tudo uma partida imbecil que a Gabriela a obrigou a pregar-lhe.

- Claro.

- Ótimo. Então, até amanhã. Prazer em conhecer-te, Andreia. - A mulher mostra-lhe um lindo sorriso sincero de orelha a orelha, mas não serve de grande consolo à rapariga.

- Só para esclarecer: tu tens...

- Vinte e três.

- Certo... até amanhã. - A Andreia dá meia volta e caminha em passo acelerado, para ao pé da Gabriela, com a intenção de lhe arrancar a cabeça assim que lá chegar.

- Então, como é que correu? - Pergunta-lhe a amiga entusiasmada e sedenta de curiosidade.

- À tua pala, tenho um encontro!

- Estás a gozar?! - A gargalhada da Gabriela preenche o  ar. - Como assim? O que é que ela te disse?

- Eu não disse praticamente nada e ela perguntou-me logo se eu queria sair e… depois começou a tirar-me as medidas! -  A moça mais rechonchuda torna a explodir de riso.

- Não tem piada, Gabriela! Como é que não percebes que isto é gravíssimo?! Além de não saber com que tipo de pessoa marquei um encontro,  nem sequer correspondo ao interesse dela! Eu não sou homossexual. - A frequência do riso desmesurado da outra só aumenta, pelo que a Andreia rebenta para lhe pôr um travão:

- Cala-te já! Achas que a orientação sexual dos outros é uma piada?! Como é que vou encarar alguém que pode achar que lhe pregámos uma partida só por ser homossexual?!

- Relaxa, Andreia. És sempre tão dramática. Não há maneira de ela pensar isso, porque, independentemente de lhe teres pregado uma partida ou não, nunca poderias adivinhar a sexualidade dela. A partida nunca foi pensada em função de preferência nenhuma. Eu, por acaso, queria que te mandasse dar uma curva, mas ainda assim, gostei. Gostei da reviravolta.

- Porque haveria de me mandar dar uma curva?

- Espera, mas não a pediste em casamento?

- Não…

- Oh, então, não vale. Não cumpriste o desafio. Tens de lá voltar e fazê-lo como deve ser ou escolhes uma das outras duas opções.

- Nem penses! Já chega! Se queres acrescentar alguma coisa, vai lá tu!

- Eu? A partida não é minha. Tu é que escolheste aquilo.

- Não me venhas com essa conversa…

- Olha, lá vem a tua amiga.

- Desculpa? - Chama a mulher ao longe. Quando se encontra mais perto, continua. - Não trocámos os nossos números.

- Lamento imenso, Flávia. Eu compreendo que me detestes depois disto, mas a verdade é que não estou interessada em sair contigo. Não é nada pessoal, mas não me sinto atraída por outras mulheres. Foi tudo uma brincadeira estúpida que foi longe de mais por causa do “Verdade ou Consequência”. As minhas mais sinceras desculpas por termos brincado com os teus sentimentos.

- Andreia, não! Estragaste o jogo. Para de levar tudo tão a peito. É só mesmo isso: uma brincadeira. Mas, para variar, não podem dizer nada à menina, que fica logo amuada. A Flávia parece-te chateada, por acaso?

- Pelo contrário, eu adoro o “Verdade ou Consequência”. Posso jogar com vocês? - Para a Gabriela, a partir daqui, seria difícil o dia tornar-se ainda mais interessante.

- Força! Quantos mais, melhor. - As três juntam-se em triângulo, sentando-se com as pernas à chinês. Fazem girar a garrafa de água vazia de que a Flávia bebeu, a qual atribui o papel de interrogadora à recém-chegada e o de ouvinte à moça mais larga.

- Verdade ou consequência?

- Verdade.

- É verdade que alguma vez te besuntaste de lama com a roupa vestida?

- Não.

- Consequências. Das três, uma: fazes isso pela primeira vez ali no rio; corres dois minutos por esta zona do parque e, gritas aos sete ventos que te orgulhas de te disfarçares de burro aos fins de semana, ou apalpas o rabo do rapaz do primeiro casal que por cá passar.

- Caramba, tu és má! - Ri-se a Gabriela. - Mas não perdes pela demora.

A garota sentenciada ergue-se de um salto para, no instante a seguir, proclamar a toda a gente que consiga ouvi-la como adora o seu fato de burro. Recebe vários olhares desdenhosos, de estranheza e uns quantos risos, nem todos omitidos. Com o peito inchado de ter superado o desafio, regressa ao seu lugar.

- Nada mau! - Comenta a Flávia, que faz a garrafa girar outra vez. Uma vez mais calha-lhe o domínio, mas agora quem está na mira é a Andreia cujo estômago não cessa de dar cambalhotas. Se aquele foi o nível de maldade para a Gabriela, nem se atreve a imaginar para o que é que está guardada.

- Verdade ou consequência, Andreia? - A rapariga franzina suspira e responde baixinho.

- Verdade…

- É verdade… que já comeste cozido à portuguesa? - A Gabriela franze o sobrolho.

- Ah… sim.

- Que raio de pergunta é essa?

- Então?

- Isso foi completamente banal.

- E daí? O jogo chama-se “Verdade de Consequência” e não necessariamente “Conta-me os Teus Segredos ou Faz Figura de Urso”. - Desta feita, a garrafa volta a girar. - Vá, a próxima a sair na rifa é… - A base aponta para a Andreia e o gargalo para a Flávia. - Olha, sou eu. Chuta.

- Verdade ou consequência?

- Consequência.

- A sério? Não tens amor próprio? - Intervém a rapariga rechonchuda.

- Tenho e é por isso que não vais saber nada de mim. Querias! Estou à tua mercê, Andreia.

- Hum… tens de me dar um abraço. - Assim o pede, assim o consegue.

- Deixem-se de tretas! Ninguém precisa do “Verdade ou Consequência” para trocar abraços. Então e as perguntas incómodas e interessantes? Onde é que está a ação das consequências?

- Não te enerves, Gabriela. É só uma brincadeira. - A Andreia esboça um sorriso provocador.

- Próxima rodada. - Determina a Flávia.  A mais roliça, de face escaldada da frustração, crava o olhar na garrafa em círculos, com os punhos fechados sob uma tensão esmagadora, rezando para lhe calhar a base e lembrá-las de como é que o jogo deve realmente ser. Bem, por fim, é escolhida, mas pelo gargalo. O gosto do desafio volta a ser presenteado à Flávia.

- Verdade ou consequência? - A Gabriela sente-se indecisa. A desconfiança da mais velha leva-a a também não querer confiar-lhe os seus segredos. Porque confiaria em alguém tão desconfiado? No entanto, também teme o que lhe pode trazer a consequência.

- Verdade... - Responde hesitante.

- É verdade que já comeste comida do lixo?

- Blherg! Não!

- Consequências. Primeira: liga a um dos teus pais e diz-lhe que estás feita refém e que o bandido exige cinco mil euros pela tua liberdade. Segunda: diz sempre “sim” às próximas três perguntas que qualquer pessoa te faça. Terceira: senta-te ao colo de uma pessoa aleatória aqui do parque. A Andreia e eu não contamos.

- Mas isso não é justo! Porque é que és branda com ela e má para mim?

- Não querias perguntas incómodas e ação? Estou a dar-te o que pediste.

- Gabriela, é um jogo. - Reforça a sua amiga, mas sem abdicar do sorriso de antes.

À roliça apetece bater nas duas. Ao despedaçá-las com o olhar, levanta-se, não tão entusiasmada como da outra vez, e avista um rapaz sozinho a ler à sombra de uma árvore noutra zona do relvado. Fica mais frio de repente, o que arrepia a participante em fúria e o vento principia um passeio pelo parque. 

- Desculpa, não me leves a mal, mas isto é por uma boa causa. - Ato contínuo, senta-se ao colo do rapaz, que prossegue a leitura sem levantar os olhos do livro. - O que estás a ler? A capa é bem medonha. - O moço em silêncio estava e em silêncio fica como se nem sequer se apercebesse da rapariga. - Olá? Está alguém em casa? 

Quando lhe levanta o queixo, a cabeça humana cai-lhe e, no seu lugar, surge uma cabeça de inseto com pinças enormes e olhos de mosca. Mal o corpo se reveste de um exoesqueleto, a besta tenta decapitá-la, mas a Gabriela safa-se por um triz, afastando-se aos trambolhões. Num estalar de dedos, o aconchegante céu azul-claro adquire um deprimente cinzento e nuvens em remoinho. O monstro vai atrás dela, pelo que a rapariga dá corda aos sapatos o melhor que pode em direção às companheiras de jogo. Vários daqueles insetos antropomorfos enxameiam o parque ao esburacar o chão e fazê-lo assemelhar-se a um queijo suíço.

A Gabriela tem agora não um, mas seis no seu encalço. O vento passa a assobiar e abranda-a, mandando-lhe o cabelo para a cara, portanto, não repara na mão que atravessa a relva e lhe prende o pé. É queda na certa. Debate-se desesperadamente para se libertar. Porém, a besta é bem mais forte do que aparenta e não se dispõe a largar a vítima por muitos pontapés que leve. Os outros aproximam-se no instante a seguir. Tudo à volta da rapariga, envolta numa atmosfera ensurdecedora de guinchos e gorgolejos, são pinças a abrir e a fechar e olhos encarnados grandes como bolas de futebol.

No entanto, antes de lhe chegarem ao pescoço, as criaturas começam a ser alvejadas, uma a uma, por pequenas bolas de energia. Assim que cai a última, a vítima repara na Flávia, a sua salvadora, a segurar numa pistola futurista e a montar a Andreia, que se transformou num centauro.

- Não fiques aí especada! Sobe para o meu dorso! - A Gabriela acede de imediato. No processo, a Flávia estoura o peito ou a cabeça de mais alguns monstros, que se aproximam em grande número.

O centauro corre a toda a brida à medida que a guerreira as defende. Um arco-íris estende-se do chão ao céu e a Andreia acelera o máximo possível para o alcançar antes das bestas. Contudo, é um coelho gigante (fofíssimo) que lá chega primeiro, destroçando o arco-íris ao cair-lhe em cima depois de saltar. O chão começa a tremer de tal maneira, que ao início parece um sismo de enorme magnitude, mas as raparigas não tardam a perceber do que se trata quando, em debandada, vêm dezenas de coelhos como o outro. É o suficiente para se verem livres da praga de insetos, mas com tantas bolas de pelo a saltitar, é impossível verem por onde andam. Uma sombra engole-as e, ao olhar para cima, a Gabriela berra com todo o ar dos pulmões enquanto as patas do coelho descem.

 

- Gabriela, calma! - A Andreia apressa-se a acudi-la à cama. De forma delicada, volta a deitá-la. - Foi só um sonho.

- Oooh!  Parece que me martelaram a cabeça. 

- É da bebedeira. Vocês não têm limites. Uma litrosa de uma assentada? A sério?

- Vocês? - A bêbeda olha para a cama ao lado e depara-se com a Flávia, o que a faz gritar. - Ela é real?!

- Sim. É capaz de demorar mais tempo do que tu a acordar. Francamente, como é que há espaço no corpo humano para tanta cerveja?

- O que é que aconteceu? E como é que viemos parar ao hospital?

- Estávamos a jogar ao “Verdade ou Consequência” no parque e, a certa altura, foste ter com um rapaz para te sentares ao colo dele, porque foi uma das opções que a Flávia te deu. O rapaz achou-te piada e contaste-lhe o porquê de teres feito aquilo e, no momento a seguir, havia quatro pessoas a jogar àquele maldito jogo. Acontece que ele era viciado em erva e escondia-a em brownies que trazia na mochila. Gostou tanto de nós, que quis partilhá-los connosco e, como dá para perceber, eu fui a única que os recusei.

Às tantas, aquilo já não era um jogo, já não era nada. Só faziam estupidez atrás de estupidez: tu levantaste a saia a uma velhota, a Flávia atirou lama a um polícia e depois o outro desatou a correr para não ser apanhado com erva. A seguir, fomos atrás dele, porque vocês queriam que continuasse a mostrar-vos a sua BD marada com coelhos a esmagar insetos assassinos. Só um alucinado para escrever aquilo, a sério…

- Isso explica muita coisa. Então e a parte da cerveja?

- Vocês obrigaram-me a ir ao centro comercial para vo-la comprar, porque era a única que não estava avariada do sistema.

- E onde é que está o gajo?

- Acabou por ser apanhado. Não por terem descoberto a erva, mas porque partiu, com um extintor, a montra de uma loja de brinquedos que vendia coelhos de peluche gigantes. Entretanto, tu e a Flávia continuaram a beber até desmaiar.

- E tu não quiseste uma pinga?

- Se fosse vodca, ainda marchava, mas agora cerveja…  - A enfermeira entra no quarto e dirige-se à Andreia.

- Desculpa, a hora da visita acabou. Podes voltar noutro dia?

- Com certeza. Adeus, maluca. Vê se ganhas mais juízo a partir de agora.

- Tu e a tua conversa chata de sempre. Aprende a curtir! - Antes de abandonar o quarto, a rapariga magra afirma da porta.

- Eu aprendi, mas ficaste logo vermelha que nem um tomate quando a coisa me conveio a mim. Não podes achar divertido só quando corre bem para o teu lado. - Desta feita, vai-se embora.

À medida que a enfermeira trata da Gabriela, esta põe-se pensativa, fitando o vazio, mas desta vez sem tanta luz para a alegrar. As persianas estão meio fechadas para não perturbar os pacientes que estão a dormir. Um ressentimento toma forma dentro de si, pois está farta de que a Andreia se julgue tão mais inteligente que ela. Talvez esteja na altura de arranjar uma nova amiga. É altura de uma nova aventura. Sempre foi azougada e se achou muito boa a viver o inesperado do momento, por isso, porquê parar agora?

- Sra. Enfermeira, não ter nada para fazer é uma seca. Já alguma vez jogou ao “Verdade ou Consequência”?

- Eu não sou mesmo uma enfermeira. Estou a cumprir uma consequência do jogo. Espero não ter feito nenhuma asneira a tratar de ti. - A mulher retira a bata, atirando-a para o chão e, antes de sair pela porta, acrescenta - se precisares de alguma coisa... não me chames a mim. 

- O quê? Espera, não!... Segurança!!! - Tão depressa como grita, leva com uma tampa de garrafa de água no nariz. 

- Baixa o volume, há quem queira dormir. Ato contínuo, a Flávia vira-lhe as costas para voltar a adormecer. 

 

 

 

31
Out19

Terror Pouco Aterrorizante

Olavo Rodrigues

Por estranho que pareça, apesar do que escrevi, não gosto de terror ou, ao menos, não do pesado. Sempre adorei a colecção dos Arrepios, de R. L. Stine, mas nada mais. A história abaixo tem cinco ou seis anos e nunca antes tinha saído do caderno, o que calculo que tenha a ver com o facto de que a minha tentativa de criar terror chocante falhou, pois como disse, não aprecio o género.

Se assim é, porque carga de água quis tecer uma história deste tipo? Para ser sincero, nem eu o sei muito bem. Acho que um dia, num intervalo da escola em que não havia nada para fazer e estava sozinho, decidi sair da minha zona de conforto pelo simples prazer de me desafiar. Resume-se a isso: estava à procura de algo diferente que me desafiasse e, a razão de ter falhado, é a minha natureza ter intervindo e criado algo mais cómico (creio) do que assustador. No início, ainda tentei escrever algo sinistro e desconcertante, mas depressa me perdi (como sempre) e, pronto, o resultado está à vista. Que melhor altura que o Dia das Bruxas para publicar um texto destes? 

Salvo alguns erros e repetições excessivas típicas de um rascunho, mantive o estilo de escrita de forma a marcar a minha evolução. Não sei se alguma vez irei desenvolver esta históriann, mas por enquanto serve só para divertir, porque a sério... isto de terror tem muito pouco. 

 

Excerto 1:

Estava a caminho do pavilhão para ter aula de Educação Física. Quando virei a esquina para o campo de jogos, perto da entrada, vi o Mauro, ao longe, a aproximar-se de um pombo. Normalmente, estas aves são medrosas e afastam-se quando outra criatura está por perto. Mas aquele pombo ATACOU o Mauro!

Quando o rapaz estava a uns três passos de lhe chegar, o bicho saltou-lhe para a cara e começou a bicá-lo na testa. Felizmente, ele conseguiu agarrá-lo e mandá-lo para o chão com toda a força. O pombo, agora sim assustado, levantou-se rapidamente e partiu desajeitado a voar. O atacado parecia ter posto a cabeça num alguidar de sangue. O líquido escorria-lhe cara abaixo, saído das feridas feitas pelas garras e bico da ave.

Começou a cambalear. Porém, não sei se estava prestes a desmaiar ou se o fazia por hábito como normalmente. Eu estava chocada com aquilo! Totalmente apavorada! Quis ajudá-lo, mas quando dei o segundo passo, ele levou a mão à ferida da testa, mas não delicadamente. Parei. O gesto fez-me impressão. Só de imaginar a dor que deve ter causado... desviou a mão do rosto lentamente e ficou a olhá-la durante uns instantes. Agora também estava encharcada de sangue.

Oh, não! Eu não acreditava que ele tinha feito aquilo! Porra! Não sei se consigo dizer isto - ele... ele... ele LAMBEU-A! E fê-lo até à última gota do líquido vermelho desaparecer como se a mão nunca se tivesse sujado... bolas, falar disto é horroroso... e nojento! Meus ricos cereais preferido! Não estavam a gostar da estadia. Tinha de sair daqui depressa!

Neste momento, as minhas pernas estavam na posição vertical, mas o resto do corpo estava debruçado. Agarrei os joelhos com as mãos, com toda esta confusão emocional a andar às voltas no meu estômago. Não sabia se ia vomitar o pequeno-almoço ou o coração, que saltava tão alto como se estivesse num trampolim. Talvez quisesse fugir a sete pés tanto quanto eu. Ia fazer-lhe a vontade. 

Mas assim que me virei, soltei um breve grito. Isto era inacreditável! Ele estava à minha frente! Mas como raio era isso possível?! Ainda há uns segundos estava a uns vinte metros de distância! E... as feridas e o sangue! Desapareceram! O Mauro estava novinho em folha como se nada tivesse acontecido. O que estava a sentir eram as minhas cuecas a ficarem sujas?

O meu coração estava a fazer tanta força para sair do peito! Não imaginam como estava a conter-me para não lhe vomitar em cima. Ele estava a fazê-lo outra vez. Fazia-o sempre. Olhava para mim fixa e inexpressivamente. Reparei agora que FAZIA QUESTÃO de me olhar nos olhos! Mesmo que tentasse desviar o meu olhar, não conseguia, porque ele seguia-me com o seu. Além do mais, o silêncio misturado com todas as outras cenas sinistras só dava energia à minha pilha de nervos. Então, tentando desesperadamente manter a calma, disse com medo no tom:

- O-Olá. Estás bom? - Perguntei com uma grande pausa entre o cumprimento e a questão. Ficou sem responder durante um bocado e a insistir em olhar-me daquela maneira arrepiante, mas depois lá respondeu:

- Sim. - Disse no tom morto e seco do costume.  - Era sempre assim. Não se conseguia ter uma conversa com ele. Era tão vazio! E transmitia uma energia tão negativa. Ai, o meu estômago! 

- Que bom!... - Continuei ainda com miúfa. - As tuas feridas... desapareceram. Foi tão rápido! Que rica rica regeneração, hã? - Depois libertei uma pequena risada nervosa. Era para lhe dar um murro no ombro, na brincadeira, mas hesitei, porque o Mauro desviou o olhar sinistro para o meu punho a meio caminho andado. E voltou a colocá-lo nos meus olhos mal recuei com a mão. Passaram mais uns segundos e o rapaz disse novamente:

- Sim. 

Estava a uma unha negra de me passar! Apetecia-me virar-lhe a cara com um chapadão bom, doce e bem assente. Assim, pelo menos o olhar arrepiante mudava de direcção. Cada vez mais tinha vontade de sair daqui e ele não parava de me pôr fora de mim! Ia-me embora antes de que fizesse alguma coisa de que me arrependesse. Então, com um último esforço sobre-humano, despedi-me amavelmente. 

- Olha... eu vou para ao pé da porta do pavilhão. - Não me respondeu imediatamente, mas desta vez foi mais rápido.

- Está bem.

Comecei a andar para virar a esquina, mas não sem saber porquê, não consegui deixar logo de olhar para ele. Era um sentimento estranho, não sabia defini-lo muito bem. Sabia que apesar da situação assustadora, havia algo no Mauro que era tão interessante como aterrorizante e que tinha de ser desvendado. A nossa ligação visual acabou quando lhe virei as costas. Quer dizer, pelo menos, falo por mim. Com o medo, o meu passo era rápido. Sempre que olhava para trás, lá estava ele! Não me deixava da mão! Não consegui evitar correr. Soltei um grito.

Que horror!

 

Excerto 2:

Depois daquela confusão toda, precisava de relaxar. O meu estômago parecia um poço sem fundo. Tinha de o preencher com alguma coisa. Fui até à cozinha e abri tudo o que pudesse ter comida: o frigorífico, os armários... não sabia o que se passava comigo. Seria esta fome natural? Só sabia que queria comer e descansar. A agitação dos recentes acontecimentos estava a dar cabo de mim. 

Peguei na maior quantidade de comida que podia carregar: montes de sacos de aperitivos, bebidas suficientes para encher um tanque, queques, chocolates, gomas e muitas outras gulosices para que as pernas do sofá se rendessem ao poderoso peso do meu rabo. Tinha dificuldade em carregar toda aquela comida. Cambaleava como... o tipo de quem não queria falar, pois não queria que nada caísse a caminho da sala. Pensando bem, podia ter posto as coisas num saco. Devagar, devagarinho, cheguei à meta e larguei tudo à toa. A disposição dos alimentos foi da sua própria escolha: uns ficaram-se pelo sofá, outros estatelaram-no chão e houve os que gostaram mais da mesa central, que foi onde pus os pés descalços depois de me sentar. 

Agarrei num pacote de cones de milho, abri-o e comecei a devorá-lo. Hum...! Péssimo para a saúde, perfeito para a minha felicidade. Eu sabia que não podia ter o azar de deixar migalhas no sofá, porque se não, a Mãe ficava tão aterradora como o... ai! Porque é que não parava de pensar nele?! Liguei a televisão. Talvez uma distracção me ajudasse a processar a preocupação. Que estranho! Não havia imagem. Bem... havia, mas não a que eu esperava. O ecrã estava turvo e cheio de tons de cinzento. Também saía um som esquisito do aparelho. 

Mudei de canal e vi a mesma coisa. Viajei pela grelha televisiva e nunca aparecia uma transmisão. Por fim, cheguei a um canal sintonizado e tive de desligar a televisão. O meu grito foi tão alto que podia ter deitado o prédio abaixo. Não, isto não era possível, eu devia estar maluca. Eu não podia ter visto o Mauro na minha televisão. Mas pensando bem, transportou-se para a minha frente quando estava a uns vinte metros de distância! Atirei-lhe o meu calhamaço d'"Os Maias" à cara e ele não reagiu: nem se quer um "ai"! (1)

Eu testemunhei esses acontecimentos ao vivo e a cores e tinha a certeza absoluta, sintética, analítica de que foram reais! Se ele conseguiu isso, que razão haveria de o impedir de aparecer no ecrã da minha televisão?! E quem sabe o que mais podia fazer? Tinha de me proteger, estava a ser perseguida! 

Todavia, antes de me passar, fez-se luz na minha cabeça. Se calhar, havia mesmo uma probabilidade de estar doida. A mente humana é matreira. Às vezes, algumas situações são tão impactantes que nos alteram. O que tinha visto podia mesmo ter sido uma ilusão causada pelo medo. Voltei a ligar a televisão. Oh!

- Júlia, por favor... - disse ele. Ou, pelo menos, tentou. O que raio queria?! E porquê a minha televisão?! 

Pronto: hora de entrar em pânico! Comecei a gritar histérica e levantei-me aterrorizada. A comida que estava em cima do meu colo, caiu no chão. A Mãe ia fazer-me pagar caro por aquilo. Queria ir para o quarto, mas ao correr assustada, escorreguei num saco de aperitivos e caí. Au! Doeu bué! No entanto, levantei-me depressa e despachei-me a ir para o quarto. Tranquei a porta na esperança de o Mauro não conseguir entrar. Oh, não, as janelas! Corri até elas, mas acelerei demasiado e bati com a cara no vidro. Talvez me magoasse mais a tentar salvar-me do que por causa do Mauro, que só me arrepiava. 

Contudo, nunca se sabia. Fechei a janela que abrira de manhã para entrar ar fresco no quarto e baixei a persiana. Ficou tudo às escuras. Sentei-me na cama, receosa, não sabendo o que esperar. Olhava à volta freneticamente. Procurava sinais de presença dele: um vulto, um som. Mas claro: não conseguia ver puto com o quarto assim e o escuro tornava os sons mais assustadores. Esperta! Pronto, eu sabia que não tinha sido uma ideia brilhante, mas foi o melhor que me ocorreu num momento de desespero. Tranquei-me no quarto e pu-lo às escuras, porque isso costuma impedir as pessoas normais e era isso mesmo que me punha fora de mim: não saber quais eram os limites dele.

Sendo assim, deitei-me à espera do fim, desejando que fosse o mais rápido e menos doloroso possível. Já algumas lágrimas me escorriam pelo rosto quando ouvi a campainha. Seria o Mauro Tinha muito medo de abrir a porta. E se fosse mesmo ele? Quem quer que estivesse lá fora, tocou outra vez. Ai...! Decidi enfrentar o/a fulano/a. Imaginem que se fosse realmente o Mauro, ele se passava e entrava pela casa adentro, arrombando a porta. Se ia morrer de qualquer maneira, ao menos que a casa dos meus pais ficasse intacta. Devagar, devagarinho, dirigi-me à porta. 

- Quem é? - Perguntei num tom nervoso.

- O Micael. - Ufa! Que alívio! - Esperem, seria mesmo ele? O Mauro podia estar a fazer-se passar pelo meu amigo. 

- A sério?

- Ah, não, desculpa, tens razão. Lembrei-me agora de que sou o vizinho da esquina. - Respondeu ironicamente. - Júlia, então?!

- Prova que és mesmo o Micael. 

- Como é que é? Vá, deixa-te de tretas e abre-me a porta!

- Prova-o ou não entras!

- Ah... sei lá... fiz chichi na cama até aos dez anos. - Pareceu-me suficientemente credível. Só eu sabia do problema urinário dele. Abri-lhe a porta e o Micael estava com cara de poucos amigos. 

- Mas que raio?! - Resmungou. 

- Chiu! Entra depressa! - Disse a puxá-lo bruscamente para dentro da minha casa. Mal fechei a porta, abracei-o. Estava mesmo a precisar de alguém. Queria guardar segredo, porque de certeza que ninguém acreditaria numa coisa destas, mas não aguentava mais. O rapaz não estava à espera do abraço, portanto, ficou surpreendido por uns instantes. - Que alívio! Estou tão feliz por te ver!  -Retribuiu o gesto de afecto, mas perguntou:

- O que é que te deu? - Largámo-nos e eu disse:

- O Mauro está a perseguir-me. 

- O Mauro? Aquele miúdo esquisito lá da escola? Ele magoou-te?

- Não, mas anda atrás de mim e está a dar comigo em doida. - O Micael soltou um pequeno riso e depois respondeu:

- A sério? Vais mesmo deixar que um puto te atazane o juízo? 

- Sim! Quer dizer, não! - Os nervos não me deixavam dizer coisa com coisa. - Eu gostava de o parar, mas não consigo. Ele... - não acabei a frase, porque tive medo de que o Micael me achasse maluca. Melhor dizendo: lunática. Maluca toda a gente sabia que o era.

- Ele o quê? - Perguntou-me o rapaz preocupado a avançar na minha direcção para me confortar.

- Vais achar que sou maluca. Ou lunática ou sei lá!

- Júlia, tu és maluca. Toda a gente o sabe. - Eu disse-vos. - Vá, conta-me o que se passa. - Insistiu. Então, respirei fundo e acabei por lho contar: 

- O Mauro não é normal...

- Eu sei. 

- Não, não sabes. Esconde mais do que aparenta. 

- Vá, desembucha. Estás a deixar-me nervoso. - Eu sentia-me mesmo desconfortável.

 

(1) No primeiro excerto isto não acontece, porque acho que só me lembrei deste toque a meio do segundo e escrevi-o para me lembrar de o adicionar à primeira parte quando passasse o texto a computador, o que ficou por fazer. 

 

FIM!

 

 

01
Ago19

Autenticamente Comum

Olavo Rodrigues

Vejo-o de longe e mordo o lábio de imediato. Caramba, que feio! É o que dá marcar encontros na internet: nunca se sabe se a surpresa vai ser agradável ou não. É a primeira vez que experimento este método e, tenho para mim, que não devia ter confiado só nas fotografias do Instagram. Credo!  Realmente, o homem é mesmo qualquer coisa de extraordinário. Nunca tinha visto ninguém assim. Até o Shrek é mais bonito!

Bem, ele não me vê daqui, por isso, ainda estou a tempo de ir para casa e livrar-me de qualquer contacto que tenha com ele na internet. Fico descansadinha da vida. Nem mais nem ontem! Dou meia volta e começo a andar no sentido contrário, mas depressa paro e olho para trás. Coitado! Estou a ser mazinha. No chat o gajo até parecia porreiro e divertido. Não merece que eu o deixe pendurado. Então, respiro fundo e retomo a outra direcção com a ansiedade a corroer-me o estômago. Não me julgues! Os olhos são os primeiros a comer. 

- Boa noite. - Digo ao chegar à esplanada.

- Boa noite. "Simone", certo?

- Sim. E tu chamas-te Rogério, não é?

- Exacto. - Trocamos beijos nas bochechas. Mal me sento, ele começa a fitar-me e, num instante, o seu sorriso desfaz-se. - Desculpa, mas isto não vai dar.

- Como?

- A nossa relação: não vai acontecer. Lamento. 

- Relação? Este é o primeiro encontro.

- Sim e acaba aqui.

- Desculpa, eu fiz alguma coisa errada? É que só tive tempo de me sentar. 

 - Não, não é nada disso... é o teu aspecto... 

- Desculpa?!

- És demasiado bonita. - Estou prestes a responder, mas ocorre-me logo que não sei bem o que dizer. Fico nesta corda bamba por um bom tempo enquanto processo o que acabei de ouvir e tento decidir o que sentir... mas não é nada fácil. 

- OK... define "demasiado bonita". 

- Tens lábios carnudos, olhos claros, uma tez bronzeada e parece que foste esculpida por anjos. Ainda por cima, também és bem dotada à frente. Isto é uma palhaçada! Se quisesse namorar uma actriz de Hollywood, andava com a Megan Fox, não achas?

- Eu não acho que ela...

- Eu à espera de uma desdentada minada de borbulhas e verrugas e com uns quantos quilos a mais e apareces-me tu... a encarnação de Vénus? 

- Eu realmente não sei se hei-de me sentir elogiada ou ofendida. 

- Porque é que também és como uma supermodelo fora do Instragram? Não sabes ser descuidada como toda a gente?

- Espera, querias que eu viesse para o encontro mais... ah... 

- Feia, sim! Pá, não me leves a mal, mas gostos são gostos. 

Uou, uou! Alto e pára o baile! - Se tu não me achas bonita... creio eu... não devias ficar contente por, ao menos, eu ser mesmo o que aparento nas fotografias? Talvez não seja quem esperavas ver, mas sou autêntica. - Porque raio estou eu a esforçar-me para agarrar este gajo?

- A questão é: eu não queria nada que fosses autêntica. Que diabo! Um gajo vai ao Instagram para lavar a vista e, por muito scroll down que faça, só encontra o que não lhe apetece! Gostava que, pelo menos na vida real, num momento íntimo como este, o mundo fosse à minha medida. Quer dizer e é: o que não falta para aí é gente comum que precisa de exercício e outras cenas assim, mas, pronto, tinhas de aparecer tu. Provavelmente, deves querer bater-me.

- Violentamente.

- Mas não o fazes, porque tens mais juízo que eu?

- Não, porque não quero ser arrastada pelos seguranças.

- 'Tá bem. Enfim, tu és muito boa moça e tal, mas eu vou pôr-me na alheta. Boa noite. - Quando ele se levanta, pergunto:

- És sempre assim tão apanhado dos cornos?

- Nem fazes ideia. - Começa a afastar-se.

- Tens esses valores um bocado trocados. 

- Blá, blá, blá. Conversa moralista da treta. - Permaneço alguns segundos na cadeira a deitar fumo pelas orelhas, mas um impulso faz-me levantar de um salto e acelerar o passo até o alcançar. Em seguida, viro-o para mim, o que o surpreende e digo-lhe a espumar pela boca:

Olha lá, cabeça de melão: eu passei uma eternidade a aperaltar-me toda, adiei um jantar com os meus pais, que não vejo há meses e vim até aqui com este frio glacial só com este vestido curto. Por isso, eu exijo-te que dês meia volta e me dês o encontro que eu mereço! - O homem fica muito sério a olhar para mim e quebra o silêncio ao rir-se. - Porque é que ainda não te estás a mexer? Não te rias!

- Espera: vieste ter com um parvalhão que não teve qualquer consideração por ti e, em vez de te ires embora e cagares nisto, ficaste à conversa comigo e ainda te deste ao trabalho de tentar obrigar-me a estar contigo? Estás cheia de frio e tiveste uma trabalheira desgraçada só para me agradares a mim? A um gajo que nem sequer conhecias? Parece que não sou o único que tem os valores trocados: precisas de pôr essa auto-estima nos eixos. - Ele volta a mostrar-me as costas. 

- Eu sou linda! Porque é que não vês isso como toda a gente?! - Arremesso-lhe a mala. 

- E esse ego também. Olha só: afinal, não és assim tão autêntica como pensas. És tão insegura como qualquer outro comum dos mortais. Saudinha da boa e melhor sorte para a próxima. - Espero que ele avance mais um pouco e, mal se aproxima de uma poça de lama, prego-lhe uma rasteira e o sacana cai com a cara mesmo no meio da poça. 

- Palhaço! 

 

07
Jun19

Já Foste!

Olavo Rodrigues

A: Não fiques aí especado a olhar para mim! Faz alguma coisa!

B: Tipo o quê?

A: Sei lá! O especialista és tu.

B: Iá... quanto a isso... menti.

A: O quê?! Então, como é que te desenrascaste com aquilo?!

B: Acho que sou só sortudo como o raio. Sabes o que se diz: "que sortudo és por me teres para resolver tudo".

A: Ninguém diz isso, 

B: Foi por isso que me safei: posso não ser um especialista, mas sou muito bom a inventar.

A: Sim, 'tá bem! De volta ao problema: como é que vamos resolver isto?! Oh, estou condenado! Toda a gente vai saber o que fiz. Como é que vou dizer à minha mãe?

B: Recompõe-te, porra! Já chegámos até aqui, não é?

A: Iá...

B: E então?... Oh, merda, fiz asneira. 

A: Nãããão! Então, não há volta a dar?

B: Népia. 

A: Oh, pá! Quando fores ao meu funeral, por favor, diz à Lisete que a amo a ela e só a ela. 

B: Acho que o teu e-mail é bastante claro em relação a isso. Corrigimos todas as frases mal escritas e ela vai delirar com o teu talento para a poesia. 

A: Ela delirava se eu não tivesse enviado o e-mail à minha professora!

B: Eu disse "ela", mas não quem. 

 

Por: Pedro Salgado e Olavo Rodrigues

 

06
Jun19

Última Hora: o Trump quase Quinou!

Olavo Rodrigues

ACTO I

Cena 1

(DONALD TRUMP/JORNALISTAS FIGURANTES/QUINO)

TRUMP está ao púlpito, numa conferência de imprensa, rodeado de jornalistas)

 

TRUMP

Eu vou tornar a América grande outra vez. O Partido Republicano está mais diversificado do que nunca. Espero que nos unamos, porque voltaremos a ser fortes como antes.

Há alguma questão?

 

(QUINO levanta a mão)

 

TRUMP

Há alguma questão?

 

QUINO

Sr. Trump? Aqui. 

 

TRUMP

Então e você? O senhor da esquerda. 

 

QUINO

Sr. Trump!

 

TRUMP

Sim?

 

QUINO

Boa tarde, chamo-me Quino Velásquez e «soy» do Wild News. Na semana passada o «señor» disse que favoreceria a classe média «si» se tornasse presidente. Com que medidas é que vai ajudá-la?

 

TRUMP

Desculpe, mas não vou responder-lhe. Eu não conheço o seu jornal e não sei se é ilegal. Próximo!

 

QUINO

Desculpe, mas o jornal para o qual eu trabalho é perfeitamente... 

 

TRUMP

Está despedido! 

(Efeito sonoro de disco riscado)

 

QUINO 

Ah... não está no seu programa. 

 

TRUMP

Oh! Vai-te (som de censura)! 

 

 

ACTO II

Cena 1

(JOHN/FRANK

JOHN e FRANK abrem o telejornal com a notícia da luta entre TRUMP e QUINO)

 

JOHN

Boa tarde! Notícia de última hora: um jornalista mexicano agrediu Donald Trump numa conferência de imprensa depois de o magnata o ter insultado, Vamos ver as imagens. 

 

(Enquanto o vídeo decorre, um novo cenário é preparado para os actores, que se encontrarão numa sala de estar. Estes serão revelados pela iluminação no fim do vídeo)

(Vídeo:

QUINO atira o microfone à cara de TRUMP, acertando-lhe. Com uma reacção imediata, os seguranças correm para o prender)

 

JOHN

Que cenário chocante, Frank! Quem diria que o grande Trump seria agredido por um jornalista. 

 

FRANK

(Levanta-se e grita)

Eu dizia! Aquele parvalhão devia ser espancado pelos piores gangues dos Estados Unidos... ao mesmo tempo! Eu levava o meu cão para o comer e depois cuspia-lhe na cara toda! E se ele não morresse depois disso, enterrava-o vivo!

 

JOHN

(Tenta acalmar FRANK, fazendo-o sentar-se)

Muito bem, voltamos já a seguir. 

 

(Fim do vídeo)

 

ACTO III

Cena 1

(KRIS/LEONARD)

 

KRIS

Uou! Isso é que é falar! Era mesmo o que aquele palhaço merecia! Força, mexicanos!... E Frank!

 

LEONARD

Não! Não acredito que estás a defender quem está a destruir o teu país. O Trump é sábio o maluco do mexicano devia ser enviado para o país da treta dele!

 

KRIS

Uou! Calma, meu. Para que são esses argumentos xenófobos? Aquele gajo só estava a fazer o trabalho dele, o Trump é que se armou em parvo. 

 

LEONARD

Ah! E isso é uma boa razão para levar com o microfone na tromba?

 

KRIS

Leonard, eu conheço-te, tu farias a mesma coisa. Ele insultou o homem à frente de dezenas de pessoas. Para além disso, os mexicanos já estão com ele até à ponta dos cabelos. Se ele construir um muro enorme como promete, milhares de vidas vão ser destruídas. 

 

LEONARD

Eu prefiro que sejam as deles do que as nossas. 

 

KRIS

Ó, vá lá, meu! Por que carga de água é que só há-de haver mexicanos maus?

 

LEONARD

Eu não disse isso. A questão é e como o Trump diz: eles enviam o pior que têm para aqui: violadores, ladrões, assassinos... queres que eu continue?

 

KRIS

Mas este é dos bons, porque trabalha e contribui para o desenvolvimento dos Estados Unidos. 

 

LEONARD

Como é que sabes? Aquela empresa pode ser ilegal. 

 

KRIS

Porquê? Porque é mexicano? Se ele fosse branco, não punhas essa hipótese, n'é?

 

(LEONARD permanece em silêncio durante um momento)

 

LEONARD

Bem, a probabilidade era menor.

 

KRIS

Estás a ver? Racista dum cabrão! Puto, nunca julgues alguém por causa da reputação do seu grupo. Até o Trump disse que há um ou dois mexicanos bons no meio daqueles muitos milhares. 

 

LEONARD

Iá, mas ainda assim os maus são a maioria, por isso, para mim é um não.

 

KRIS

Ah, é? Então, quando precisares de comprar comida, vai ao Walmart do outro lado da cidade em em vez de ires à mercearia dos Rodríguez aqui da esquina. Pode ser que assim tenhas mais tempo para pensar na tua hipocrisia. 

 

(LEONARD assume uma expressão facial de frustração e de rendição)

 

Cena 2

(KRIS/LEONARD

KRIS está numa cadeira a ler uma revista e, de repente, LEONARD chega a tremer e com uma clara expressão de medo)

 

KRIS

Então, meu, está tudo bem? Senta-te e acalma-te.

 

LEONARD

(Ele cai na cadeira)

Ó, meu Deus, acabei de ter a pior experiência da minha vida! Fui assaltado.. 

 

KRIS

O quê?

 

LEONARD 

Sim, estava no caminho para casa e, de repente, um grupo de parvalhões rodeou-me. Queriam a minha carteira.

Eu recusei dar-lha, mas eles ameaçaram-me com facas. No entanto, o que se seguiu foi impagável. 

Um gajo mexicano saltou do telhado de uma casa e caiu mesmo em cima de um dos parvalhões. KO! A seguir, os outros tentaram atacá-lo, mas o que eles não sabiam era que o mexicano sabia alguns truques de combate bem fixes. Num minutos, estavam todos no chão. 

 

KRIS

Vês? Eu disse-te. 

 

LEONARD

Sim, sim, está bem. Enfim:

 

(Começa a tocar, como música de fundo, Imagine, de John Lennon e LEONARD levanta-se)

 

LEONARD

O que significa realmente ser bom? 

(Fala para o público)

Aqui está uma das maiores questões de sempre.

(Pausa)

Pensemos no significado da palavra por um momento: remete para algo de boa qualidade e desprovido de características desagradáveis. Porém, quando analisamos a História da Humanidade, este conceito nunca pára de mudar. 

 

KRIS

Especialmente em relação à comida. 

 

LEONARD

Isto também significa que as pessoas nunca sabem exactamente aquilo querem ou de que gostam. 

 

KRIS

(Levanta-se)

Portanto, afirmar que alguém é bom ou mau sem o conhecer é algo bastante errado de se fazer. Psicologicamente, os seres humanos são as criaturas menos estáveis da Terra e sejamos sinceros: nunca ninguém conseguiu livrar-se de ser bastante imperfeito ou, pelo menos, nunca nenhuma pessoa comum o conseguiu.

Por isso, se não temos certezas acerca de nós próprios, porque haveríamos de as ter em relação ao resto da humanidade?

 

Por: David Fernandes e Olavo Rodrigues

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10
Dez18

The Magical Box

Olavo Rodrigues

Tiffany heard the box call for it was time for one more story. She had never told anyone she had a magical speaking box as a friend, but she was glad to enjoy its wisdom.

That night her depression was back to torture her sanity again. Being lonely felt like life wasn’t worth it because if no one came in to help her or vice-versa, then what was the purpose?

She approached the box and sat on the floor in order to listen to it.

'Good evening,' a male voice said calmly, 'why are your eyes so tearful, my dear?'

‘I need a new story, please. I’m feeling sad again because I haven't seen anyone else other than Mary, our maid, for a week and she’s always too busy to have long talks. Also, I think I bore her. I’m afraid that she tells me she has to work so she doesn’t have to put up with me.’

‘Has she ever given you any evidence of that?’

‘Well, I’m not sure. According to what I interpret from her facial expression, she never seems to be particularly amused by anything I say. I can’t ask her to stop working and listen to me as my husband is the one who pays for her service. I’d also like him to be with me more often, but he works in the US now and his boss keeps him busy all the time. I wonder if he’s trying to avoid me too. What other reason would prevent him from coming home for an entire year?’

‘It depends, there may be loads of reasons. If you don’t know what’s really happening in their minds, don’t you think it’s a little unfair of you to assume they don’t care about you? I believe you must work a bit on your self-esteem. The first person who should love you is yourself. I’ll give you an example:

Once upon a time, a princess called Rebecca was sitting on her throne as she usually did all day long. She spent the day listening to her people, whether they were noble, peasant, administrators, or military leaders. That exhausted her mentally and sometimes she just pretended to be paying attention and then asked her counsellors what certain people had said.

This listening routine was good to solve the problems of the kingdom because the Princess would say it all to her parents, who tried to come up with a solution. However, she had never really understood why she should help those people if they didn’t care about her. That was a formal daily activity with no concern towards the monarch’s problems. If she was a human being too, why didn’t anyone ask her how she felt or what she needed or if she just wanted to tell anything to have a friendly conversation once in a while? Everyone appeared to be always so busy for her. Then she started to think people were selfish, considering they seemed to care more about formality and their own problems than her.

This time Rebecca was bored while listening to a border guard who was reporting that the neighbouring kingdom had complained about lazy national farmers going to the other side and picking up foreign crops to sell them in the market of Rebecca’s country.

This wasn’t the first time that she received such a complaint, but the Princess had already got enough of it because it was now a lie. It had happened a few times, but measures had recently been taken and the problem had been solved.

National farmers could no longer cross the border to steal due to the fact that they were forbidden to visit the other nation without their king and queen’s permission and they had to present a good reason for it. If they tried to come back with a bag full of food, they wouldn’t be allowed to enter their home kingdom again. Moreover, if they were caught stealing, they’d have to pay a huge fine both to the next-door farmer and to the state.

The royal family just thought their neighbours still complained because they wanted to keep receiving subsidies for supposed product losses.

After the guard finished speaking, he waited for Rebecca’s answer or, as he desired, to tell him he could leave. However, instead of that, the Princess wasn't simply reacting as if she had gone to somewhere else and forgotten to come back to her body, which prompted people to mutter among them. One of her counsellors spoke:

‘Your Highness, would you please say anything to this loyal vassal? There are more people outside waiting to enjoy your generous attention.’

‘No, no. This is not right.’

‘Well, I know our relationship with our neighbours hasn’t always been the best, but…’

‘No, not that. This!’ the Princess used her arms to indicate the whole room, ‘I am tired of it and I would like to make some changes or else I will not be able to continue working. It is the same thing over and over. Do you not agree, my good man?’ the guard was just staring at the monarch with no answer popping up in his mind.

‘Of course you do. So I want everyone to leave except for this guard and the counsellors.’ Everybody looked quite confused, but Rebecca insisted, ‘Yes, you heard me: go outside and tell the other people to get in.’

Another counsellor asked, ‘Your Highness, what…’

The Princess raised her hand indicating he couldn’t speak. As for the others, they obeyed her order despite feeling rather confused. Mutters could be heard all over the room while those people got out and, a few moments later, the new ones came in. Unlike the previous audience, this one was composed of peasants who were told to occupy the seats the nobles had left free.

Next Rebecca got up from her throne and climbed down the stairs towards the kneeling guard.

'Please get up and take off your helmet,' the man didn't hesitate to do so. The Princess then asked for it by doing a receiving gesture; however, as soon as she grabbed it, she threw it onto the floor. But the moment that really surprised the crowd was when she placed her crown on the guard's head, which gave him a funny look because it was a female accessory, 'you may now sit on the throne,' this caused an overall surprise:

'What?!'

'I don't understand,' the man replied.

'Come on, go ahead,' suddenly, one of the counsellors got up and stood up to the situation:

'Your Highness, forgive my bitterness, but this is utterly unacceptable and, above all, illegal! I don't know what you're trying to achieve, but this non-sense behaviour of yours must end now!'

'Why are you talking to me?' Rebecca answered calmly, 'he is the one in charge,' she declared indicating the man. Facing such a strange attitude, the protester could do nothing but sit incredulously.

As the monarch asked, the guard headed to the throne, however, when he was about to take the first step of the stairs, he looked back at her, who showed through her facial expression that she expected him to do it and he obeyed. By the time he sat, the man felt extremely nervous as he could see from there that everybody was staring at him, including the counsellors that were by his side.

'Hi there,' he said shyly.

The next thing they knew was that Rebecca was kneeling, which almost made the counsellors' hearts explode due to her very expensive dress touching the floor.

'Your Highness, would you please listen to what your humble sister has to say?'

'Sure,' the new "prince" declared reluctantly, however, the conversation was unexpectedly interrupted. The Princess's parents were back from their business trip and the King was quite angry.

'Rebecca, what in the world are you doing?! Get up, you'll have your dress dirty!'

'I think it is already too late,' the Queen remarked, but what really melted her husband's cheese was the border guard sitting on the throne. He was truly angry.

'Hey, you! Where the heck do you think you are?! Get off there or I swear the next place you'll be sitting in is going to be a cell in the Tekuariku desert!' that was the hottest place on the planet where even local animals spent most of the time under the sand, therefore the guard didn't have to hear the order twice.

'Rebecca, I demand an explanation! Why was that man listening to you and not the other way around?! Why are all these people here and for what reason did you tell the nobles to stay outside?! Do you think this task is a joke?! You're twenty-two years old, but your inner little girl was up to play?! Well, she can't! You're a grown woman, Rebecca! Act like one!'

'Are you finished, father?' The King's daughter asked in a stressless intonation.

'What?! How dare you?!'

'That man was on the throne because I told him to do so and, as for me, I wanted to show that all this formality is simply silly. We are all human beings, therefore we should not create a superiority-and-inferiority-labelling society. The second reason for the role reversal is that I would like someone to actually listen to me at least once as I spend the whole day giving people that chance, but I do not get the same back.

I also intended these country people to catch up on what is happening in their own kingdom, considering most of them cannot read and are always away from information sources. They are too isolated, father. Besides, due to the fact that they live more modest lives, they are more likely to be humbler than the nobles, which diminishes the chances of judging me... as you are doing now.

No, I do not think this job is a joke, however, I would appreciate being able to have fun more often. During my whole life, I have always done what you wanted: I studied a lot, I had etiquette lessons, I learnt to play the violin and the piano and now I listen to every sort of people all day long, but my question is: when is it going to be my turn? When am I going to be able to have time for myself? I want to do whatever feels right to me because I am a different human being from you two, so I naturally need different things.

I have done nothing but act like an adult, therefore I think it is time for me to be a child a little more frequently.’

The box stopped speaking out of the blue and Tiffany was extremely excited with the story. She wanted to know its end so badly, although she felt a bit confused as well.

The container was taking long to start narrating again, leading the woman to say:

‘I don’t get it. Are you suggesting that I should do something completely crazy and scandalous in order to get Mary’s or my husband’s attention? Box?’

She opened it and, to her astonishment, she saw the most amazing thing any human could witness: a real goblin. There was an actual fairy-tale creature in the magical speaking box.

Tiffany just didn’t know how to react, what to say or… what to think. However, what shocked her the most was the fact that the goblin was lying motionless. Was he dead?






04
Dez17

Textos do Campeonato de Escrita Criativa (4)

Olavo Rodrigues

7

Entrou​ ​num​ ​café​ ​a​ ​partir​ ​do​ ​tecto.​ ​Caiu​ ​violentamente,​ ​abrindo​ ​um​ ​buraco​ ​e interrompendo​ ​a​ ​lamechice​ ​de​ ​um​ ​casal​ ​ao​ ​partir-lhe​ ​a​ ​mesa​ ​de​ ​repente.​ ​Cacos​ ​de vidro​ ​e​ ​gelado​ ​esmagado​ ​rodeavam​ ​o​ ​homem​ ​corpulento​ ​que​ ​parecia​ ​ter​ ​saído​ ​de uma​ ​história​ ​de​ ​super-heróis.  

Todos​ ​se​ ​aproximaram​ ​para​ ​o​ ​analisar,​ ​o​ ​que​ ​deu​ ​a​ ​ideia​ ​de​ ​que,​ ​por​ ​momentos,​ ​o tempo​ ​parara,​ ​pois​ ​ninguém​ ​se​ ​mexia.​ ​Além​ ​disso,​ ​o​ ​recém-chegado​ ​estava inconsciente,​ ​pelo​ ​que​ ​ninguém​ ​sabia​ ​exactamente​ ​o​ ​que​ ​fazer.

Ele​ ​partira​ ​o​ ​tecto​ ​e,​ ​ao​ ​virá-lo,​ ​a​ ​multidão​ ​verificou​ ​que​ ​nenhum​ ​pedaço​ ​de​ ​vidro​ ​se entranhara​ ​no​ ​seu​ ​corpo,​ ​portanto,​ ​devia​ ​ser​ ​duro​ ​de​ ​roer.​ ​Seria​ ​chamar​ ​uma ambulância​ ​a​ ​melhor​ ​solução?​ ​Que​ ​tipo​ ​de​ ​tratamento​ ​se​ ​podia​ ​dar​ ​a​ ​um​ ​menino destes?​ ​Se​ ​precisasse​ ​de​ ​uma​ ​injecção,​ ​haveria​ ​agulha​ ​que​ ​lhe​ ​resistisse? 

E​ ​que​ ​tal​ ​chamar​ ​a​ ​polícia​ ​ou​ ​mesmo​ ​o​ ​exército?​ ​Sabia-se​ ​lá​ ​se,​ ​quando​ ​acordasse, não​ ​se​ ​revelaria​ ​um​ ​supervilão.​ ​Porém,​ ​também​ ​podiam​ ​levá-lo​ ​para​ ​lhe​ ​fazer experiências​ ​esquisitas,​ ​mas​ ​isso​ ​não​ ​conviria​ ​nada​ ​se​ ​fosse​ ​uma​ ​jóia​ ​de​ ​moço. 

Uma​ ​menina​ ​reparou​ ​num​ ​dispositivo,​ ​perto​ ​da​ ​mão​ ​do​ ​homem,​ ​que​ ​tinha​ ​dois botões​ ​e,​ ​como​ ​a​ ​curiosidade​ ​fala​ ​alto​ ​nestas​ ​idades,​ ​aproximou-se​ ​e​ ​carregou​ ​nos dois​ ​em​ ​simultâneo,​ ​alarmando​ ​os​ ​adultos,​ ​que​ ​a​ ​repreenderam.​ ​Em​ ​seguida,​ ​contra o​ ​mau​ ​pressentimento​ ​colectivo,​ ​nada​ ​aparentou​ ​ter​ ​acontecido.  

Foi​ ​então​ ​que​ ​repararam​ ​que​ ​a​ ​tal​ ​menina​ ​desaparecera,​ ​bem​ ​como​ ​o​ ​super-herói. Cada​ ​pessoa​ ​foi​ ​desaparecendo​ ​sucessivamente​ ​sempre​ ​que​ ​se​ ​olhava​ ​à​ ​volta​ ​até só​ ​restar​ ​um​ ​homem.​ ​De​ ​repente,​ ​este​ ​ouviu​ ​uma​ ​pancada​ ​no​ ​balcão: 

-​ ​Ó,​ ​amigo,​ ​posso​ ​ajudá-lo?​ ​Nós,​ ​por​ ​acaso,​ ​temos​ ​mel​ ​na​ ​testa?​ ​-​ ​Perguntou​ ​o​ ​rapaz  do​ ​casal,​ ​indignado.​ ​Todos​ ​os​ ​clientes​ ​por​ ​ser​ ​atendidos​ ​refilavam,​ ​mas​ ​ele​ ​não​ ​se enquadrava​ ​ali. 

-​ ​O​ ​mundo​ ​precisa​ ​de​ ​mim.​ ​-​ ​Acto​ ​contínuo,​ ​saiu​ ​a​ ​voar,​ ​partindo​ ​o​ ​tecto.  

 

Dado que o último texto não é uma história, leiam-no no blogue Toca do Coelho.

02
Dez17

Textos do Campeonato de Escrita Criativa (3)

Olavo Rodrigues

5

Sou​ ​teu​ ​amigo,​ ​sim.​ ​​Assim​ ​começa​ ​a​ ​música​ ​de​ ​um​ ​filme​ ​muito​ ​apreciado​ ​na​ ​Terra, que,​ ironicamente,​ ​representa,​ ​de​ ​certa​ ​forma,​ ​a​ ​minha​ ​situação.​ ​Seres​ ​a​ ​que​ ​os humanos​ ​chamam​ ​«brinquedos»​ ​partilham​ ​o​ ​mesmo​ ​mundo​ ​com​ ​eles,​ ​embora  nunca​ ​lhes​ ​revelem​ ​a​ ​verdade,​ ​fingindo​ ​que​ ​são​ ​inanimadosÉ​ ​também​ ​o​ ​meu​ ​caso,​ ​apesar​ ​de​ ​eu​ ​ser​ ​um​ ​extraterrestre​ ​numa​ ​missão​ ​importante para​ ​conquistar​ ​o​ ​cargo​ ​de​ ​Guerreiro​ ​de​ ​Elite​ ​que​ ​sempre​ ​quis​ ​e​ ​isso​ ​envolve explorar​ ​mundos​ ​desconhecidos.​

​No​ ​entanto,​ ​às​ ​vezes​ ​também​ ​preciso​ ​de​ ​fingir​ ​que sou​ ​um​ ​brinquedo,​ ​pois,​ ​aparentemente,​ ​os​ ​humanos​ ​passam-se​ ​com​ ​facilidade.  

Isso​ ​é​ ​preocupante,​ ​visto​ ​que​ ​indica​ ​que​ ​estão​ ​sempre​ ​fechados​ ​numa​ ​bolha​ ​e​ ​isso  torna-os​ ​extremamente​ ​vulneráveis.​ ​Enquanto​ ​não​ ​interiorizarem​ ​que​ ​o​ ​normal​ ​é​ ​o inesperado,​ ​as​ ​suas​ ​vidas​ ​podem​ ​mudar​ ​de​ ​um​ ​momento​ ​para​ ​o​ ​outro​ ​e​ ​só​ ​darão  por​ ​isso​ ​tarde​ ​de​ ​mais.  

A​ ​Liliana,​ ​a​ ​humana​ ​com​ ​quem​ ​estou,​ ​hoje​ ​quase​ ​teve​ ​um​ ​chilique​​,​ ​porque​ ​perdeu​ ​o autocarro​ ​e​ ​chegou​ ​atrasada​ ​À​ ​Reunião.​ ​Eu,​ ​que​ ​sou​ ​150​ ​vezes​ ​mais​ ​pequeno​ ​que ela,​ ​já​ ​quase,​ ​por​ ​diversas​ vezes​, ​fui​ ​esmagado,​ ​comido​ ​por​ ​diversos​ ​animais​ ​(bem  como​ ​pessoas),​ ​já​ ​andei​ ​nos​ ​esgotos,​ ​no​ ​céu,​ ​caí​ ​de​ ​um​ ​arranha-céus,​ ​bem! Resumindo,​ ​ainda​ ​aqui​ ​estou,​ ​pois​ ​no​ ​meu​ ​planeta​ ​a​ ​normalidade​ ​tem​ ​o​ ​significado oposto.  

Contudo,​ ​confesso​ ​que​ ​às​ ​vezes​ ​os​ ​invejo,​ considerando​ ​que​ ​ter​ ​um​ ​dia​ ​tão​ ​calmo em​ ​que​ ​se​ ​leva​ ​um​ ​raspanete​ ​do​ ​chefe,​ ​por​ ter​ ​chegado​ ​atrasado​ ​À​ ​Reunião,​ vinha mesmo​ ​a​ ​calhar​ ​nem​ ​que​ ​fosse​ ​só​ ​uma​ ​vez.  

A​ ​Liliana​ ​está​ ​a​ ​dormir​ ​e​ ​a​ ​babar-se​ ​no​ ​sofá​ ​enquanto​ ​o​ ​sobrinho​ ​vê​ ​​Toy​ ​Story​.​ ​Como a​ ​minha​ ​missão​ ​está​ ​no​ ​fim,​ ​avisaram-me​ ​para​ ​não​ ​estragar​ ​tudo​ ​novamente, portanto,​ ​obrigar-me-ão​ ​a​ ​voltar.​ ​Mas​ ​não​ ​posso​ ​deixar​ ​a​ ​Liliana,​ ​nós​ ​precisamos muito​ ​de​ ​um​ ​do​ ​outro.​ ​​Sou​ ​teu​ ​amigo,​ ​sim    

 

6

Graças​ ​ao​ ​meu​ ​poder​ ​de​ ​invisibilidade,​ ​consigo​ ​examinar​ ​quem​ ​e​ ​o​ ​que​ ​me​ ​rodeia sem​ ​que​ ​a​ ​polícia​ ​me​ ​repreenda​ ​por​ ​estar​ ​sentada​ ​num​ ​ecrã​ ​ligado​ ​ao​ ​semáforo. É​ ​uma​ ​pena​ ​que​ ​os​ ​humanos​ ​já​ ​não​ ​acreditem​ ​em​ ​fadas​ ​como​ ​eu​ ​ou​ ​noutros​ ​seres mágicos.​ ​Podíamos​ ​dar-nos​ ​bem,​ ​afinal,​ ​somos​ ​vizinhos​ ​há​ ​tanto​ ​tempo​ ​e​ ​já partilhámos,​ ​inclusive,​ ​o​ ​mesmo​ ​«piso»,​ ​porém,​ ​nós​ ​tivemos​ ​de​ ​nos​ ​mudar​ ​para​ ​a  «cave»,​ ​bem​ ​no​ ​centro​ ​da​ ​Terra.  

Os​ ​humanos​ ​também​ ​eram​ ​criaturas​ ​mágicas​ ​e​ ​faziam​ ​coisas​ ​que​ ​os​ ​actuais gostam​ ​de​ ​adjectivar​ ​como​ ​«impossíveis»,​ ​contudo,​ ​a​ ​certa​ ​altura,​ ​algo,​ ​ainda desconhecido,​ ​os​ ​infectou​ ​com​ ​uma​ ​doença​ ​estranha​ ​chamada​ ​maldade,​ ​que​ ​se  manifesta​ ​como​ ​o​ ​fogo:​ ​começa​ ​sendo​ ​minúscula​ ​e,​ ​se​ ​não​ ​se​ ​tiver​ ​cuidado, torna-se​ ​num​ ​bico​ ​de​ ​obra​ ​com​ ​uma​ ​fome​ ​voraz​ ​de​ ​destruição.​ ​Por​ ​esta​ ​razão, tivemos​ ​de​ ​os​ ​adormecer,​ ​portanto,​ ​quando​ ​acordaram,​ ​não​ ​tinham​ ​poderes​ ​nem memória​ ​do​ ​que​ ​alguma​ ​vez​ ​tinham​ ​sido.  

A​ ​esperança​ ​de​ ​que​ ​eles​ ​se​ ​curem​ ​mantém-se,​ ​pois​ ​já​ ​se​ ​notam​ ​alguns​ ​resultados, embora​ ​muitos​ ​humanos​ ​estejam​ ​demasiado​ ​entranhados​ ​no​ ​seu​ ​próprio​ ​mundo para​ ​reparar​ ​nisso.​ ​Os​ ​únicos​ ​que​ ​conseguem​ ​ver-nos​ ​são​ ​as​ ​crianças,​ ​mesmo muito​ ​pequenas,​ ​e​ ​os​ ​animais,​ ​o​ ​que​ ​leva​ ​os​ ​adultos​ ​a​ ​achar​ ​que​ ​os​ ​petizes​ ​estão doidos​ ​quando​ ​os​ ​vêem​ ​rir-se​ ​connosco​ ​ou​ ​comentam​ ​quando​ ​se​ ​dão​ ​conta​ ​da nossa​ ​presença​ ​ou​ ​nos​ ​ouvem​ ​falar.  

Estou​ ​a​ ​estudar​ ​a​ ​evolução​ ​ética,​ ​cultural​ ​e​ ​tecnológica​ ​da​ ​humanidade​ ​e​ ​é​ ​hora​ ​de mudar​ ​de​ ​lugar.​ ​Levanto​ ​voo,​ ​mas​ ​depressa​ ​pouso​ ​no​ ​passeio​ ​para​ ​os​ ​examinar​ ​de perto​ ​e​ ​começo​ ​a​ ​deslizar​ ​nos​ ​meus​ ​patins​ ​ao​ ​sabor​ ​do​ ​vento.​ ​Felizmente,​ ​não esbarro​ ​contra​ ​ninguém,​ ​porque​ ​já​ ​tenho,​ ​literalmente,​ ​séculos​ ​de​ ​prática. 

Um​ ​breve​ ​olhar​ ​é​ ​o​ ​suficiente​ ​para​ ​analisar​ ​a​ ​sua​ ​vibração​ ​energética​ ​e​ ​hoje​ ​não podia​ ​estar​ ​mais​ ​satisfeita​ ​pelo​ ​positivismo​ ​crescente.  

16
Nov17

Textos do Campeonato de Escrita Criativa (2)

Olavo Rodrigues

3

Fui​ ​um​ ​grande​ ​sonhador.​ ​Tracei​ ​uma​ ​linha​ ​para​ ​o​ ​meu​ ​plano​ ​de​ ​vida,​ ​que​ ​mais  parece​ ​uma​ ​montanha-russa​ ​de​ ​que​ ​estou​ ​prestes​ ​a​ ​descer.​ ​Uma​ ​cama​ ​de​ ​hospital  não​ ​é​ ​o​ ​melhor​ ​sítio​ ​pôr​ ​fim​ ​à​ ​viagem,​ ​mas​ ​os​ ​sons​ ​de​ ​um​ ​edifício​ ​que,​ ​por​ ​sinal, trata​ ​das​ ​asas​ ​da​ ​própria​ ​vida,​ ​são​ ​sempre​ ​mais​ ​gratificantes​ ​que​ ​uma​ ​casa​ ​vazia sugada​ ​pela​ ​solidão.  

Para​ ​estar​ ​moribundo,​ ​mais​ ​vale​ ​manter​ ​o​ ​sentimento​ ​de​ ​pertença​ ​que​ ​prego​ ​desde  que​ ​descobri​ ​o​ ​que​ ​significa​ ​viver,​ ​ou​ ​melhor:​ ​porque​ ​vivo​ ​agora.​ ​É​ ​uma​ ​escalada  interessante,​ ​pois​ ​sentimos​ ​que​ ​a​ ​descoberta​ ​nunca​ ​é​ ​completamente​ ​feita​ ​e,​ ​às  vezes,​ ​até​ ​nos​ ​esbardalhamos​ ​pela​ ​montanha​ ​abaixo.​ ​Contudo,​ ​no​ ​meu​ ​caso,​ ​a curiosidade​ ​pelo​ ​pico​ ​sempre​ ​falou​ ​mais​ ​alto. 

Cheguei​ ​lá​ ​dificilmente,​ ​dado​ ​que​ ​encontrava​ ​uma​ ​distracção​ ​a​ ​cada​ ​dois​ ​passos. Avançava​ ​na​ ​direcção​ ​certa​ ​e,​ ​em​ ​seguida,​ ​já​ ​estava​ ​a​ ​ser​ ​guiado​ ​pelo​ ​cheiro manhoso​ ​da​ ​felicidade​ ​«garantida».  

Nasci​ ​apaixonado​ ​por​ ​palavras,​ ​portanto,​ na​ ​faculdade​ ​lancei-me​ ​a​ ​Tradução,​ ​que me​ ​encheu​ ​todas​ ​as​ ​medidas​ ​até​ ​ter​ ​de​ ​escolher​ ​uma​ ​subárea.​ ​Mal​ ​lhes​ ​falei​ ​em tradução​ ​literária,​ ​disseram-me​ ​uns​ ​amigos​ ​que​ ​o​ ​mercado​ ​para​ ​isso​ ​era​ ​minúsculo  e​ ​que​ ​para​ ​ganhar​ ​caroço​ ​era​ ​um​ ​bico-de-obra,​ ​pelo​ ​que​ ​optei​ ​por​ ​tradução​ ​técnica.  

Que​ ​parvo!​ ​Passei​ ​a​ ​maior​ ​parte​ ​da​ ​vida​ ​entediado​ ​e​ ​frustrado,​ ​pois​ ​queria​ ​viver​ ​no sonho​ ​da​ ​literatura,​ ​interrogando-me​ ​acerca​ ​da​ ​sua​ ​textura​ ​até​ ​há​ ​cerca​ ​de​ ​dez  anos,​ ​quando,​ ​finalmente,​ ​provei​ ​esse​ ​mundo. Com​ ​as​ ​línguas​ ​foi​ ​a​ ​mesma​ ​história,​ ​porque​ ​só​ ​aprendi​ ​as​ ​principais,​ ​não satisfazendo​ ​a​ ​curiosidade​ ​pelas​ ​que​ ​me​ ​fascinavam.  

Demorei​ ​a​ ​construir​ ​o​ ​meu​ ​palácio,​ ​porém,​ ​ainda​ ​bem​ ​que​ ​o​ ​fiz​ ​a​ ​tempo.​ ​Nunca​ ​é tarde,​ ​pois​ ​a​ ​perseverança​ ​do​ ​pensamento​ ​é​ ​poderosíssima!​ ​Recapitulei​ ​a​ ​minha  vida​ ​e,​ ​após​ ​abraçá-la​ ​como​ ​mais​ ​um​ ​soberbo​ ​livro​ ​para​ ​a​ ​colecção,​ ​lá​ ​fui.   

 

4

Ora​ ​viva,​ ​netos​ ​(com​ ​muitos​ ​«tetras»)​ ​de​ ​Adão​ ​e​ ​Eva.​ ​Já​ ​que​ ​são​ ​poucos​ ​os​ ​que  ligam​ ​às​ ​minhas​ ​sugestões​ ​(e​ ​às​ ​do​ ​vosso​ ​irmão),​ ​pensei​ ​que​ ​seria​ ​bom​ ​tentar​ ​algo novo,​ ​pois​ ​se​ ​antes​ ​já​ ​prestavam​ ​pouca​ ​atenção​ ​a​ ​quem​ ​e​ ​ao​ ​que​ ​vos​ ​rodeava,​ ​agora com​ ​as​ ​novas​ ​tecnologias,​ ​provavelmente,​ ​nem​ ​sequer​ ​notariam​ ​se​ ​vos​ ​mudasse​ ​de planeta.​ ​E​ ​não,​ ​não​ ​vou​ ​fazer​ ​isso.​ ​Se​ ​querem​ ​uma​ ​casa​ ​em​ ​condições,​ ​estimem-na.  

Enfim,​ ​dado​ ​que​ ​muitos​ ​de​ ​vocês​ ​não​ ​descolam​ ​o​ ​nariz​ ​do​ ​Facebook,​ ​escreverei  aqui​ ​testamentos​ ​com​ ​conselhos​ ​úteis​ ​que​ ​poderão​ ​agradar-vos.  

Comecemos​ ​pela​ ​questão​ ​do​ ​clima,​ ​que​ ​vos​ ​tem​ ​arreliado​ ​bastante.​ ​Ao​ ​contrário​ ​do  que​ ​possam​ ​pensar,​ ​o​ ​São​ ​Pedro​ ​não​ ​está​ ​viciado​ ​no​ ​Facebook​ ​e​ ​a​ ​desleixar-se​ ​com  a​ ​temperatura​ ​correcta.​ ​Os​ ​Espíritos​ ​das​ ​Estações​ ​é​ ​que​ ​estão​ ​em​ ​greve​ ​e​ ​só  trabalham​ ​bem​ ​quando​ ​lhes​ ​apetece…​ ​por​ ​vossa​ ​culpa!​ ​Como​ ​vocês​ ​só​ ​refilam,  esteja​ ​frio​ ​ou​ ​calor,​ ​então,​ ​é​ ​o​ ​que​ ​calhar!  Na​ ​última​ ​reunião,​ ​o​ ​Inverno​ ​e​ ​o​ ​Verão​ ​sugeriram​ ​que​ ​no​ ​próximo​ ​ano​ ​chovesse​ ​a  potes​ ​durantes​ ​as​ ​estações​ ​«quentes»​ ​e​ ​que​ ​se​ ​vos​ ​derretesse​ ​nas​ ​estações​ ​«frias». 

Resultado:​ ​idas​ ​às​ ​prainha,​ ​que​ ​são​ ​óptimas,​ ​ardiam​ ​e​ ​depois​ ​vocês​ ​torravam​ ​nos escritórios,​ ​nas​ ​escolas,​ ​na​ ​rua…​ ​em​ ​qualquer​ ​lado,​ ​praticamente. A​ ​vossa​ ​sorte​ ​é​ ​que​ ​o​ ​Outono​ ​e​ ​a​ ​Primavera​ ​são​ ​mais​ ​moderados,​ ​tendo​ ​apelado​ ​ao  bom​ ​senso​ ​dos​ ​outros​ ​dois,​ ​mas​ ​não​ ​sei​ ​durante​ ​quanto​ ​mais​ ​tempo​ ​vão​ ​aguentar.  Eu​ ​cá​ ​concordo​ ​com​ ​esta​ ​instabilidade,​ ​porque​ ​vocês​ ​nunca​ ​atinam.​ ​Desde​ ​que  existem,​ ​que​ ​ainda​ ​não​ ​tiveram​ ​uma​ ​única​ ​fase​ ​100%​ ​limpa.​ ​Ninguém​ ​aí​ ​se​ ​cansa​ ​de ter​ ​problemas? 

Já​ ​agora,​ ​por​ ​favor,​ ​usem​ ​mais​ ​combustíveis​ ​ecológicos.​ ​Os​ ​Espíritos​ ​das​ ​Estações detestam​ ​a​ ​fumaça.​ ​Alguma​ ​vez​ ​tentaram​ ​trabalhar​ ​num​ ​ambiente​ ​cheio​ ​de​ ​fumo?  Parecendo​ ​que​ ​não, ​chateia​ ​um​ ​bocadinho.   

 

Do​ ​vosso​ ​querido,

Pai 

09
Nov17

Textos do Campeonato de Escrita Criativa (1)

Olavo Rodrigues

Boas, pessoal! Como comuniquei aqui, estou a participar no 37º Campeonato de Escrita Criativa organizado por  Pedro Chagas Freitas e, dado que está quase a terminar, achei boa ideia partilhar os meus textos neste blogue. No início, pensei que seria óptimo aproveitar a falta de limite de palavras para os melhorar ao aumentá-los um pouco e assim apurar a sua qualidade literária, porém, isso omitiria o meu processo de adaptação, o que não daria uma imagem tão clara das minhas virtudes e limitações enquanto escritor.

Tentarei publicar esta mini-compilação semanalmente, portanto, fiquem atentos. Obrigado pela vossa atenção e boa leitura!

 

1

Após​ ​um​ ​dia​ ​exaustivo​ ​em​ ​que​ ​só​ ​tinha​ ​esbarrado​ ​com​ ​a​ ​confusão,​ ​já​ ​ouvia​ ​os  chamamentos​ ​da​ ​cama,​ ​mesmo​ ​estando​ ​ainda​ ​no​ ​carro.​ ​Pela​ ​primeira​ ​vez​ ​hoje,​ ​a  sorte​ ​sorriu-me,​ ​pois​ ​reservou-me​ ​um​ ​lugar​ ​para​ ​estacionar​ ​perto​ ​de​ ​casa.  

Quando​ ​saí​ ​da​ ​viatura,​ ​perdi-me​ ​nos​ ​meus​ ​pensamentos,​ ​desejosa​ ​de​ ​desfrutar​ ​da tranquilidade​ ​do​ ​meu​ ​lar​ ​por​ ​muito​ ​pouco​ ​tempo​ ​que​ ​fosse. Assim​ ​que​ ​cheguei​ ​à​ ​porta,​ ​senti​ ​algo​ ​debaixo​ ​do​ ​pé.​ ​Vi​ ​que​ ​era​ ​um​ ​telemóvel​ ​e fiquei​ ​surpreendida​ ​por​ ​não​ ​o​ ​ter​ ​estragado.​ ​Ao​ ​agarrar​ ​nele,​ ​inspeccionei-o​ ​e​ ​nem sinal​ ​de​ ​um​ ​arranhão.  

Mas​ ​que​ ​raio?!​ ​Porque​ ​deixaria​ ​alguém​ ​um​ ​telemóvel​ ​aqui?​ ​Nem​ ​sequer​ ​trazia​ ​um  bilhete.​ ​Mais​ ​ainda:​ ​quem​ ​é​ ​que​ ​deixa​ ​uma​ ​prenda​ ​no​ ​chão?​ ​Talvez​ ​houvesse alguma​ ​informação​ ​útil,​ ​em​ ​formato​ ​digital,​ ​dentro​ ​do​ ​próprio​ ​aparelho.  

Liguei-o​ ​e,​ ​atordoando-me​ ​a​ ​vista,​ ​uma​ ​luz​ ​muito​ ​intensa​ ​brotou​ ​de​ ​repente. Foi​ ​de​ ​tal​ ​maneira​ ​agressiva,​ ​que​ ​deixei​ ​cair​ ​o​ ​telemóvel,​ ​o​ ​qual​ ​partiu​ ​o​ ​chão.​ ​A​ ​luz  expandiu-se​ ​para​ ​lá​ ​do​ ​horizonte​ ​para​ ​depois​ ​se​ ​concentrar​ ​numa​ ​torre​ ​que​ ​atingiu​ ​o céu.​ ​Este​ ​ficou​ ​negro​ ​e​ ​um​ ​buraco​ ​começou​ ​a​ ​tomar​ ​forma,​ ​do​ ​qual​ ​desceram​ ​naves com​ ​um​ ​aspecto​ ​bizarro.​ ​No​ ​interior​ ​daquela​ ​brecha​ ​havia​ ​um​ ​conflito​ ​de​ ​forças  titânicas,​ ​como​ ​se​ ​o​ ​espaço-tempo​ ​se​ ​recusasse​ ​furiosamente​ ​a​ ​ser​ ​distorcido.   Para​ ​meu​ ​grande​ ​terror,​ ​tudo​ ​e​ ​todos​ ​à​ ​minha​ ​volta​ ​tinham​ ​sido​ ​limpos​ ​e​ ​a​ ​única  evidência​ ​era​ ​o​ ​novo​ ​povo​ ​a​ ​chegar.​ ​Umas​ ​quantas​ ​criaturas​ ​antropomorfológicas rodearam-me,​ ​porém,​ ​só​ ​uma​ ​me​ ​falou: 

-​ ​Precisamos​ ​de​ ​ti​ ​para​ ​esta​ ​nova​ ​etapa.​ ​Tragam-na.​ ​-​ ​Em​ ​seguida,​ ​os​ ​outros  agarram-me​ ​e​ ​levaram-me​ ​para​ ​a​ ​nave,​ ​ignorando​ ​por​ ​completo​ ​a​ ​minha​ ​resistência, que​ ​de​ ​nada​ ​me​ ​valia.    

 

Acabei​ ​de​ ​acordar​ ​no​ ​meu​ ​escritório​ ​toda​ ​suada.​ ​Quando​ ​pensei​ ​que​ ​havia​ ​sido apenas​ ​um​ ​pesadelo,​ ​reparei​ ​nalgo​ ​ao​ ​meu​ ​lado​ ​a​ ​brilhar.​ ​Era​ ​aquele​ ​telemóvel!    

 

2

A​ ​amizade​ ​é​ ​mais​ ​ou​ ​menos​ ​como​ ​o​ ​romance,​ ​mas,​ ​ao​ ​contrário​ ​do​ ​segundo,​ ​é puramente​ ​baseada​ ​num​ ​amor​ ​que​ ​podemos​ ​partilhar​ ​com​ ​dezenas​ ​de​ ​pessoas  sem​ ​despedaçar​ ​ninguém,​ ​o​ ​que​ ​não​ ​acontece​ ​com​ ​o​ ​romance​ ​devido​ ​ao​ ​seu egoísmo​ ​(encantador).  

Talvez​ ​haja​ ​pessoas​ ​que​ ​consigam​ ​ser​ ​felizes​ ​sem​ ​uma​ ​alma-gémea,​ ​contudo,​ ​se não​ ​tiverem​ ​amigos,​ ​caem​ ​no​ ​poço​ ​abismal​ ​e​ ​afogam-se​ ​na​ ​melancolia.​ Não havendo​ ​romance,​ ​há​ ​braços​ ​calorosos,​ ​porém,​ ​na​ ​ausência​ ​destes,​ ​o​ ​Inverno​ ​é perene.  

É​ ​o​ ​meu​ ​caso.​ ​Choro​ ​a​ ​tua​ ​perda,​ ​Mafalda​ ​Virgínia,​ ​pois​ ​o​ ​acidente​ ​limpou-te​ ​a  memória​ ​e​ ​agora,​ ​para​ ​ti,​ ​não​ ​passo​ ​de​ ​um​ ​desconhecido.​ ​Éramos​ ​grandes​ ​amigos! Melhores​ ​amigos,​ ​aliás.  

Quando​ ​te​ ​conheci,​ ​estavas​ ​a​ ​lanchar​ ​na​ ​faculdade.​ ​Reparei​ ​que​ ​começaras​ ​pelo  sumo​ ​e​ ​que​ ​só​ ​depois​ ​é​ ​que​ ​comeras​ ​a​ ​sandes.​ ​Perguntei-te​ ​o​ ​porquê​ ​dessa  inovação​ ​e​ ​tu​ ​mandaste-me​ ​catar​ ​macacos,​ ​rindo-te​ ​mal​ ​comecei​ ​a​ ​procurar​ ​bichos no​ ​teu​ ​braço.  

Assim​ ​surgiu​ ​uma​ ​óptima​ ​amizade​ ​em​ ​que​ ​a​ ​brincadeira​ ​era​ ​quase​ ​sempre  soberana.​ ​Sim,​ ​quase,​ ​porque​ ​quando​ ​nos​ ​chateávamos,​ ​vinha​ ​tudo​ ​abaixo,​ ​mas nada​ ​que​ ​não​ ​se​ ​resolvesse​ ​com​ ​uma​ ​conversa​ ​tranquilamente​ ​sincera.  

Sinceridade​ ​nunca​ ​te​ ​faltava​ ​para​ ​dizer​ ​bem​ ​ou​ ​mal.​ ​Lembro-me​ ​de​ ​teres​ ​desancado  a​ ​Íris​ ​Vanessa​ ​por​ ​ter​ ​espalhado​ ​que​ ​eu​ ​ainda​ ​fazia​ ​chichi​ ​na​ ​cama​ ​aos​ ​18​ ​anos.​ ​Eu pedira-vos​ ​que​ ​guardassem​ ​segredo,​ ​mas​ ​somente​ ​tu​ ​me​ ​respeitaste​ ​à​ ​frente​ ​da  turma​ ​inteira,​ ​que​ ​gozava​ ​comigo.​ ​«Só​ ​eu​ ​é​ ​que​ ​posso​ ​gozar​ ​com​ ​o​ ​Ronaldo​ ​João!». E​ ​era​ ​verdade.​ ​Não​ ​falhavas​ ​uma​ ​para​ ​fazer​ ​piadas…​ ​em​ ​privado,​ ​claro.  

Costumavas​ ​ser​ ​uma​ ​besta​ ​quadrada,​ ​porém,​ ​também​ ​sabias​ ​ser​ ​querida​ ​e​ ​naquele  dia​ ​fizeste​ ​questão​ ​de​ ​me​ ​levar​ ​ao​ ​cinema​ ​com​ ​tudo​ ​pago​ ​por​ ​ti.​ ​Infelizmente,​ ​o filme​ ​era​ ​uma​ ​seca,​ ​portanto,​ ​passámos​ ​o​ ​tempo​ ​a​ ​atirar​ ​pipocas​ ​um​ ​ao​ ​outro​ ​num canto​ ​isolado. 

Por​ ​favor,​ ​volta.  

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