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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

05
Set20

É só mais uma comédia romântica (6)

Olavo Rodrigues

Márcio para de escrever assim que se aproxima a contínua da cafetaria. A sua roupa está empapada de suor e algumas gotas atingem o diário. Quando as vê, o rapaz pensa que, se estivesse à vontade, o caderno estaria encharcado, não só de transpiração, mas também de lágrimas.

- Estás bem, miúdo? – O jovem demora algum tempo a reagir.

- Sim, obrigado.

- De certeza? Já vi maratonistas menos suados.

- É uma questão hormonal.

- ‘Tá bem. Olha, tu é que és o Márcio?

- Sim. Porquê?

- Toma. – A mulher entrega-lhe um pequeno papel. – Ontem uma menina passou por aqui e pediu-me para te dar isto. Falou-me de um moço que anda sempre com um caderno como esse, portanto, suponho que sejas o Márcio certo.

 

“Meu bem-amado, perdoa-me a ausência repentina. Para te escrever, falta-me tempo… e coragem, pois recentemente ouvi-te falar de outra rapariga. Era desmedida a admiração com que entoavas e gesticulavas o brilho que trouxe à tua vida. Fiquei com a impressão de que o rapaz com quem estavas, por outro lado, estava tão morto de tédio, que teria sido engolido pelo chão de bom grado se isso acabasse com o seu tormento. Perdoa-me ter estado à escuta. Não costumo ser abelhuda, mas escutar-te de longe é uma das poucas formas cómodas de conversar contigo. O que eu dava para estar no lugar do teu colega!

Depressa percebi que, como desconfiei, precisas de uma mulher idílica e desde cedo me conformei com a ideia de que, o mais provável, é que essa sortuda não seja eu. A naturalidade do encanto que expressaste fala por si. Afinal, como poderias descrever a erupção de deslumbramento por alguém que não tem rosto? Onde está a autenticidade de alguém que não tem uma alma palpável e cuja sinceridade não podes verificar no olhar?

Gostava de te dar mais, mas sozinha não consigo. Preciso de uma mãozinha. Vem tu ao meu encontro, por favor. Reenvia-me esta carta com uma das opções marcadas abaixo. Não aceites o meu amor se não for esse o teu rumo, meu querido pássaro de seda, mas peço-te que me vejas, pelo menos, uma vez. Encontra-me às 15:00 na sexta-feira, no parque de estacionamento da faculdade, se te aprouver.

 

A tua admiradora”

 

Márcio lê a mensagem diversas vezes. Abaixo do texto há dois quadradinhos: um encimado por “sim” e outro por “não”. Os seus olhos oscilam incessantemente entre as duas hipóteses até que se farta e atira o papel para a mesa com brutidão. No mesmo instante, arrepende-se, apanhando-o a deslizar. Chegou o momento por que tanto ansiou, especialmente na adolescência. Não sabe se é da angústia assoladora; contudo, não está minimamente curioso nem interessado em encontrar-se com a sua admiradora. Adriana não o abandona desde aquela tarde e ele não distingue se é amor ou fixação. Uma vozinha dentro de si sussurra que deixar dois pássaros voar sem sequer tentar ficar com um na mão é um desperdício de vida grave, mas além da falta de interesse, impõe-se o receio de que também a nova rapariga se canse dele.

Apesar disso, sabe que deve ser sensato e honesto para com ela, pelo que, depois de encarar de novo os dois quadradinhos, risca a medo o do “sim”.  

 

O rapaz está à espera no parque de estacionamento. Está a suar em bica, mas não distingue se é do nervosismo ou do calor abrasador. Observa transeuntes que chegam aos bochechos e entram nos carros, alheios ou indiferentes à presença daquele jovem. Alguns deles são raparigas da sua idade, portanto, o coração de Márcio quase fura o peito de tanta ansiedade. Tenta adivinhar-lhes o interior, pois quanto menos doloroso for o impacto, melhor, e ruminar palavras não o ajuda se não tiver uma vaga ideia de com quem fala. Quem é que quer enganar? A ideia já está formada e vai ser horrível. Escorreu-lhe que não há pior castigo que uma alma sensível ter de despedaçar uma congénere. Nenhuma das poucas moças o aborda. Pensou tê-la encontrado quando uma caminhou na sua direção, mas foi só para chegar a um carro perto dele. O telemóvel indica 15:20. Mais cinco minutos e vai-se embora…foi uma partida, quase de certeza.

- Olá, Márcio. – Uma rapariga acena-lhe por trás de um carro e vai ao seu encontro. – Desculpa o atraso, mas tive de resolver um assunto importante na Secretaria. – Trocam beijos na cara.

- És tu?! – A moça diz que sim com a cabeça, olhando para baixo.

- Mas, desde que fui expulso da sala na outra faculdade, só me tens evitado. Aliás, nem sequer sabia que andavas aqui.

- Sabes… cometi um erro. Não queria admitir que gostava de alguém tão… ah… invulgar como tu, mas depois percebi que são pessoas assim que tornam o mundo um lugar melhor e menos aborrecido. És bondoso e divertido e teres feito algo tão grandioso só para me impressionar mostra o quanto és dedicado. Quero alguém assim comigo. – A garganta de Márcio enrola-se. A rapariga fita-o, desvanecendo-se-lhe o sorriso após um longo silêncio. – Está tudo bem? Não vais dizer nada?

- Olha, não vou mentir-te. Adorei e estou-te muitíssimo agradecido pelas cartas, mas infelizmente gosto de outra pessoa. Quero dizer, não é um sentimento recíproco, mas ainda não estou pronto para outra rapariga.

- É a Adriana?

- Conhece-la?

- Conheço.

- Conhecemos. – Joel prime o gatilho e o outro estudante cai imóvel com um tiro na nuca.

- Silenciador de bala? Astuto. À conta deste badameco chato, não conseguia estudar nem prestar atenção às aulas. Parecia uma lapa.

- Nunca mais vou ter um catorze. Atrasei-me tanto por causa dele…

- Já está despachado, mano. Como é que ele gostava da minha amiga e eu não sabia?

- Como é que a Adriana é tua amiga?

- Não sejas assim. Ela curte-te.

- Mas eu não gosto dela. Posso? É doida e achou o Márcio fixe! Não é tão doida como ele, mas mesmo assim…

- Estás a falar, mas quiseste protegê-la.

- Não desejava a inconveniência do Márcio ao meu pior inimigo.

- Já podem aparecer, manas – Dos arbustos emergem uma rapariga loira e outra morena. Ambas têm luvas e uma segura um lençol e outra um saco.

- Este já não constrange mais nenhuma. – Atira a morena.

- O coitadinho do meu sapo teve de o beijar.

 

Que doloroso aperto no estômago! Não me deixa pensar com clareza. Por muito que o Márcio me tenha assustado, nunca vou perdoar-me por a última coisa que lhe disse ter sido “esquece que eu existo”. É claro que eu não podia prever a tragédia e só estava a tentar defender-me de um possível maníaco, mas quando alguém parte, queremos que leve uma boa recordação de nós. Gostava de ter feito alguma coisa para o livrar da desgraça. Se ao menos, tivesse estado no sítio certo à hora certa. Se ao menos, tivesse sabido a tempo que ele estava arrependido, talvez tivéssemos sido bons amigos. Cheira-me que ia haver barrigadas de rir com fartura e eu ia ver aquele ser humano tão cheio de vida e, vontade de agradar, de outra perspetiva.

O Joel aparenta ser de gelo, mas ficou arrasado e as suas irmãs também. Uma delas é minha amiga e, ao que parece, todas se cruzaram com o Márcio nalgum momento. Como era o Joel que passava mais tempo com ele, entregaram-lhe o seu diário, o qual o meu colega me deu. Achou que o Márcio ia querer isso.

Que se faça justiça e os assassinos paguem caro pelo crime! Prisão perpétua era o que mereciam se existisse em Portugal! Entretanto, vou lendo o conteúdo deste caderno. Já que não posso estar com o autor, vou conhecê-lo através do que resta dele. Descansa em paz, Márcio. Estás perdoado.

 

Adriana – a tua eterna amiga

05
Set20

É só mais uma comédia romântica (5)

Olavo Rodrigues

Saco do telemóvel, que me foge das mãos como um sabonete e se esbardalha no chão. Parece que tento respirar com um rinoceronte em cima do peito. Esta miúda é doida! Mais do que eu! Apresso-me a apanhá-lo, magoando-me na cabeça ao bater numa mesa. Isto é uma maluquice pegada! São 18:55! Gaita! O caminho para o telhado ainda é longe, por isso, desato a correr. À medida que me cruzo com outras pessoas, só me escapa “saiam da frente!”. Porque é que não me calhou alguém como a Adriana?!!! Para me dar dores de cabeça já chego eu próprio!

No exterior deparo-me com uma praxe em que há dezenas de pessoas. Ia ser difícil passar a correr sem ir de encontro a ninguém, pelo que abrando e me infiltro na maré de foliões barulhentos, alguns dos quais bêbados. Um dos praxantes, que tresanda a cerveja, barra-me o caminho.

- Aonde é que pensas que vais? Queres baldar-te, é? Aqui ninguém se livra da praxe, espertalhão! Se entraste, só sais quando acabar.

- Não estás a perceber. Não faço…

- Ó, Diogo, olha-me este a querer safar-se. – Grita o rapaz. Num estalar de dedos, o outro aproxima-se e passam a ser dois obstáculos a contornar.

- O que é que fazes longe dos outros caloiros? E porque é que tiraste a camisola da praxe?

- Eu não faço…

- Já lá para a frente. – Vira-se para o primeiro. – Vamos obrigá-lo a beber cerveja enquanto faz o pino.

- Népia, mano. É mais fixe se ele fizer um desenho com a cara cheia de baba de camelo.

- Não, meu. ‘Bora dar um momento de glória ao puto. – Agarro a oportunidade para voltar a correr e acho que aqueles estão com uma broa tão grande, que nem sequer reparam. No edifício principal alcanço, por fim, as escadas que conduzem ao telhado. Assim que lá ponho os pés, berro:

- Para! A vida vale a pena! – Mas estou sozinho. Quando verifico as horas, o telemóvel marca 19:06. Dirijo-me de imediato à beira do telhado e olho para baixo. Porém, tudo está normal: ninguém se desgraçou nem se reuniu um aglomerado de pessoas. Não entendo. – Onde estás?!!! –  Silêncio… vou para outra zona? – Onde estás?!!! – Silêncio… - Aparece!!!

- Estou mesmo atrás de ti. – Sentada numa cadeira que não se encontrava ali, está a Adriana a comer uma travessa de lasanha no colo. Espera, o quê?!

- Ah… como? Porquê? Porquê?!

- És servido?

- Porque é que trouxeste lasanha para o telhado?

- Porque não havia esparguete à bolonhesa, mas isto também é um pedaço do Céu na Terra. Hum! Péssima para o colesterol tal como eu gosto.

- Onde é que estiveste toda a minha vida?

- A tirar bocados de bolo da roupa e do corpo.

- Então, afinal, és mesmo tu a autora das cartas?

- O que é que te parece?

- Porque é que mentiste?

- Que raio de romântico és tu se queres saber logo tudo?

- E precisavas de me assustar de morte?

- Tinha de garantir que vinhas a correr.

- Eu corria de qualquer maneira. Bastava chamares-me.

- Não te bastava um parafuso. Perdeste logo a caixa toda.

- Dá-me um dos bocados com mais queijo.

- Vem cá buscá-lo. – A rapariga dobra, com cuidado, uma folha de lasanha avermelhada do molho e dourada do queijo e enfia-a na boca, deixando metade de fora, além de que salpica o traje no processo. Em seguida, ergue-se devagar e abraça-me. Eu mordo a parte do exterior e também os nossos lábios se abraçam, ainda que por míseros segundos. Há que comer a lasanha primeiro. Pronto, agora sim! Viva a marmelada!

- Sujaste-me com o molho.

- Deixa-te de tretas. Tu fizeste muito pior. – A paleta de tons amarelados, alaranjados e avermelhados do pôr do sol incide sobre nós. Pelo meio das mensagens enviadas através dos lábios a roçar, iluminam-se emoções intensas e ardentes. Um banho de luz e paixão.

 

Tu inventaste toda uma telenovela à volta de uma relação comigo?! Confesso que me sinto mal por ter espreitado o teu diário, mas, ao mesmo tempo, ainda bem que o fiz. Quando te disse que achava piada à tua doidice, não quis incentivar-te a bisbilhotar todos os cantos em que me meto nem a importunares o Joel… e muito menos a viveres numa irrealidade! Há limites, Márcio! E prejudicar um colega e não largar a ficção – especialmente quando se trata de outra pessoa – é pisar o risco.

Sim, naquela tarde foi querida toda a conversa de seres muito carismático, porque também mostraste a tua insegurança e pensei que essa autoestima exacerbada fosse uma defesa. Apesar de estranho, pareceste-me genuinamente humano, mas fantasiares com algo tão mórbido como o suicídio para “eu te ver” é doentio.

O Joel acertou em tudo o que te disse. Esquece que eu existo.

 

PS: Detesto lasanha.

 

Adriana

 

Também eu aproveito a intrusão para te avisar de que o professor aceitou que nos separássemos. Isto era escusado, claro está, pois não estava previsto haver este tipo de exceção infeliz. Agora que já tens o parecer da própria Adriana, espero que compreendas, por fim, aquilo para que tentei alertar-te há bocado. Percebo pela maneira como te expressas aqui que és bastante inteligente ao contrário do que pensava. Usa-o para o bem.

 

Joel

 

Ao sair da sala para ir beber café, esqueci-me do diário na mesa e, quando fui aos Perdidos e Achados, encontrei estas mensagens. A do Joel não me incomoda muito. Como está escrita a lápis, posso apagá-la mais tarde, mas a da Adriana… fez-me lacrimejar. Ainda por cima, foi escrita numa cor diferente, realçando ainda mais a repulsa cortante. Contive-me para não chorar em público. No entanto, o impacto da sua recusa foi de uma brutalidade indescritível. Já me tinha sentido abalado pelos vários nãos que recebi até à data, mas, por alguma razão, nenhum buraco se compara ao que a Adriana acabou de abrir. Igual na forma de atração. Diferente na forma como provoca a minha reação ao choque.

Sim, é verdade. A partir do momento em que vejo o envelope, é tudo inventado. A minha admiradora nunca mais me escreveu. A Adriana só quer distância de mim e agora já nem sequer tenho o Joel. Pensando bem, da mesma maneira que estava a criar uma ligação forçada à primeira, também estava a criá-la ao segundo. A rapariga não me quer como namorado e o rapaz não me quer como amigo.

Porém, eu sinto tudo com imensa intensidade. Não sei agir de outro modo. Sempre que sinto uma empatia por alguém, surge de imediato em mim a vontade de ser o seu melhor amigo. Há quem não suporte a humanidade por ter perdido a fé nela, mas eu daria este mundo e o outro a toda a gente se fosse humanamente possível. Até era capaz de perdoar à Adriana o atrevimento de não apreciar lasanha. Eu gosto de pessoas incondicionalmente, porque são complexas, diversas e esquisitas. O meu fascínio por raparigas é tão grande por serem tão diferentes de mim. Em cada esquina existe um sem-fim de potenciais oportunidades de espanto, pois é divertido gostar da esquisitice dos outros. Só queria que achassem a mesma coisa da minha.

Creio que podia tentar mudar-me, já que não mudo os outros. Contudo, sozinho sou incapaz. Que pessoa seria senão esta? Preciso de ajuda, mas afastei toda a gente. Como posso mudar sem ter ninguém que mo ensine?  Estou ciente de que me excedi ao recorrer à morbidez, ao cantar no meio da aula, ao fazer um pedido de casamento precoce e ao disparar “eu amo-te” demasiado cedo. Mas não sei ser de outra maneira… ajudem-me… não sei… eu não sei…

05
Set20

É só mais uma comédia romântica (4)

Olavo Rodrigues

Quarta-feira

Estes últimos dias não tenho recebido cartas e, para mal dos meus pecados, também não me tenho cruzado com a Adriana. Sinto saudades, mas não sei de quem são as mais aguçadas: se da minha admiradora, se da musa que admiro. Adoro a segunda, mas não nego que a ausência da primeira me deixa um pouco… vazio. Eu gosto daquele tipo de atenção. Nem uma nem outra. Nem ando nem desando. Estou nesta corda bamba e o Joel só quer saber do raio do trabalho em vez de se focar no que realmente importa. Não posso culpá-lo de certa forma. É a única coisa que conhece. De certeza que, se lhe dessem a provar um pouco de amor, arrebitava logo. Não ia querer outra coisa.

Hum… pensando bem, talvez não seja boa ideia. E se ficasse a ver navios como eu? Se eu, que sou bonito e divertido, me desunho para as raparigas repararem em mim, o que achariam do Joel? Como se diz e muito bem, a ignorância é uma bênção, portanto, mais vale deixá-lo ser feliz à sua maneira.

- Quando estiveres pronto, avisa. – Diz ele atrás de mim com uma pilha de livros que pousa na mesa ao sentar-se. Ocupámos uma sala vazia que encontrámos no pavilhão. Nem acredito que trouxemos aquilo tudo. São “só alguns livros”. “Alguns”, disse ele. Ponho o diário de lado enquanto o meu colega não tarda a enfiar o nariz num matacão.

– Pensava que era suposto os diários serem privados. – Comenta sem desviar o olhar da obra.

- Geralmente, sim.

- O teu é?

- Iá.

- Então, experimenta não o ler em voz alta em público.

- Apanhaste o que escrevi sobre ti?

- Sim.

- Ótimo! Assim ficas com um excelente conselho para a vida.

- Diz aqui que, tal como já comentámos em aula, Judith Butler defende que o género é performático. O que achas desta afirmação?

- A Adriana fala de mim quando estão juntos?

- O que é que isso tem a ver com o que te perguntei?

- Ela faz mesmo o meu género de miúda e gostava de “performar” com ela umas cenas, se é que me entendes.

- Não sejas ordinário. E “performar” nem sequer é uma palavra.

- Não é nada disso que estás a pensar, badalhoco. Só quero um beijinho. O resto logo se vê.

- Então, porque é que não disseste logo isso?

- Porque é que tu complicas sempre tudo? Qual é o mal de partilhar estas coisas entre homens? Hã? Não tens nenhuma giraça na mira? – O Joel ter-me-ia reduzido a cinzas se o olhar queimasse.

- Por favor, podemos focar-nos apenas no trabalho? Detesto fazer as coisas em cima do joelho.

- Diz-me só se ela fala de mim.

- Márcio…

- Vá lá. Só isso, por favor.

- Sim, fala. Diz que és porreiraço e tal. Já podemos trabalhar?

- “Porreiraço” como?

- Disseste que não insistias mais.

- Mas agora fiquei curioso. Se uma miúda como a Adriana me acha porreiraço, quero saber porquê. – O rapaz levanta-se e pega na pilha de livros. A sua sorte é que a maioria deles é fininha.

- Tem um zero se quiseres. Eu não tolero isto. – Começa a afastar-se.

- Não, Joel, espera. Pode não ser nada de especial para ti, mas significa mesmo muito para mim. – Tento agarrar-lhe o braço, mas ele finge que não me ouve e solta-se. No entanto, ninguém consegue calar um tagarela apaixonado. Quem tem de aturar o “não, desliga tu” que o diga. - Não a vejo há dias e estou a morrer de saudades. É como se estivéssemos afastados há décadas e saber que ela também pensa em mim… é reconfortante. Eu amo-a, Joel. – O meu colega estaca e vira-se para mim novamente.

- Estiveste com ela uma tarde. Não sejas precipitado.

- Nunca ouviste falar em amor à primeira vista? Eu já estava interessado nela antes de lhe encher o traje de bolo, lembras-te? Só que tu não te importaste, porque estás sempre com a mesma conversa da treta.

- De que página do Facebook é que tiraste isso?

- Olha outro!

- Se eu sou assim tão ignorante e aborrecido, porque é que não me largas? O que é que eu posso acrescentar assim de tão útil?

- Eu não preciso da tua ajuda para me orientar com ela. Não quero conselhos, mas gosto de que me digas informações que me facilitem a aproximação como: o que é que pensa de mim, o que achas dela, os lugares que costuma frequentar, caso queira fazer-lhe uma surpresa…

- “Os lugares que costuma frequentar”? Márcio, estás a ouvir-te? Pedes-me que colabore com uma perseguição. Não percebes o quanto a tua ideia de conquista é sinistra? É por este teu traço que evito falar destas coisas contigo. Sei como és e não me agrada de todo que pessoas como tu andem atrás de quem quer que seja. É fácil tirar-te a pinta, mas tenho uma amiga da tua faculdade anterior que me descreveu como te comportavas e, pelos vistos, não mudaste rigorosamente nada.

Tu não amas a Adriana. Apaixonas-te por qualquer rapariga que aches bonita ou te sorria. Ninguém te quer, porque és chato, convencido, burro e sinistro. Amadurece, sabichão! Eu não sei muito dela, porque nem faço questão, mas pelo seu bem e pelo teu, não te digo mais nada para poupar uma dor de cabeça à minha colega e impedir que sejas processado por perseguição. Boa sorte para, nesta altura do campeonato, encontrares um parceiro de projeto que te ature. Só pus o meu nome ao pé do teu, porque os outros grupos estavam cheios. – Ato contínuo, o Joel retoma o andamento, o que me impulsiona a pôr-me de pé de um salto e gritar:

- Tu és um frustrado! És presunçoso, mas nunca alcançaste nada além de notas mecânicas. És um robô! És vazio! Ao menos, eu tento fazer alguma coisa pela minha pessoa em vez de ser frio e antipático! – Ele sai porta fora, mas eu acompanho-o para gritar no corredor. - Nem sequer perguntas à Adriana como é que ela está! Ao menos, eu importo-me com as pessoas e não ignoro uma potencial amiga que está mesmo à frente do teu nariz empinado! Por acaso, caem-te os parentes na lama se lhe retribuíres a simpatia, seu imbecil arrogante?!

Despreza-me sem olhar para trás e desaparece da minha vista. Que raio! As pessoas deviam olhar-se ao espelho antes de chamarem “burras” às outras. Toda a gente sabe que, quando o Cupido goza com a nossa cara… não há nada a fazer… independentemente de quem é a iniciativa.

Mal volto para o interior da sala, deparo-me com um envelope a meus pés. Abro-o e… não evito saltar de alegria ao ver o remetente!... Só que depois leio o conteúdo da carta:

“Meu eterno e único amor, a cada dia que passa o meu sentimento por ti intensifica-se tanto quanto a fraqueza emocional. O peso de não ser suficiente para ti está a sufocar-me. Não aguento muito mais. Não posso viver assim! Como se não bastasse eu ser irremediavelmente tímida, não vejo o mínimo esforço, a mínima curiosidade da tua parte em procurar-me. Mas atenção, isto não é uma crítica, meu bem-amado. Jamais te pediria que te prendesses por mim. Seria ingénuo e egoísta da minha parte esperar que o teu inspirador espírito livre, a tua maior qualidade, se limitasse por mim. Não sei se és a melhor ou a pior pessoa do mundo, mas és a única que tenho. Obrigada. Obrigada apenas por existires.

Antes de me despedir, gostava de te fazer um pedido se me permites. Às 19:00 estarei no telhado da faculdade e, já que não consigo ir até ti, por favor, vem tu até mim. O intuito não é aceitares o meu amor, mas queria ver-te antes de pôr termo a tão duradouro sofrimento e, sentir por uma vez, por breves momentos, que a vida vale a pena.

A tua admiradora”

04
Set20

É só mais uma comédia romântica (3)

Olavo Rodrigues

Quinta-feira

Já era suficientemente difícil estar atento às aulas antes e agora vem – não acredito que é mesmo real – uma admiradora secreta que piora tudo. Também ela não me sai da cabeça. Pelo menos, já temos algo em comum. Eu preciso de saber quem é. Gostava de experimentar topá-la ao analisar a letra de alguém, mas seria inútil, porque a carta estava impressa. Bom, isso também é uma pista, visto que nem toda a gente tira apontamentos em cadernos. O que não falta nesta sala são portáteis, tablets e essas cenas. Será que ela está aqui escondida a algum canto a escrever-me outra carta? Isso queria dizer que já tínhamos dois aspetos em comum. Eu também estou a marimbar-me para isto! Arranco uma folha do caderno, amachucando-a e ando em direção ao balde do lixo, que está na parte da frente da sala. À medida que passo por alguns aparelhos eletrónicos, olho-os de soslaio, mas não apanho nada de interessante. Uns têm apontamentos, outros mostram videojogos, há quem esteja a ver vídeos sem som ou com fones, mas não encontro nenhuma declaração de um amor incontrolável. Volto ao meu lugar como se o que tivesse ido para o lixo fosse a minha expetativa.

Raios! Onde estará essa musa tão misteriosa e dedicada?! Oxalá eu fosse um pouco menos perfeito para ela não ter tanto medo. Oh! Terrível contrariedade! A perfeição atrai, não repele! Porque é que ela não me procura diretamente? Eu saciava-lhe o desesperante desejo de mim e ficávamos, por fim, completos!

- Estás bem? – Pergunta-me o colega do lado, acordando-me dos meus devaneios.  

- Iá, porquê?

- Parecias um bocado nervoso… a mexeres-te… e a contorceres-te dessa maneira.

- Népia, não te preocupes. É exercício matinal.

 

Apanho o Joel no corredor, que caminha cabisbaixo, e interpelo-o, agarrando-o.

- É ela, não é? Por favor, diz-me que é ela. – O rapaz mostra a mesma expressão que eu quando me falou do trabalho.

- Desculpa?

- A rapariga que te falou na cantina. Foi ela que me mandou a carta, não foi? Disseste que não me ajudavas, mas mexeste uns cordelinhos e ela enviou-me a carta. Mas, claro, eu finjo que não sei que foi obra tua. – Pisco-lhe o olho.

- Márcio… a sério que não percebo o que estás a dizer. Se não te importas, estou com alguma pressa.

- Diz-me só onde é que ela está.

- Quem?

- A moça!

- Não faço ideia. Já te disse que não me dou com ela.

- Quando é que têm aulas juntos?

- Isso querias tu saber.

- Vá lá, puto, diz-me ao menos isso.

- O que é que vais fazer? Invadir a aula?

- Não…

- Adeus, Márcio. – Começa a afastar-se.

- Espera! – Mas ele ignora-me e eu bufo. Vou ao cacifo para trocar de material. A primeira coisa que vejo, encostada à parede, é um envelope. Solto uma exclamação! Será que é?... Sim, é dela! – Obrigado, Joel! És o maior! – Já ao longe, ele olha para mim, de polegar levantado, mas depressa volta à sua vida.

 

“Meu amor, estou sempre a sonhar contigo, quer de dia, quer de noite. Ainda não sabes quem eu sou e é provável que assim permaneça por enquanto, pois sou demasiado reservada para me revelar espontaneamente. Não tenho coragem de te encarar. Não saberia olhar os teus inigualáveis olhos, que me pareceriam buracos negros, em vez das lindas pérolas cintilantes que admiro ao longe, como as flores de um jardim que se observa da janela.

Adoraria trocar umas palavras contigo, mas aspirar-me-ias a voz. Fica, então, com este pequeno pedaço de mim por agora. Talvez um dia deixe de estar camuflada e afónica. Talvez…

 

A tua admiradora”

 

Não acredito! “Camuflada”?! Ela anda a espiar-me… e isso significa que anda perto de mim! Oh, mas quem será? Oh, mas quem será?! A autora do bilhete? Eu sei lá, sei lá. Eu sei lá, sei lá. Só há uma maneira de comprovar as minhas suspeitas, mas o cortes do Joel não quer descoser-se. Como é que hei de encontrá-la? Entro em piloto-automático, dado que não posso desperdiçar nem mais um minuto. Porém, convém mesmo ver por onde ando, porque acabo de colidir com uma rapariga que esborracha um bolo de chocolate enorme, o qual invade grandes porções do maravilhoso traje. Espera aí! Eu conheço-a! É ELA! Espera aí! Gaita! É ELA! E agora parece ter saído de uma poça de lama à minha conta.

- Desculpa!  - Restos de bolo salpicam, em larga escala, o chão daquele corredor. A cara da rapariga contorce-se de frustração, mas inesperadamente, não aparenta estar indecisa entre as inúmeras maneiras de fazer parecer que foi um suicídio. Limita-se a ficar em silêncio. – Desculpa…

- Eu ia perguntar-te se tinhas visto o Joel, mas agora já não vale a pena. – É verdade! O Joel! Aquele malandro fez outra vez das suas! É claro que não podia dizer-me onde ela estava: assim estragava-me a surpresa. Até se deram ao trabalho de me fazer um bolo e eu despedacei-o! Vai-te encher de moscas, Cupido, que agora tens concorrência. Ao menos, a ajuda do Joel presta, portanto, não posso deixar que vá tudo pelo cano.

- Acabei de passar por ele. Parecia estar com pressa. – Quem sabe para me preparar mais uma surpresa. - Se quiseres, posso mandar-lhe um e-mail ou assim.

- Não, obrigada, eu tenho o WhatsApp dele. De qualquer maneira, é melhor ir para casa. Que horror! O bolo entranhou-se-me no sutiã.

- Por favor, deixa-me levar-te a casa. É o mínimo que posso fazer depois disto.

- Sim, agradeço. Não tenho coragem de aparecer nos transportes públicos neste estado. Adriana. Prazer.

- Márcio. -  Digo enquanto apertamos as mãos.

 

No carro conduzo em silêncio já há algum tempo. A Adriana parece desconfortável, mas juro que a culpa não é minha. Ainda não abri a boca desde que chegámos ao veículo. No entanto, está muito calor e, mesmo com os vidros abertos, desconfio de que o pujante odor a chocolate e suor não contribui em nada para a descontração. Não devo falar, porque já aprendi que não é suposto ser eu a aproximar-me, mas o silêncio está a dar cabo de mim e tenho de saber se encontrei a autora das cartas. Falo? Não falo? Falo? Não falo?

- Então, o que é que tu e o Joel andam a preparar para a próxima surpresa? – Tarde de mais.

- Surpresa? Para quem?

- Vá lá, podes parar de fingir. És tu que mandas as cartas, não és?

- Quais cartas?

- As de amor.

- Eu mal te conheço!

- E daí? Tens de me conhecer para gostares de alguma coisa em mim?... Tipo: “os meus inigualáveis olhos, que são pérolas cintilantes que admiras ao longe, como as flores de um jardim que se observa da janela”? – Silêncio… entreolhamo-nos.

- Dói-te o quê? Isso soa a uma daquelas tretas que a minha avó partilha no Facebook. Foi daí que tiraste essa foleirice?

- Percebo que tenhas medo de te revelar. Embora transpire confiança e carisma, sou mais suscetível do que aparento… também tenho pavor da rejeição. Dói. Dói mesmo muito e acredita que sei do que falo, mas ninguém fica satisfeito na sombra. Porquê cingires-te a espiar a minha perfeição quando podes tornar-te parte dela? Prometo que não te faço o que me fizeram a mim. Eu não sou uma besta… assim tão grande. Já não precisas de conter o teu desejo desesperado por mim e ficamos felizes e completos – A Adriana segue-me com toda a atenção sem desenhar o mais ligeiro traço de desdém, gozo ou raiva. Enquanto eu exteriorizo aquele discurso, permanece em silêncio… a ouvir. Desvia em seguida o olhar e não profere uma única palavra. Como se um pedregulho me esmagasse, considero aquilo a sua resposta.

- És mesmo marado. – Oiço quando penso que o assunto está esquecido, mas não reajo. – Tu… és mesmo… chanfrado! – Desmancha-se à gargalhada. Contudo, é um riso diferente do habitual. Parece estar deliciadíssima com o que eu disse. – Eu não faço ideia de que página é que tiraste isso, mas devo admitir que, o que tem de doido e foleiro, também tem de querido. Precisas de mais prática nos engates, pá.

- Ah… primeiro: ambos sabemos que quem escreveu aquelas coisas foste tu. Segundo: consequentemente, foste tu que tentaste engatar-me.

- Eu?!

- Ias oferecer-me um bolo.

- O bolo era para uma amiga que faz anos hoje!

- Hum, hum… conta-me histórias. E teres ido contra mim, ao estilo das comédias românticas, foi um acidente, porque querias perguntar-me pelo Joel. Pois claro…

- Tens memória de galo ou quê? Se não tivesses sido tu a chocar comigo, eu agora não parecia uma mousse ressequida com pernas.

- Porque é que não te desviaste?

- Experimenta carregar um bolo do tamanho de uma roda de trator e vê se consegues andar aos ziguezagues. Porque é que tu andavas com a cabeça na lua?

- Porque estava a pensar nas lindas cartas que me escreveste. Tu e o Joel pensam que me dão baile, mas eu já vos apanhei. Mais vale acabarmos já com este mistério gasto e assumirmos esta bênção.

- O que é que o Joel tem a ver com isto?

- Vais mesmo continuar a fingir que não armaram isto tudo, porque lhe pedi que nos apresentasse?

- Márcio, se o Joel não falar do trabalho – e ainda assim é pouco – e me perguntar se eu estou bem, está algum santo para cair do altar. Vejo-me grega para o incitar a quebrar o gelo, quanto mais a… a arquitetar esse plano de loucos para te conquistar. Isto não é o Truman Show, bacano. Menos ficção, mais realidade. O que é que ele te disse sobre apresentar-nos?

- Que não o fazia… porque só se dá contigo por serem colegas.

- O que é que pode ser mais claro que isso?

- Sei lá! Às vezes, as pessoas dizem uma coisa e fazem outra. Por ser tímido podia não querer ser direto. – A rapariga ri-se.

- Não era mais fácil vires ter comigo do que imaginar essa maluquice toda? Ou é demasiado difícil para a encarnação da perfeição e do carisma?

- Quando sou eu a começar, nunca resulta. Acabo sempre por assustar ou irritar alguém.

- Eu ainda estou a conversar contigo e, para que conste, foste tu que começaste esta conversa.

- Então, aceitavas sair comigo? – Parei à porta da casa dela.

- Lamento, mas não estou interessada. Não é nada de pessoal, só que… estou de olho noutro. Obrigada pela boleia. – A Adriana sai do carro e, antes de abrir a porta de casa, despede-se com um aceno.

Após encontrar-me sozinho no carro, noto uma certa desilusão a expandir-se em mim. A minha admiradora, com aquelas palavras na ponta dos dedos, é sem dúvida dotada de uma grandiosa alma lírica. Uma rapariga sensível, carinhosa, dedicada e única por amar avidamente alguém tão único como eu. Ah! Ela tem tudo o que eu podia desejar. Sendo os dois românticos incansáveis, como poderíamos alguma vez entediar-nos ou ficar chateados por muito tempo? Mas então, porque é que eu não quero essa rapariga perfeita? Porque é que, uma vez mais, a perfeição repele em vez de atrair? A única vez na vida em que uma mulher se mostra interessada em mim é tão… dececionante. Parece um padrão: só me atrai quem me rejeita. Quero a Adriana. Quero que me diga, até ter os ouvidos cheios, como sou foleiro e chanfrado, mas com a sua medicinal gentileza. Preciso dela ao meu lado a dissecar a minha doidice e a mostrar-me que estou errado… mas ela disse-me que não. Uma vez mais, o Cupido conspirou contra mim, direcionando-a para um sortudo que não eu. Eu quero a sua companhia. Porque é que não pode ser a Adriana a autora das cartas? Espero que o tipo repare nela para, ao menos, alguém sair feliz disto.

E agora? O que faço a cartas que, afinal, não provêm de quem esperava? O que digo à rapariga se nos encontrarmos? E se ela colapsar por a recusa a levar a crer que não serve para mim, que sou demasiado perfeito? Não é que não esteja ao meu nível, mas… gostava que a candidata a essa honra fosse outra pessoa. Detesto ser obrigado a fazê-la passar por tão corrosiva dor. Nunca pensei um dia estar do lado oposto.

04
Set20

É só mais uma comédia romântica (2)

Olavo Rodrigues

Enfim, não vale a pena chorar por leite derramado. Nunca hei de entender as mulheres, mas como se diz, o amor não vem quando a gente quer, mas sim quando ele quer. Eu acredito. Já tentei esbarrar (literalmente) com ele à moda das comédias românticas, mas como sempre, a ficção mentiu. Não foi nada amor à primeira vista. Uma das raparigas com quem choquei até me atirou alguns dos calhamaços que a fiz deixar cair. Se não fossem os meus reflexos de ninja, tinha levado com um matacão de química na fuça. Não era bem essa química que eu procurava.

Faculdade nova, vida nova. Fecho o cacifo e dirijo-me à cantina. Os intervalos são a minha parte preferida da faculdade! Ao chegar à fila, avisto um grupo de alunos mais velhos com os típicos trajes universitários. Caramba! Como aquela roupa assenta bem às raparigas! Os membros do grupo são sobretudo do sexo feminino. Contudo, abstenho-me de avançar. Estou a abordar uma nova estratégia, esperando que sejam elas a vir ter comigo, já que o amor só se aproxima quando entende.

Uma das raparigas começa a caminhar na minha direção! Prepara-te! Este é o momento por que tanto esperaste! Está mais perto! Acalma-te! Convém não desmaiares antes de ela te cumprimentar. Cada vez mais perto! É mesmo gira! Está prestes a chegar!!! E passa por mim. Sem “ai” nem “ui”. Vai só deitar fora o que parece ser uma pastilha e volta a cruzar-se comigo, com a mesma frieza, de volta aos seus amigos. Nem sequer trocamos olhares. Será que um pouco de contacto humano é pedir muito, Cupido?!!! Senti um súbito toque no ombro, que era do velhinho atrás de mim.

- Mexe-te, puto! - Ahahaha! Que graça! “Cupido da treta! Deviam cair-te as asas em pleno voo para marrares com a fuça...”. Desculpem, mas não me lembro do resto da frase. Estava a pensar nisto enquanto preenchia outra vez o espaço da fila quando reparei que havia lasanha. Toda a gente sabe que, se há coisa que compete com o amor, é a comida e essa não pode fugir de mim nem julgar-me por ter má memória musical. Talvez nem tudo esteja perdido. Se calhar, a minha alma-gémea veio em forma de lasanha. Uma lasanha suculenta, macia, gordurosa e pejada de queijo. Hum! Péssima para o colesterol tal como eu gosto. Assim que me sento para a saborear, o meu olhar recai sobre um rapaz que segura um tabuleiro à procura de um lugar para se sentar. Aceno-lhe e ele aproxima-se.

- Então, Joel, como é que é? Queres abancar aqui? - Sem responder, senta-se e começa a comer. Ficamos em silêncio algum tempo, o que me dá urticária. - Estás a curtir as aulas de... que cadeiras é que temos juntos?

- O Estudo das Culturas. – Responde o meu colega, baixinho e cabisbaixo enquanto come sopa.

- Isso mesmo.

- Sim, são interessantes. – Mais silêncio. Podia ter-me perguntado a mim o que é que eu acho.

- Eu nunca sei quais são as que temos juntos.

- É só essa.

- Certo…

- Tens alguma preferência pelo pensador do trabalho? – Pisco os olhos perplexo.

- Pensador? Trabalho?

- Vamos fazer uma apresentação de um dos autores que estamos a dar e eu pus o nome na mesma data que tu. O professor reviu os grupos em voz alta – Hum… não me escorre.

- Ah, iá, é verdade. Escolhe tu.

- Porquê eu?

- Porque estou mesmo indeciso. – E também não presto atenção às aulas.

- Falamos sobre a Judith Butler.

- Seja, então, a Judite Butter.

- Judith Butler.

- Sim, pode ser essa. – A rapariga que passou por mim aproxima-se por trás do Joel e toca-lhe no ombro, o que o assusta.

- Olá. Desculpa interromper-te o almoço, mas era só para te dizer que já marquei a entrevista com a minha amiga e que ta envio em breve.

- Está bem. Obrigado. – Responde o rapaz sem levantar muito a cabeça. A moça sorri-lhe, embora ele não repare e também me dirige um “olá”. Vejo-a partir e, em seguida, chego-me à frente, batendo na mesa de tão entusiasmado. Uma vez mais, o outro moço salta da cadeira.

- Puto, és amigo daquele canhão?

- Colega, mas noutra cadeira.

- Ganda Joel, pá! – Abano-lhe o braço, mas, sem querer, faço-o entornar um pouco de sopa na mesa.

- Estou a comer.

- Desculpa… apresentas-ma?

- Não. – Uou! O miúdo mais acanhado da turma acabou mesmo de me atirar um “não” bem sólido e seco?

- Mas porquê?!

- Porque eu também não a conheço.

- Como assim? Ela acabou de te falar.

- Somos colegas, mas não a conheço mesmo. Não sei se estou a ser claro.

- E daí? Não tem nada que saber. É só dizer: “Márcio, esta é a “Não Sei das Quantas”, “Não Sei das Quantas”, este é o Márcio”.

- Se é assim tão fácil, porque precisas de mim? Fala logo tu com ela. – O meu colega levanta-se, pegando no tabuleiro. – Obrigado pela companhia. - E vai-se embora. Só depois de ele partir é que vejo que mal toquei na lasanha. Então, fico sozinho àquela mesa a acabar de almoçar enquanto remoo no facto de o Joel não querer ajudar-me. Quando sou eu a começar, nunca corre bem. Se ao menos ele o soubesse…

 

Finalmente! O fim do dia chegou. Acabei de ter O Estudo das Culturas e não sei o que teria sido de mim se não fossem as jeitosas que apresentaram hoje. Abro o cacifo para devolver todo o material à mochila. Ao arrastar um livro, vejo um envelope a cair no chão. No interior há uma pequena carta:

 

“Não imaginas as vezes que me visitas sem te dares conta. Eu tento expulsar-te com todo o meu ser, mas apesar do esforço, teimas em não sair-me da cabeça. És demasiado elegante, demasiado perfeito para me atrever a dirigir-te a palavra. Ó, Márcio, mas já não consigo conter-me! Preciso de que saibas de mim.

Fica, então, com este curto bilhete que com tanto carinho te escrevi.

 

A tua admiradora”

 

É impossível descrever as 1001 emoções que borbulham neste momento em mim. Só me lembro de perguntas: “quem?”; “de onde?”; “quem?!”; “porquê?”; “quem?!” Meto a carta envelopada no meio de um caderno e lá vou eu para casa com uma boa razão para regressar à faculdade no dia seguinte.

04
Set20

É só mais uma comédia romântica (1)

Olavo Rodrigues

Quarta-feira

Alguma vez sentiram, no coração, o desabrochar de uma flor rara e linda como nada deste mundo? Alguma vez se deu uma erupção em vocês, como se o vosso Vesúvio interior tivesse entrado em erupção e vos tivesse coberto, da cabeça aos pés, de lamechice de comédias românticas? A mim, não. E ainda bem, porque para doçura já basto eu e não quero ficar com diabetes! Ahahaha!... Desculpem lá a piada foleira. Adiante, eu nunca, mas nunca soube o que é estar apaixonado. Já pensei estar, mas parecendo que não, são duas coisas bem diferentes. 

Pensar ter sido atingido pelo Cupido tem consequências... inesquecíveis. Como estas:

Sétimo ano - escola  - eu e rapariga loira - escondidos num canto do bloco B

Eu: Estás pronta para a marmelada?

Ela: Vai com calma... estou nervosa... nunca dei o meu primeiro beijo. - A miúda tinha um sapo de estimação que a acompanhava sempre, especialmente em momentos stressantes como este.

Eu: Já somos dois! Mas vamos resolver isso num instante. - Ela sorri timidamente, fecha os olhos - ó, meu Deus! - e chega-se para a frente com os lábios a chamar-me. Como podia resistir à violenta palpitação no meu peito?! -  Eu amo-te!

Ela: O quê?! – Aparece o coro que contratei, vestido a rigor, a cantar uma música de uma boysband qualquer. Era romântica, é o que interessa. Os lábios esticados recolheram e os olhos fechados abriram-se como se lhe fossem saltar os globos oculares.

Eu: Não é o máximo?! - Ela não respondeu. Algo me dizia que aquele espanto talvez não fosse bem o que eu esperava. - Anda cá. - Para lhe retribuir a dedicação de antes, também eu pus os lábios naquela posição e fechei os olhos, o que me saiu caro, porque quando me apercebi - e demorei algum tempo a reparar - estava a beijar o sapo. É o que dá entregar a alma a quem não a merece. Mas ainda há mais:

 

Décimo ano - eu e rapariga morena – ao pé da escola

Eu: Sabes, desde que te conheci que acho que tens algo único. - A moça era linda! Linda de cair para o lado! Daquelas que param o tempo a todos os rapazes quando passam. Sim, é isso que estão a pensar: a típica cena de Hollywood em câmara lenta com o cabelo a esvoaçar e cenas assim. E, pelos comentários que ouvi dos meus colegas, não era o único a pensar isso e, provavelmente, havia mais candidatos.

Ela: Desculpa, mas tens de me refrescar a memória. Tu és?...

Eu: O Márcio. Estamos na mesma turma, lembras-te?

Ela: Ah! Lamento, mas as aulas não começaram nem há uma semana e ainda não interiorizei muitas caras, mas… obrigada... seja lá pelo que for. - Na minha opinião, isto era um sinal de que estava no bom caminho. Precisava de garantir que ela tinha a mesma entrega incondicional por mim antes que um marmanjo, com mais jeito para isto que eu, lhe desse a volta.

Eu: Queres casar comigo? - O rosto dela mostrou uma súbita surpresa, mas eu não distinguia se era do tipo “saiu-me a lotaria!” ou “este é, sem dúvida, o melhor dia da minha vida!”. Silêncio...

Ela: Não. - Ou então não era nenhuma dessas duas opções. Gaita! Tinha-me enganado outra vez! A rapariga foi-se embora em passo acelerado sem acrescentar mais nada nem olhar para trás. Por alguma razão, evitou-me a todo o custo durante o Secundário inteiro, chegando a implorar aos professores que não nos juntassem para fazer trabalhos. Se teve alguma coisa a ver com a minha proposta lírica e lisonjeadora, só tenho a dizer que há miúdas que não reconhecem o ouro mesmo que lho esfreguem na fronha... e depois queixam-se dos rapazes com quem acabam... os mesmos que elas perseguem e admiram e que substituem almas requintadas como a que vos escreve. Mas enfim, é a sociedade que temos.

Também me lembro perfeitamente desta:

 

Primeiro ano da faculdade - eu e rapariga de cabelo preto - aula (já não sei do quê)

Esta moçoila era particularmente atraente pelo contraste entre a pele clara como a geada do exterior e o cabelo escuro como a tinta das palavras calorosas que eu registava no bilhete.

Gostas de mim? Abaixo tinha posto dois quadrados: um encimado por “sim” e outro por “não”. A rapariga agarrou na caneta e desenhou uma terceira opção:

Presta atenção à aula. Ao que eu respondi: É difícil contigo ao meu lado. Se ao menos, tivesses um pouco menos de brilho. Ela revirou os olhos, mas deixou a conversa por ali. Eu, no entanto, escrevi mais uma nota: queres ver uma cena fixe? A rapariga ignorou-me, portanto, vi-me obrigado a mostrar-lhe que só tinha a ganhar se se rendesse. Pus-me de pé na cadeira e comecei a cantar a música que tinha dedicado à miúda do sétimo ano. Já não me lembrava bem da letra e deve ter sido por essa falta de profissionalismo que fui expulso da aula. Da próxima vez ia escolher outra música, visto que aquela não transparecia bem o meu charme. No entanto, não houve uma próxima vez, porque toda a gente da faculdade ficou a saber do meu fraco desempenho e olhavam-me como se eu tivesse vindo de outro planeta. Que hipócritas! Tanta mesquinhez por causa de um ou outro erro na letra. Eu, pelo menos, tive coragem de levar as minhas calinadas para fora do banho.

24
Abr20

É a Minha Folha de Papel

Olavo Rodrigues

Adalgisa dirige-se em passo acelerado à máquina de vendas automática. Toda ela trémula tenta retirar a carteira do bolso, que persiste em não colaborar. Quando por fim consegue extraí-la, cai-lhe das mãos e a mulher bufa. No mesmo instante, apanha-a do chão e tenta tirar moedas do estreito espaço do respetivo compartimento, o qual está selado por um fecho. Contudo, uma vez mais, os dedos atrapalham-na como se fossem ramos de árvores à mercê do vento. É incapaz de os coordenar para pegar na minúscula cabeça do fecho.

Como resultado, ela concentra toda a sua força em atirar a carteira ao chão, seguindo-se um estrondoso pontapé na máquina, qual bola de demolição. Não tarda a cair um sem-fim de garrafas e latas, mas Adalgisa não agarra em nada. Fica, em vez disso, encolhida a um canto e abraçada aos joelhos, enquanto lhe correm cascatas pela face.

O grito do impacto e o choro, ao ponto de respirar como se estivesse a sufocar, atrai a atenção de Tiago, o qual vem a passar com um copo de café na mão. Depois de se deter à frente da mulher, começa a cantar:

- One day when the light is glowing

I’ll be in my castle golden

But until the gates are open

I just wanna feel this moment

Whoooah!

I just wanna feel this moment!

Whoooah!

I just wanna feel this moment

O homem estende-lhe a mão.

- A sua pronúncia do inglês é horrível. – Diz ela com a voz embargada e a respiração entrecortada. Nem sequer olhou para ele durante a atuação.

- É um facto, mas no que toca a voz, não estou longe do Freddie Mercury. – Nada obtém além de mais lágrimas e soluços. – Um ser humano chora em média, ao longo da vida, o suficiente para encher uma garrafa de um litro. É muita água, já pensou? A esse ritmo vai encher um garrafão.

- O quê?

- Pronto, acabei de inventar isso, mas é verdade que a água constitui cerca de 70% da massa do corpo humano. Já viu o tempo que vai ter de passar a compensar essa perda quando podia emborcar cerveja? Ou leite com chocolate? Hum! Porque é que eu tirei café e não leite com chocolate? Que desperdício de dinheiro!... E de água!

- O que quer de mim? Se for para me atazanar, deixe-me em paz! – Tiago senta-se ao seu lado e olha para a janela do corredor, absorto. Por fim, responde:

- Não faço ideia. Só sei o que não quero. Que tal você ajudar-me a descobrir o que quero? Eu sou o Tiago e você?

- Adalgisa…

- E o que tanto a agoniza, Adalgisa? O que a inferniza e antagoniza a poetisa da vida que visa e já não protagoniza enquanto come piza? Desculpe, no final descarrilei.

- Acabei de ser despedida e não tenho onde cair morta.

- O seu trabalho era uma seca?

- O que é que o cu tem a ver com as calças? – Pergunta a rapariga, que o encara pela primeira vez.

- Tem muito a ver. Era ou não?

- Ah… às vezes… sim.

- Isso é o mesmo que dizer “meh!”. Acredite que não perdeu grande coisa. Pense assim: não foi uma perda, mas sim uma substituição: antes tinha o dinheiro e não o gosto e agora, apesar de já não ter o dinheiro, ganhou a oportunidade de procurar o gosto.

- Mas o que é que eu faço, entretanto? Não posso comer do ar. Esse discurso é bastante bonito, mas se não tiver como pagar as contas, de que me servem essas palavras de sonhador ingénuo?

- Calma, ainda há de receber o guito do trabalho deste mês e uma carta para o fundo de desemprego.

- Não, porque foi por justa causa.

- Então, mande-os à merda. Não tem mesmo nada a perder.

- Não posso mandar o meu patrão à merda outra vez, sobretudo depois de termos tido um caso. Eu amo-o. – Adalgisa torna a estremecer como varas verdes.

- E ele trocou-a por outra? Que falta de chá! Não sei o que fez para que a despedisse, mas foi bem feito.

- Na verdade, eu também sou adúltera.

- Melhor para si.

- Não percebo…

- Disse que amava o seu patrão, certo?

- Sim…

- Então, porque não haveria de investir na pessoa de quem realmente gosta?

- E o meu marido?

- Fica triste, supera e segue em frente tal como você vai superar essa tristeza e reinventar-se. “A monogamia não é natural”, já dizia Albert Einstein e isto também não estou a inventar. Se preferir um aforismo mais bonito, guie-se por Robert Frost: “em duas palavras consigo resumir tudo o que já aprendi sobre a vida: ela continua”. Não consideram estes tipos inteligentes por acaso.

- Filosofias de vida à parte, nada invalida que perdi tudo o que estimava e me mantinha de pé: o meu marido, o meu amado – Adalgisa é de novo derrubada pelo pranto – e agora o meu emprego.

- E o que é que fez ao Pereira, que lhe fritou a mioleira? – Interroga o rapaz após os momentos mais intensos.

- Ele não se chama Pereira.

- Precisava de uma rima.

- Entornei-lhe uma caneca de café quente no portátil e fi-lo perder imensa informação importante. Não aguentei que ele, além de ter escolhido a esposa, também tivesse passado quinze minutos, sem parar, a elogiá-la e a justificar a sua opção com qualidades que ela tem e eu não.

Já não andávamos bem há algum tempo. Espalham-se rumores de que o chefe se enrola com uma maria-vai-com-todos – porque é sempre esse o rótulo para as mulheres – mas não se sabe que sou eu. O meu patrão alegou que era melhor demitir-me para me proteger da maldade das pessoas, mas é tudo tanga. Ele não gosta de mim e muito menos da esposa. Ele é tão ou mais nojento que eu e despediu-me, principalmente, porque estava a dar-lhe problemas de reputação. De certeza que, não tarda nada, arranja outra amante. Já o vi fazer olhinhos a uma ou duas colegas minhas e há sempre alguém que se deixa levar pelo charme e pelos privilégios de ser a predileta do CEO.

Sinto que me deitou fora como se fosse uma pastilha elástica sem sabor.

- Isso parece um enredo de telenovela. Apresente uma proposta a um canal de televisão e fica com o problema do dinheiro resolvido. Há sempre audiência para coisas assim.

- Você parece uma criança. Tudo é facílimo para si. Saiba que o mundo real é mais complexo que isso.

- Defina “mundo real”.

- Tiago, não estou mesmo com disposição para debates filosóficos.

- É muito mais do que filosofia: é um mapa para entender a vida… ou parte dela. Quer reconstruir a sua vida, correto?

- Sim.

- Para tal necessita de saber com que linhas é que se cose. Como espera edificar uma nova vida se não tiver uma definição, nem que seja vaga, do meio que a condiciona?

- Eu tenho, só não me apetece discuti-la consigo.

- Prefere que lhe diga o que quer ouvir?

- Não… para começar, nem sequer sei porque estou a falar consigo. Nunca o vi mais gordo, mas, por alguma razão, achou que era boa ideia abordar-me com uma música comercial sobre aproveitar o momento quando eu estava a chorar. Estou na merda, caso não tenha reparado, portanto, enfie o seu momento onde o sol não brilha! Não me apetece entrar em clichês mais recorrentes que a estupidez do meu patrão e das interesseiras que o rodeiam como abelhas famintas de néctar.

- Quando estava a chorar, certo?

- Sim. Não reteve nada de jeito, homem?

- Quando estava a chorar, sim, também me parece.

- O que é que lhe deu? Riscou o disco? Sim, eu estava a chorar… oh! Eu estava…

- Whoooah! I just wanna feel this moment!

- Pare, por favor.

- É um excelente lema! O que eu daria para gozar a sua liberdade.

- Deixe-se de parvoíces.

- Estou a falar a sério. Eu entendo que seja aterrorizante a carência de bens essenciais, mas não acredito que a Adalgisa esteja completamente sozinha. De tantas pessoas que aqui trabalham, não há rigorosamente ninguém com quem simpatize e que possa dar-lhe uma mãozinha? Os seus pais iam recusar-se a ajudá-la?

- Não quero ser um fardo para ninguém e os meus pais estão chateados com o que fiz ao meu marido. Não significa que não me oferecessem apoio pecuniário, mas iam chagar-me a cabeça sem parar e não é disso que preciso para a minha saúde psicológica agora.

- Somente os parasitas são um fardo. Se a alguém a acolhesse, ficaria deitada no sofá o dia inteiro sem mexer uma palha?

- Não, claro que não. Ia certificar-me de mostrar à pessoa a minha gratidão ao procurar emprego com regularidade e contribuir para a lida da casa.

- Ora aí está. Não se esqueça de que é jovem e que este recomeço não será o último. Por muito feia que esta situação aparente ser, encare-a como uma conquista em vez de uma perda. Há um parvalhão tóxico que a obriga a afastar-se dele? Isso é como uma doença exigir que o paciente seja curado. De momento, você não tem nada. Bola. Zero.

- Já percebi.

O que pode ser mais entusiasmante do que já não ter responsabilidades e pessoas que nos sugam a vitalidade? O facto de já não ser passível de perder alguma coisa, significa que tem uma probabilidade simétrica de ganhar o que quer que seja. Se ainda tivesse uma estrutura, até se justificava melhor temer uma mudança que a faria passar de cavalo para burro, mas não.

O nada não é bom nem mau: é a única coisa que toda a gente começa por ter. É a neutralidade pura e absolutamente versátil. O meu objeto favorito é a folha de papel, completamente em branco de preferência, porque é a materialização da neutralidade que acabei de referir. Não é o caderno nem o livro, só a folha. Serve para escrever, desenhar, resolver equações, fazer origami ou uma máscara ou colagem; recortar formas, despedaçar a folha e fingir que os bocadinhos são pó mágico…

- Já percebi.

- Se não me tivesse interrompido, eu continuava e nunca mais era sábado. Repito: a probabilidade de sucesso para qualquer coisa é de 50%. Dentro de cada possibilidade, há até diversas “subpossibilidades”. Só entre os tipos de texto, por exemplo, encontra: poemas, contos, cartas, conjuntos de máximas, ideias para ensaios científicos, ensaios filosóficos, ensaios artísticos, romances; também há crónicas…

- Tiago!

- Agora estava só a provocá-la. O que é que gosta de fazer?

- Não sei bem.

- Então, aproveite para refletir e experimentar. Olhe que outra grande riqueza está ao seu dispor! Quantas e quantas pessoas adorariam dispensar tempo? De certa forma, invejo-a, devo dizer, o que me leva a reforçar: você não tem nada a menos, pois o que difere é a qualidade da posse e não a quantidade. Mesmo numa situação mais grave, relacionada com a idade, por exemplo, haveria sempre volta a dar.

Não vou mentir-lhe: é muito provável que demore a entrar tudo nos eixos. Quando funcionar no amor, é possível que descambe nas amizades e no trabalho e assim sucessivamente. Tenha paciência.

- Eu gosto mesmo muito dele. Não sei porquê, visto que é um bronco manipulador, mas… - a dor volta a morder a entoação de Adalgisa - eu amo-o.  

- E está tudo bem. Na Grécia Antiga havia a crença de que o órgão pensador era o coração e não o cérebro. Aristóteles dizia que encerrava a consciência humana. Talvez haja um pouco de verdade nessa teoria, pois embora os pensamentos não se gerem no coração, este parece ter uma certa vontade própria alheia ao constante esforço que o cérebro emprega em racionalizar tudo. Você sabe que, pela lógica, é insalubre estar apaixonada por uma pessoa dessa natureza, mas não consegue evitá-lo, porque não é só a mente que manda.

No entanto, se não se apaziguar com o facto de isso ser uma característica humana, só vai enterrar-se ainda mais na melancolia. A Adalgisa tem tempo. Tempo para deixar o desapego ir fluindo, dado que vai conhecer outras pessoas; tempo para reconstruir a sua vida profissional e tempo para se reconciliar com os seus pais. – A rapariga suspira ao ouvir a última parte. – É o seu momento, Adalgisa. Um dos escassos momentos de verdadeira paz que a vida fornece. Não tenha pressa.

Aliás, sugiro-lhe que hoje não faça nada de jeito. Aproveite para parar no tempo: saia daqui e vá divertir-se. É um dia de folga, é o dia zero, é o dia em que se desperdiça tempo só para o aproveitar melhor amanhã. Vá para o parque correr, empanturre-se de comida de plástico ou relaxe na cama o resto do dia.

Vá, de é que está à espera?

- O quê, mas agora?!

- Agora mesmo! Não há tempo a perder! Ou melhor: há, mas não aqui! – A mulher apressa-se a levantar-se. Contudo, após alguns passos, retoma a direção a Tiago.

- Podemos trocar os nossos números?

- Claro. – Ele também se põe de pé e diz-lhe o seu. Quando está isto tratado, Adalgisa recupera a conversa:

- Sempre descobriu o que queria?

- Por hoje, sim. O resto logo se vê.

- Obrigada. – Vislumbra-se um ténue sorriso na cara dela.

 - Se fosse obrigado, não fazia. Cuide-se.

Separam-se em sentidos opostos e, durante breves momentos, só se ouve o eco dos seus passos no corredor, até que Tiago bate a uma porta. Um homem atende-o e, ao longe, Adalgisa capta o início da conversa:

- Então, mano, estava a ver que nunca mais vinhas. – Comenta o proprietário do gabinete. Aquela voz atrai o olhar da rapariga que, de novo, está ofegante.

- Estive a ajudar uma rapariga com umas cenas. Ias gostar de a conhecer… para depois a despedires, claro.

- Que conversa é essa?

- Foi um passarinho que me contou. – O convidado entra no gabinete e é então que o CEO avista a ex-amante a observá-los.

- Dá-me só um segundo. – O chefe sai da divisão, caminhando na direção dela, mas a mulher abre a porta de saída e abandona o edifício, o que congela o seu amado no lugar. O outro homem aproxima-se com a discrição de um fantasma e assusta-o ao afirmar:

- Estava a ver que ela nunca mais bazava. ‘Bora despachar aquilo, que eu quero almoçar. – Ato contínuo, Tiago dirige-se outra vez ao escritório à medida que o dono da empresa o segue e pergunta:

- O que é que ela te contou?

- O que é que isso interessa? Não vás atrás dela. Não olhes para trás sequer. A vida continua!

- Desembucha, mas é.

- I just wanna feel this moment! Já conheces o ensinamento do Pitbull e da Christina Aguilera?

- Tiago!

- Gritam o meu nome imensas vezes. Dava jeito num concerto.

 

27
Mar20

Consequência ou Consequência?

Olavo Rodrigues

A Gabriela e a Andreia passeiam juntas no parque num dia soalheiro e livre de nuvens. Nem parece inverno. A segunda avista um lugar perfeito para abancar depois de algum tempo de caminhada e galhofa misturada com correria. Sob o firmamento, estende-se uma gigantesca passarela de água reluzente de onde se pode ver a vila vizinha, bem ao longe, na outra margem do rio. Um coro de gaivotas, que por ali vagueiam, junta-se à animada conversa das raparigas, que se sentam na relva de um verde fresco e revitalizante. A Andreia maravilha-se com a relva, crescida e húmida, em contacto com a parte das pernas que os calções não tapam.

- Não sei quanto a ti, mas não me importo nada de me sujar. Por mim, ficamos já aqui. - A Gabriela senta-se também de pernas esticadas enquanto observa o vazio para lá da água. A luz ilumina-lhe o rosto, dando ao seu ar pensativo um belo toque. Instala-se um silêncio, pois também a Andreia se perde, embora seja o frenesim das gaivotas que a fixa.

- Sentes isto? - Pergunta a Gabriela.

- Sim. Os cheiros da maresia e da relva misturados. É como se fosse um cocktail de verão para o nariz.

- Não, isto. - A rapariga mais larga empurra a outra e desequilibra-a, fazendo-a quase beijar o chão.

- Está quieta! Porque é que és tão bruta?! Podia ter-me magoado.

- Oh! Vê lá! Realmente, empurrei-te com uma força... parecia um vendaval...

- Já te disse que não gosto de que brinques assim.

- Quem te mandou encharcares-me com o chafariz? Eu disse que não perdias pela demora e ainda não acabei.

- Não. Está mas é quieta.

- Verdade ou consequência?

- Não gosto desse jogo.

- Tu também nunca gostas de nada. - A Gabriela volta a empurrar a Andreia.

- Para!

- Verdade ou consequência? Vá lá, estou entediada. 

- Não... - Outro empurrão e desta vez é o suficiente para a pobre rapariga franzina cair. Nem tem tempo de se sentar como deve ser e volta logo ao chão.

- Não paro enquanto não escolheres.

- Pronto! Verdade. - A magra vai para se endireitar e a mais corpulenta faz os preparativos para atacar novamente, embora sejam só um engano para levar a outra a encolher-se.

- Muito bem, deixa cá ver. - A desafiadora põe-se a fitar o mar, adotando de novo o ar que lhe favorece as bonitas feições à luz do sol. - É verdade - começa poucos momentos depois - que já... tiveste um fraquinho pelo stor Manuel Joaquim?

- Aquele velho jarreta rabugento? Claro que não!

- Está bem. Consequência...

- Porquê? Eu disse a verdade.

- Não tem a ver com isso. Quando dizes "sim", é a minha vez de responder. Quando dizes "não", passamos à consequência.

- Não é assim que me lembro do jogo.

- Há quanto tempo é que não jogas?

- Há uns quantos anos.

- Ora aí está. Eu sei jogar melhor. Vá, tens direito a três opções. Primeira - a rapariga olha à sua volta - vais ter com aquele rapaz jeitoso ali ao pé da árvore e dizes-lhe que está tudo acabado entre vocês.

- "Acabado"? Mas eu não o conheço de lado nenhum. - A Gabriela revira os olhos. - Ah! Já percebi. Mas e se aquela rapariga for a namorada dele?

- Espera, ouve as outras opções. Segunda: vais ao pé daquela mulher sentada no banco de jardim, a tirar selfies, e pede-la em casamento. Terceira: estás a ver aquele puto ali ao fundo com uma bola do Ruca? Aproxima-te e diz-lhe que foi adotado e que tu é que és a verdadeira mãe dele.

- Não! Ele só deve ter três ou quatro anos! Tu és doente!

- Não és obrigada a escolher essa.

- Quero uma quarta opção.

- Népia. Só podes escolher entre três. - A Andreia morde o lábio, suspirando em seguida com os nervos a apoderar-se de cada fibra do seu ser.

- Então? Como é que é?

- Vá lá, Gabriela, não me obrigues a fazer essas coisas.

- O tempo está a contar até ao próximo empurrão. - A magricela sopra exasperada, levantando-se.

- Porque é que eu ainda me dou contigo?! - Atira ao afastar-se em direção ao alvo da partida.

- Desculpa? - A mulher baixa o telemóvel e, no lugar do ecrã com o seu rosto, apresenta-se a Andreia com um boi na garganta. - Não pude deixar de reparar... ah... - o olhar intrigado da outra dá-lhe um aperto no estômago. - Bom, pareces ser bastante fotogénica e estava a pensar se...

- Estás a convidar-me para sair? - Bebe um gole de água da garrafa.

- Bem... quer dizer... - A mulher levanta-se. É alta e curvilínea. Uma modelo, talvez, que vai bebendo água enquanto fala.

- Quantos anos tens?

- Dezanove... - Responde a rapariga tímida a medo. - A outra moça avança mais uns passos.

- E o teu nome?

- Ah... Andreia. - Está prestes a desatar a correr, mas não sabe se teme mais a Gabriela ou esta desconhecida. Pelo menos, da primeira sabe que não ia calar-se com as bocas durante, no mínimo, um mês. "És tão medricas". "Nunca fazes nada de jeito, porque estás sempre com medo".  "Ninguém gosta de pessoas enfadonhas".

- Chamo-me Flávia. - A mulher observa todas as suas características, aparentando estar satisfeita com o que vê. - Está bem. Estás ocupada agora ou...?

- Estou com um amiga. Olha, isto não...

- Estás disponível amanhã a esta hora? Podemos encontrar-nos aqui mesmo.

"No que é que eu me estou a meter? Porque é que ela não percebe que estou claramente desconfortável?" Pensa a mais jovem para os seus botões, pois, uma vez mais, não distingue o que mais a assusta: a ideia de um encontro com alguém por quem não sente qualquer atração ou uma provável reação colérica se a Flávia descobrir que é tudo uma partida imbecil que a Gabriela a obrigou a pregar-lhe.

- Claro.

- Ótimo. Então, até amanhã. Prazer em conhecer-te, Andreia. - A mulher mostra-lhe um lindo sorriso sincero de orelha a orelha, mas não serve de grande consolo à rapariga.

- Só para esclarecer: tu tens...

- Vinte e três.

- Certo... até amanhã. - A Andreia dá meia volta e caminha em passo acelerado, para ao pé da Gabriela, com a intenção de lhe arrancar a cabeça assim que lá chegar.

- Então, como é que correu? - Pergunta-lhe a amiga entusiasmada e sedenta de curiosidade.

- À tua pala, tenho um encontro!

- Estás a gozar?! - A gargalhada da Gabriela preenche o  ar. - Como assim? O que é que ela te disse?

- Eu não disse praticamente nada e ela perguntou-me logo se eu queria sair e… depois começou a tirar-me as medidas! -  A moça mais rechonchuda torna a explodir de riso.

- Não tem piada, Gabriela! Como é que não percebes que isto é gravíssimo?! Além de não saber com que tipo de pessoa marquei um encontro,  nem sequer correspondo ao interesse dela! Eu não sou homossexual. - A frequência do riso desmesurado da outra só aumenta, pelo que a Andreia rebenta para lhe pôr um travão:

- Cala-te já! Achas que a orientação sexual dos outros é uma piada?! Como é que vou encarar alguém que pode achar que lhe pregámos uma partida só por ser homossexual?!

- Relaxa, Andreia. És sempre tão dramática. Não há maneira de ela pensar isso, porque, independentemente de lhe teres pregado uma partida ou não, nunca poderias adivinhar a sexualidade dela. A partida nunca foi pensada em função de preferência nenhuma. Eu, por acaso, queria que te mandasse dar uma curva, mas ainda assim, gostei. Gostei da reviravolta.

- Porque haveria de me mandar dar uma curva?

- Espera, mas não a pediste em casamento?

- Não…

- Oh, então, não vale. Não cumpriste o desafio. Tens de lá voltar e fazê-lo como deve ser ou escolhes uma das outras duas opções.

- Nem penses! Já chega! Se queres acrescentar alguma coisa, vai lá tu!

- Eu? A partida não é minha. Tu é que escolheste aquilo.

- Não me venhas com essa conversa…

- Olha, lá vem a tua amiga.

- Desculpa? - Chama a mulher ao longe. Quando se encontra mais perto, continua. - Não trocámos os nossos números.

- Lamento imenso, Flávia. Eu compreendo que me detestes depois disto, mas a verdade é que não estou interessada em sair contigo. Não é nada pessoal, mas não me sinto atraída por outras mulheres. Foi tudo uma brincadeira estúpida que foi longe de mais por causa do “Verdade ou Consequência”. As minhas mais sinceras desculpas por termos brincado com os teus sentimentos.

- Andreia, não! Estragaste o jogo. Para de levar tudo tão a peito. É só mesmo isso: uma brincadeira. Mas, para variar, não podem dizer nada à menina, que fica logo amuada. A Flávia parece-te chateada, por acaso?

- Pelo contrário, eu adoro o “Verdade ou Consequência”. Posso jogar com vocês? - Para a Gabriela, a partir daqui, seria difícil o dia tornar-se ainda mais interessante.

- Força! Quantos mais, melhor. - As três juntam-se em triângulo, sentando-se com as pernas à chinês. Fazem girar a garrafa de água vazia de que a Flávia bebeu, a qual atribui o papel de interrogadora à recém-chegada e o de ouvinte à moça mais larga.

- Verdade ou consequência?

- Verdade.

- É verdade que alguma vez te besuntaste de lama com a roupa vestida?

- Não.

- Consequências. Das três, uma: fazes isso pela primeira vez ali no rio; corres dois minutos por esta zona do parque e, gritas aos sete ventos que te orgulhas de te disfarçares de burro aos fins de semana, ou apalpas o rabo do rapaz do primeiro casal que por cá passar.

- Caramba, tu és má! - Ri-se a Gabriela. - Mas não perdes pela demora.

A garota sentenciada ergue-se de um salto para, no instante a seguir, proclamar a toda a gente que consiga ouvi-la como adora o seu fato de burro. Recebe vários olhares desdenhosos, de estranheza e uns quantos risos, nem todos omitidos. Com o peito inchado de ter superado o desafio, regressa ao seu lugar.

- Nada mau! - Comenta a Flávia, que faz a garrafa girar outra vez. Uma vez mais calha-lhe o domínio, mas agora quem está na mira é a Andreia cujo estômago não cessa de dar cambalhotas. Se aquele foi o nível de maldade para a Gabriela, nem se atreve a imaginar para o que é que está guardada.

- Verdade ou consequência, Andreia? - A rapariga franzina suspira e responde baixinho.

- Verdade…

- É verdade… que já comeste cozido à portuguesa? - A Gabriela franze o sobrolho.

- Ah… sim.

- Que raio de pergunta é essa?

- Então?

- Isso foi completamente banal.

- E daí? O jogo chama-se “Verdade de Consequência” e não necessariamente “Conta-me os Teus Segredos ou Faz Figura de Urso”. - Desta feita, a garrafa volta a girar. - Vá, a próxima a sair na rifa é… - A base aponta para a Andreia e o gargalo para a Flávia. - Olha, sou eu. Chuta.

- Verdade ou consequência?

- Consequência.

- A sério? Não tens amor próprio? - Intervém a rapariga rechonchuda.

- Tenho e é por isso que não vais saber nada de mim. Querias! Estou à tua mercê, Andreia.

- Hum… tens de me dar um abraço. - Assim o pede, assim o consegue.

- Deixem-se de tretas! Ninguém precisa do “Verdade ou Consequência” para trocar abraços. Então e as perguntas incómodas e interessantes? Onde é que está a ação das consequências?

- Não te enerves, Gabriela. É só uma brincadeira. - A Andreia esboça um sorriso provocador.

- Próxima rodada. - Determina a Flávia.  A mais roliça, de face escaldada da frustração, crava o olhar na garrafa em círculos, com os punhos fechados sob uma tensão esmagadora, rezando para lhe calhar a base e lembrá-las de como é que o jogo deve realmente ser. Bem, por fim, é escolhida, mas pelo gargalo. O gosto do desafio volta a ser presenteado à Flávia.

- Verdade ou consequência? - A Gabriela sente-se indecisa. A desconfiança da mais velha leva-a a também não querer confiar-lhe os seus segredos. Porque confiaria em alguém tão desconfiado? No entanto, também teme o que lhe pode trazer a consequência.

- Verdade... - Responde hesitante.

- É verdade que já comeste comida do lixo?

- Blherg! Não!

- Consequências. Primeira: liga a um dos teus pais e diz-lhe que estás feita refém e que o bandido exige cinco mil euros pela tua liberdade. Segunda: diz sempre “sim” às próximas três perguntas que qualquer pessoa te faça. Terceira: senta-te ao colo de uma pessoa aleatória aqui do parque. A Andreia e eu não contamos.

- Mas isso não é justo! Porque é que és branda com ela e má para mim?

- Não querias perguntas incómodas e ação? Estou a dar-te o que pediste.

- Gabriela, é um jogo. - Reforça a sua amiga, mas sem abdicar do sorriso de antes.

À roliça apetece bater nas duas. Ao despedaçá-las com o olhar, levanta-se, não tão entusiasmada como da outra vez, e avista um rapaz sozinho a ler à sombra de uma árvore noutra zona do relvado. Fica mais frio de repente, o que arrepia a participante em fúria e o vento principia um passeio pelo parque. 

- Desculpa, não me leves a mal, mas isto é por uma boa causa. - Ato contínuo, senta-se ao colo do rapaz, que prossegue a leitura sem levantar os olhos do livro. - O que estás a ler? A capa é bem medonha. - O moço em silêncio estava e em silêncio fica como se nem sequer se apercebesse da rapariga. - Olá? Está alguém em casa? 

Quando lhe levanta o queixo, a cabeça humana cai-lhe e, no seu lugar, surge uma cabeça de inseto com pinças enormes e olhos de mosca. Mal o corpo se reveste de um exoesqueleto, a besta tenta decapitá-la, mas a Gabriela safa-se por um triz, afastando-se aos trambolhões. Num estalar de dedos, o aconchegante céu azul-claro adquire um deprimente cinzento e nuvens em remoinho. O monstro vai atrás dela, pelo que a rapariga dá corda aos sapatos o melhor que pode em direção às companheiras de jogo. Vários daqueles insetos antropomorfos enxameiam o parque ao esburacar o chão e fazê-lo assemelhar-se a um queijo suíço.

A Gabriela tem agora não um, mas seis no seu encalço. O vento passa a assobiar e abranda-a, mandando-lhe o cabelo para a cara, portanto, não repara na mão que atravessa a relva e lhe prende o pé. É queda na certa. Debate-se desesperadamente para se libertar. Porém, a besta é bem mais forte do que aparenta e não se dispõe a largar a vítima por muitos pontapés que leve. Os outros aproximam-se no instante a seguir. Tudo à volta da rapariga, envolta numa atmosfera ensurdecedora de guinchos e gorgolejos, são pinças a abrir e a fechar e olhos encarnados grandes como bolas de futebol.

No entanto, antes de lhe chegarem ao pescoço, as criaturas começam a ser alvejadas, uma a uma, por pequenas bolas de energia. Assim que cai a última, a vítima repara na Flávia, a sua salvadora, a segurar numa pistola futurista e a montar a Andreia, que se transformou num centauro.

- Não fiques aí especada! Sobe para o meu dorso! - A Gabriela acede de imediato. No processo, a Flávia estoura o peito ou a cabeça de mais alguns monstros, que se aproximam em grande número.

O centauro corre a toda a brida à medida que a guerreira as defende. Um arco-íris estende-se do chão ao céu e a Andreia acelera o máximo possível para o alcançar antes das bestas. Contudo, é um coelho gigante (fofíssimo) que lá chega primeiro, destroçando o arco-íris ao cair-lhe em cima depois de saltar. O chão começa a tremer de tal maneira, que ao início parece um sismo de enorme magnitude, mas as raparigas não tardam a perceber do que se trata quando, em debandada, vêm dezenas de coelhos como o outro. É o suficiente para se verem livres da praga de insetos, mas com tantas bolas de pelo a saltitar, é impossível verem por onde andam. Uma sombra engole-as e, ao olhar para cima, a Gabriela berra com todo o ar dos pulmões enquanto as patas do coelho descem.

 

- Gabriela, calma! - A Andreia apressa-se a acudi-la à cama. De forma delicada, volta a deitá-la. - Foi só um sonho.

- Oooh!  Parece que me martelaram a cabeça. 

- É da bebedeira. Vocês não têm limites. Uma litrosa de uma assentada? A sério?

- Vocês? - A bêbeda olha para a cama ao lado e depara-se com a Flávia, o que a faz gritar. - Ela é real?!

- Sim. É capaz de demorar mais tempo do que tu a acordar. Francamente, como é que há espaço no corpo humano para tanta cerveja?

- O que é que aconteceu? E como é que viemos parar ao hospital?

- Estávamos a jogar ao “Verdade ou Consequência” no parque e, a certa altura, foste ter com um rapaz para te sentares ao colo dele, porque foi uma das opções que a Flávia te deu. O rapaz achou-te piada e contaste-lhe o porquê de teres feito aquilo e, no momento a seguir, havia quatro pessoas a jogar àquele maldito jogo. Acontece que ele era viciado em erva e escondia-a em brownies que trazia na mochila. Gostou tanto de nós, que quis partilhá-los connosco e, como dá para perceber, eu fui a única que os recusei.

Às tantas, aquilo já não era um jogo, já não era nada. Só faziam estupidez atrás de estupidez: tu levantaste a saia a uma velhota, a Flávia atirou lama a um polícia e depois o outro desatou a correr para não ser apanhado com erva. A seguir, fomos atrás dele, porque vocês queriam que continuasse a mostrar-vos a sua BD marada com coelhos a esmagar insetos assassinos. Só um alucinado para escrever aquilo, a sério…

- Isso explica muita coisa. Então e a parte da cerveja?

- Vocês obrigaram-me a ir ao centro comercial para vo-la comprar, porque era a única que não estava avariada do sistema.

- E onde é que está o gajo?

- Acabou por ser apanhado. Não por terem descoberto a erva, mas porque partiu, com um extintor, a montra de uma loja de brinquedos que vendia coelhos de peluche gigantes. Entretanto, tu e a Flávia continuaram a beber até desmaiar.

- E tu não quiseste uma pinga?

- Se fosse vodca, ainda marchava, mas agora cerveja…  - A enfermeira entra no quarto e dirige-se à Andreia.

- Desculpa, a hora da visita acabou. Podes voltar noutro dia?

- Com certeza. Adeus, maluca. Vê se ganhas mais juízo a partir de agora.

- Tu e a tua conversa chata de sempre. Aprende a curtir! - Antes de abandonar o quarto, a rapariga magra afirma da porta.

- Eu aprendi, mas ficaste logo vermelha que nem um tomate quando a coisa me conveio a mim. Não podes achar divertido só quando corre bem para o teu lado. - Desta feita, vai-se embora.

À medida que a enfermeira trata da Gabriela, esta põe-se pensativa, fitando o vazio, mas desta vez sem tanta luz para a alegrar. As persianas estão meio fechadas para não perturbar os pacientes que estão a dormir. Um ressentimento toma forma dentro de si, pois está farta de que a Andreia se julgue tão mais inteligente que ela. Talvez esteja na altura de arranjar uma nova amiga. É altura de uma nova aventura. Sempre foi azougada e se achou muito boa a viver o inesperado do momento, por isso, porquê parar agora?

- Sra. Enfermeira, não ter nada para fazer é uma seca. Já alguma vez jogou ao “Verdade ou Consequência”?

- Eu não sou mesmo uma enfermeira. Estou a cumprir uma consequência do jogo. Espero não ter feito nenhuma asneira a tratar de ti. - A mulher retira a bata, atirando-a para o chão e, antes de sair pela porta, acrescenta - se precisares de alguma coisa... não me chames a mim. 

- O quê? Espera, não!... Segurança!!! - Tão depressa como grita, leva com uma tampa de garrafa de água no nariz. 

- Baixa o volume, há quem queira dormir. Ato contínuo, a Flávia vira-lhe as costas para voltar a adormecer. 

 

 

 

31
Out19

Terror Pouco Aterrorizante

Olavo Rodrigues

Por estranho que pareça, apesar do que escrevi, não gosto de terror ou, ao menos, não do pesado. Sempre adorei a colecção dos Arrepios, de R. L. Stine, mas nada mais. A história abaixo tem cinco ou seis anos e nunca antes tinha saído do caderno, o que calculo que tenha a ver com o facto de que a minha tentativa de criar terror chocante falhou, pois como disse, não aprecio o género.

Se assim é, porque carga de água quis tecer uma história deste tipo? Para ser sincero, nem eu o sei muito bem. Acho que um dia, num intervalo da escola em que não havia nada para fazer e estava sozinho, decidi sair da minha zona de conforto pelo simples prazer de me desafiar. Resume-se a isso: estava à procura de algo diferente que me desafiasse e, a razão de ter falhado, é a minha natureza ter intervindo e criado algo mais cómico (creio) do que assustador. No início, ainda tentei escrever algo sinistro e desconcertante, mas depressa me perdi (como sempre) e, pronto, o resultado está à vista. Que melhor altura que o Dia das Bruxas para publicar um texto destes? 

Salvo alguns erros e repetições excessivas típicas de um rascunho, mantive o estilo de escrita de forma a marcar a minha evolução. Não sei se alguma vez irei desenvolver esta históriann, mas por enquanto serve só para divertir, porque a sério... isto de terror tem muito pouco. 

 

Excerto 1:

Estava a caminho do pavilhão para ter aula de Educação Física. Quando virei a esquina para o campo de jogos, perto da entrada, vi o Mauro, ao longe, a aproximar-se de um pombo. Normalmente, estas aves são medrosas e afastam-se quando outra criatura está por perto. Mas aquele pombo ATACOU o Mauro!

Quando o rapaz estava a uns três passos de lhe chegar, o bicho saltou-lhe para a cara e começou a bicá-lo na testa. Felizmente, ele conseguiu agarrá-lo e mandá-lo para o chão com toda a força. O pombo, agora sim assustado, levantou-se rapidamente e partiu desajeitado a voar. O atacado parecia ter posto a cabeça num alguidar de sangue. O líquido escorria-lhe cara abaixo, saído das feridas feitas pelas garras e bico da ave.

Começou a cambalear. Porém, não sei se estava prestes a desmaiar ou se o fazia por hábito como normalmente. Eu estava chocada com aquilo! Totalmente apavorada! Quis ajudá-lo, mas quando dei o segundo passo, ele levou a mão à ferida da testa, mas não delicadamente. Parei. O gesto fez-me impressão. Só de imaginar a dor que deve ter causado... desviou a mão do rosto lentamente e ficou a olhá-la durante uns instantes. Agora também estava encharcada de sangue.

Oh, não! Eu não acreditava que ele tinha feito aquilo! Porra! Não sei se consigo dizer isto - ele... ele... ele LAMBEU-A! E fê-lo até à última gota do líquido vermelho desaparecer como se a mão nunca se tivesse sujado... bolas, falar disto é horroroso... e nojento! Meus ricos cereais preferido! Não estavam a gostar da estadia. Tinha de sair daqui depressa!

Neste momento, as minhas pernas estavam na posição vertical, mas o resto do corpo estava debruçado. Agarrei os joelhos com as mãos, com toda esta confusão emocional a andar às voltas no meu estômago. Não sabia se ia vomitar o pequeno-almoço ou o coração, que saltava tão alto como se estivesse num trampolim. Talvez quisesse fugir a sete pés tanto quanto eu. Ia fazer-lhe a vontade. 

Mas assim que me virei, soltei um breve grito. Isto era inacreditável! Ele estava à minha frente! Mas como raio era isso possível?! Ainda há uns segundos estava a uns vinte metros de distância! E... as feridas e o sangue! Desapareceram! O Mauro estava novinho em folha como se nada tivesse acontecido. O que estava a sentir eram as minhas cuecas a ficarem sujas?

O meu coração estava a fazer tanta força para sair do peito! Não imaginam como estava a conter-me para não lhe vomitar em cima. Ele estava a fazê-lo outra vez. Fazia-o sempre. Olhava para mim fixa e inexpressivamente. Reparei agora que FAZIA QUESTÃO de me olhar nos olhos! Mesmo que tentasse desviar o meu olhar, não conseguia, porque ele seguia-me com o seu. Além do mais, o silêncio misturado com todas as outras cenas sinistras só dava energia à minha pilha de nervos. Então, tentando desesperadamente manter a calma, disse com medo no tom:

- O-Olá. Estás bom? - Perguntei com uma grande pausa entre o cumprimento e a questão. Ficou sem responder durante um bocado e a insistir em olhar-me daquela maneira arrepiante, mas depois lá respondeu:

- Sim. - Disse no tom morto e seco do costume.  - Era sempre assim. Não se conseguia ter uma conversa com ele. Era tão vazio! E transmitia uma energia tão negativa. Ai, o meu estômago! 

- Que bom!... - Continuei ainda com miúfa. - As tuas feridas... desapareceram. Foi tão rápido! Que rica rica regeneração, hã? - Depois libertei uma pequena risada nervosa. Era para lhe dar um murro no ombro, na brincadeira, mas hesitei, porque o Mauro desviou o olhar sinistro para o meu punho a meio caminho andado. E voltou a colocá-lo nos meus olhos mal recuei com a mão. Passaram mais uns segundos e o rapaz disse novamente:

- Sim. 

Estava a uma unha negra de me passar! Apetecia-me virar-lhe a cara com um chapadão bom, doce e bem assente. Assim, pelo menos o olhar arrepiante mudava de direcção. Cada vez mais tinha vontade de sair daqui e ele não parava de me pôr fora de mim! Ia-me embora antes de que fizesse alguma coisa de que me arrependesse. Então, com um último esforço sobre-humano, despedi-me amavelmente. 

- Olha... eu vou para ao pé da porta do pavilhão. - Não me respondeu imediatamente, mas desta vez foi mais rápido.

- Está bem.

Comecei a andar para virar a esquina, mas não sem saber porquê, não consegui deixar logo de olhar para ele. Era um sentimento estranho, não sabia defini-lo muito bem. Sabia que apesar da situação assustadora, havia algo no Mauro que era tão interessante como aterrorizante e que tinha de ser desvendado. A nossa ligação visual acabou quando lhe virei as costas. Quer dizer, pelo menos, falo por mim. Com o medo, o meu passo era rápido. Sempre que olhava para trás, lá estava ele! Não me deixava da mão! Não consegui evitar correr. Soltei um grito.

Que horror!

 

Excerto 2:

Depois daquela confusão toda, precisava de relaxar. O meu estômago parecia um poço sem fundo. Tinha de o preencher com alguma coisa. Fui até à cozinha e abri tudo o que pudesse ter comida: o frigorífico, os armários... não sabia o que se passava comigo. Seria esta fome natural? Só sabia que queria comer e descansar. A agitação dos recentes acontecimentos estava a dar cabo de mim. 

Peguei na maior quantidade de comida que podia carregar: montes de sacos de aperitivos, bebidas suficientes para encher um tanque, queques, chocolates, gomas e muitas outras gulosices para que as pernas do sofá se rendessem ao poderoso peso do meu rabo. Tinha dificuldade em carregar toda aquela comida. Cambaleava como... o tipo de quem não queria falar, pois não queria que nada caísse a caminho da sala. Pensando bem, podia ter posto as coisas num saco. Devagar, devagarinho, cheguei à meta e larguei tudo à toa. A disposição dos alimentos foi da sua própria escolha: uns ficaram-se pelo sofá, outros estatelaram-no chão e houve os que gostaram mais da mesa central, que foi onde pus os pés descalços depois de me sentar. 

Agarrei num pacote de cones de milho, abri-o e comecei a devorá-lo. Hum...! Péssimo para a saúde, perfeito para a minha felicidade. Eu sabia que não podia ter o azar de deixar migalhas no sofá, porque se não, a Mãe ficava tão aterradora como o... ai! Porque é que não parava de pensar nele?! Liguei a televisão. Talvez uma distracção me ajudasse a processar a preocupação. Que estranho! Não havia imagem. Bem... havia, mas não a que eu esperava. O ecrã estava turvo e cheio de tons de cinzento. Também saía um som esquisito do aparelho. 

Mudei de canal e vi a mesma coisa. Viajei pela grelha televisiva e nunca aparecia uma transmisão. Por fim, cheguei a um canal sintonizado e tive de desligar a televisão. O meu grito foi tão alto que podia ter deitado o prédio abaixo. Não, isto não era possível, eu devia estar maluca. Eu não podia ter visto o Mauro na minha televisão. Mas pensando bem, transportou-se para a minha frente quando estava a uns vinte metros de distância! Atirei-lhe o meu calhamaço d'"Os Maias" à cara e ele não reagiu: nem se quer um "ai"! (1)

Eu testemunhei esses acontecimentos ao vivo e a cores e tinha a certeza absoluta, sintética, analítica de que foram reais! Se ele conseguiu isso, que razão haveria de o impedir de aparecer no ecrã da minha televisão?! E quem sabe o que mais podia fazer? Tinha de me proteger, estava a ser perseguida! 

Todavia, antes de me passar, fez-se luz na minha cabeça. Se calhar, havia mesmo uma probabilidade de estar doida. A mente humana é matreira. Às vezes, algumas situações são tão impactantes que nos alteram. O que tinha visto podia mesmo ter sido uma ilusão causada pelo medo. Voltei a ligar a televisão. Oh!

- Júlia, por favor... - disse ele. Ou, pelo menos, tentou. O que raio queria?! E porquê a minha televisão?! 

Pronto: hora de entrar em pânico! Comecei a gritar histérica e levantei-me aterrorizada. A comida que estava em cima do meu colo, caiu no chão. A Mãe ia fazer-me pagar caro por aquilo. Queria ir para o quarto, mas ao correr assustada, escorreguei num saco de aperitivos e caí. Au! Doeu bué! No entanto, levantei-me depressa e despachei-me a ir para o quarto. Tranquei a porta na esperança de o Mauro não conseguir entrar. Oh, não, as janelas! Corri até elas, mas acelerei demasiado e bati com a cara no vidro. Talvez me magoasse mais a tentar salvar-me do que por causa do Mauro, que só me arrepiava. 

Contudo, nunca se sabia. Fechei a janela que abrira de manhã para entrar ar fresco no quarto e baixei a persiana. Ficou tudo às escuras. Sentei-me na cama, receosa, não sabendo o que esperar. Olhava à volta freneticamente. Procurava sinais de presença dele: um vulto, um som. Mas claro: não conseguia ver puto com o quarto assim e o escuro tornava os sons mais assustadores. Esperta! Pronto, eu sabia que não tinha sido uma ideia brilhante, mas foi o melhor que me ocorreu num momento de desespero. Tranquei-me no quarto e pu-lo às escuras, porque isso costuma impedir as pessoas normais e era isso mesmo que me punha fora de mim: não saber quais eram os limites dele.

Sendo assim, deitei-me à espera do fim, desejando que fosse o mais rápido e menos doloroso possível. Já algumas lágrimas me escorriam pelo rosto quando ouvi a campainha. Seria o Mauro Tinha muito medo de abrir a porta. E se fosse mesmo ele? Quem quer que estivesse lá fora, tocou outra vez. Ai...! Decidi enfrentar o/a fulano/a. Imaginem que se fosse realmente o Mauro, ele se passava e entrava pela casa adentro, arrombando a porta. Se ia morrer de qualquer maneira, ao menos que a casa dos meus pais ficasse intacta. Devagar, devagarinho, dirigi-me à porta. 

- Quem é? - Perguntei num tom nervoso.

- O Micael. - Ufa! Que alívio! - Esperem, seria mesmo ele? O Mauro podia estar a fazer-se passar pelo meu amigo. 

- A sério?

- Ah, não, desculpa, tens razão. Lembrei-me agora de que sou o vizinho da esquina. - Respondeu ironicamente. - Júlia, então?!

- Prova que és mesmo o Micael. 

- Como é que é? Vá, deixa-te de tretas e abre-me a porta!

- Prova-o ou não entras!

- Ah... sei lá... fiz chichi na cama até aos dez anos. - Pareceu-me suficientemente credível. Só eu sabia do problema urinário dele. Abri-lhe a porta e o Micael estava com cara de poucos amigos. 

- Mas que raio?! - Resmungou. 

- Chiu! Entra depressa! - Disse a puxá-lo bruscamente para dentro da minha casa. Mal fechei a porta, abracei-o. Estava mesmo a precisar de alguém. Queria guardar segredo, porque de certeza que ninguém acreditaria numa coisa destas, mas não aguentava mais. O rapaz não estava à espera do abraço, portanto, ficou surpreendido por uns instantes. - Que alívio! Estou tão feliz por te ver!  -Retribuiu o gesto de afecto, mas perguntou:

- O que é que te deu? - Largámo-nos e eu disse:

- O Mauro está a perseguir-me. 

- O Mauro? Aquele miúdo esquisito lá da escola? Ele magoou-te?

- Não, mas anda atrás de mim e está a dar comigo em doida. - O Micael soltou um pequeno riso e depois respondeu:

- A sério? Vais mesmo deixar que um puto te atazane o juízo? 

- Sim! Quer dizer, não! - Os nervos não me deixavam dizer coisa com coisa. - Eu gostava de o parar, mas não consigo. Ele... - não acabei a frase, porque tive medo de que o Micael me achasse maluca. Melhor dizendo: lunática. Maluca toda a gente sabia que o era.

- Ele o quê? - Perguntou-me o rapaz preocupado a avançar na minha direcção para me confortar.

- Vais achar que sou maluca. Ou lunática ou sei lá!

- Júlia, tu és maluca. Toda a gente o sabe. - Eu disse-vos. - Vá, conta-me o que se passa. - Insistiu. Então, respirei fundo e acabei por lho contar: 

- O Mauro não é normal...

- Eu sei. 

- Não, não sabes. Esconde mais do que aparenta. 

- Vá, desembucha. Estás a deixar-me nervoso. - Eu sentia-me mesmo desconfortável.

 

(1) No primeiro excerto isto não acontece, porque acho que só me lembrei deste toque a meio do segundo e escrevi-o para me lembrar de o adicionar à primeira parte quando passasse o texto a computador, o que ficou por fazer. 

 

FIM!

 

 

01
Ago19

Autenticamente Comum

Olavo Rodrigues

Vejo-o de longe e mordo o lábio de imediato. Caramba, que feio! É o que dá marcar encontros na internet: nunca se sabe se a surpresa vai ser agradável ou não. É a primeira vez que experimento este método e, tenho para mim, que não devia ter confiado só nas fotografias do Instagram. Credo!  Realmente, o homem é mesmo qualquer coisa de extraordinário. Nunca tinha visto ninguém assim. Até o Shrek é mais bonito!

Bem, ele não me vê daqui, por isso, ainda estou a tempo de ir para casa e livrar-me de qualquer contacto que tenha com ele na internet. Fico descansadinha da vida. Nem mais nem ontem! Dou meia volta e começo a andar no sentido contrário, mas depressa paro e olho para trás. Coitado! Estou a ser mazinha. No chat o gajo até parecia porreiro e divertido. Não merece que eu o deixe pendurado. Então, respiro fundo e retomo a outra direcção com a ansiedade a corroer-me o estômago. Não me julgues! Os olhos são os primeiros a comer. 

- Boa noite. - Digo ao chegar à esplanada.

- Boa noite. "Simone", certo?

- Sim. E tu chamas-te Rogério, não é?

- Exacto. - Trocamos beijos nas bochechas. Mal me sento, ele começa a fitar-me e, num instante, o seu sorriso desfaz-se. - Desculpa, mas isto não vai dar.

- Como?

- A nossa relação: não vai acontecer. Lamento. 

- Relação? Este é o primeiro encontro.

- Sim e acaba aqui.

- Desculpa, eu fiz alguma coisa errada? É que só tive tempo de me sentar. 

 - Não, não é nada disso... é o teu aspecto... 

- Desculpa?!

- És demasiado bonita. - Estou prestes a responder, mas ocorre-me logo que não sei bem o que dizer. Fico nesta corda bamba por um bom tempo enquanto processo o que acabei de ouvir e tento decidir o que sentir... mas não é nada fácil. 

- OK... define "demasiado bonita". 

- Tens lábios carnudos, olhos claros, uma tez bronzeada e parece que foste esculpida por anjos. Ainda por cima, também és bem dotada à frente. Isto é uma palhaçada! Se quisesse namorar uma actriz de Hollywood, andava com a Megan Fox, não achas?

- Eu não acho que ela...

- Eu à espera de uma desdentada minada de borbulhas e verrugas e com uns quantos quilos a mais e apareces-me tu... a encarnação de Vénus? 

- Eu realmente não sei se hei-de me sentir elogiada ou ofendida. 

- Porque é que também és como uma supermodelo fora do Instragram? Não sabes ser descuidada como toda a gente?

- Espera, querias que eu viesse para o encontro mais... ah... 

- Feia, sim! Pá, não me leves a mal, mas gostos são gostos. 

Uou, uou! Alto e pára o baile! - Se tu não me achas bonita... creio eu... não devias ficar contente por, ao menos, eu ser mesmo o que aparento nas fotografias? Talvez não seja quem esperavas ver, mas sou autêntica. - Porque raio estou eu a esforçar-me para agarrar este gajo?

- A questão é: eu não queria nada que fosses autêntica. Que diabo! Um gajo vai ao Instagram para lavar a vista e, por muito scroll down que faça, só encontra o que não lhe apetece! Gostava que, pelo menos na vida real, num momento íntimo como este, o mundo fosse à minha medida. Quer dizer e é: o que não falta para aí é gente comum que precisa de exercício e outras cenas assim, mas, pronto, tinhas de aparecer tu. Provavelmente, deves querer bater-me.

- Violentamente.

- Mas não o fazes, porque tens mais juízo que eu?

- Não, porque não quero ser arrastada pelos seguranças.

- 'Tá bem. Enfim, tu és muito boa moça e tal, mas eu vou pôr-me na alheta. Boa noite. - Quando ele se levanta, pergunto:

- És sempre assim tão apanhado dos cornos?

- Nem fazes ideia. - Começa a afastar-se.

- Tens esses valores um bocado trocados. 

- Blá, blá, blá. Conversa moralista da treta. - Permaneço alguns segundos na cadeira a deitar fumo pelas orelhas, mas um impulso faz-me levantar de um salto e acelerar o passo até o alcançar. Em seguida, viro-o para mim, o que o surpreende e digo-lhe a espumar pela boca:

Olha lá, cabeça de melão: eu passei uma eternidade a aperaltar-me toda, adiei um jantar com os meus pais, que não vejo há meses e vim até aqui com este frio glacial só com este vestido curto. Por isso, eu exijo-te que dês meia volta e me dês o encontro que eu mereço! - O homem fica muito sério a olhar para mim e quebra o silêncio ao rir-se. - Porque é que ainda não te estás a mexer? Não te rias!

- Espera: vieste ter com um parvalhão que não teve qualquer consideração por ti e, em vez de te ires embora e cagares nisto, ficaste à conversa comigo e ainda te deste ao trabalho de tentar obrigar-me a estar contigo? Estás cheia de frio e tiveste uma trabalheira desgraçada só para me agradares a mim? A um gajo que nem sequer conhecias? Parece que não sou o único que tem os valores trocados: precisas de pôr essa auto-estima nos eixos. - Ele volta a mostrar-me as costas. 

- Eu sou linda! Porque é que não vês isso como toda a gente?! - Arremesso-lhe a mala. 

- E esse ego também. Olha só: afinal, não és assim tão autêntica como pensas. És tão insegura como qualquer outro comum dos mortais. Saudinha da boa e melhor sorte para a próxima. - Espero que ele avance mais um pouco e, mal se aproxima de uma poça de lama, prego-lhe uma rasteira e o sacana cai com a cara mesmo no meio da poça. 

- Palhaço! 

 

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