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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

29/12/15

Banho de Maionese (4) 1 - Zaragataram os Três e Caíram os Quatro

por Olavo Rodrigues

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 (Constança a narrar)

O Samuel afastava-se de mim a um passo apressado enquanto eu sentia um aperto no coração e a preocupação e a tristeza a fervilhar. Talvez tivesse sido melhor começar por algo mais simples como uma pequena reunião de amigos num restaurante. 

Apanhei de facto um susto de morte, por momentos pensei que ele fosse desmaiar ou ter um ataque cardíaco. Tenho imensa pena de esta experiência haver sido um fracasso para o rapaz, achei que seria fantástico ele conseguir articular toda aquela genialidade que demonstra sem estar prestes a explodir. Precisava de amigos, amigos que o percebessem. 

Um sorriso instalou-se nos meus lábios. Eu formava-me em Psicologia e tinha como amigo o meu desafio supremo. Se bem que trabalhar com autistas não devia ser nada fácil. O meu grupo veio encontrar-se comigo.

- Ei, o teu amigo está bem? - Questionou a Madalena.

- Há-de ficar... Pelo menos foi o que ele disse.

- É um bocado estranho. - Afirmou o Gabriel.

- Não é nada! - Rosnei eu movida por um impulso. - É só diferente. - Retomei num tom mais calmo.

Não tenha medo de me "agarrá"

Toca em mim e me aperta,

Me amassa... hum, hum...!

Assim não dá, 'tou a "gostá"

(...)

- Oh, fixe, é o Controla, vamos lá para dentro. - Exclamou a Liliana a suar entusiasmo.

Os outros seguiram-na igualmente famintos de ouvir a música, porém, eu fiquei na rua durante mais uns momentos. Pensava no bem-estar do Samuel. Mas depressa percebi que estava sozinha feita ursa e entrei por fim.

 

Eram oito da manhã e eu estava com uma dor de cabeça do piorio! Sim, era verdade, tinha exagerado na bebida. Depois de uma directa, por mim ficava em casa, o meu desempenho na faculdade não seria o melhor, contudo, os meus pais pagavam uma nota preta para eu tirar o curso e se não me aplicasse, eles não hesitariam em dar-me com o chinelo embora tivesse vinte anos. Portanto, a imitar os pinguins, dirigia-me à paragem de autocarro.

No entanto, enquanto andava, ou melhor, cambaleava, tropecei nalguma coisa e espalhei-me ao comprido, dando um beijinho ao chão. 

 

Zonza, abri os olhos e dei conta de que me encontrava numa casa que não conhecia, deitada no sofá. Levantei-me sobressaltada, porém, um velhinho com um ar amistoso apareceu de súbito com um copo de água.

- Sente-se bem, menina? - Questionou amavelmente com um sorriso na cara antes de me entregar o copo. 

- Mais ou menos, obrigada. - Hum! Água! Há imenso tempo que não me sabia assim! - Quem é você?

- É o meu avô.  - Respondeu uma voz familiar atrás de mim. Era o Samuel! - Bebeste whisky, cerveja e vodca. És decerto uma melhor entendida em consumo de álcool do que eu, devias saber que as misturas são altamente nocivas. Estavas mesmo a pedi-las.

Se tivesses optado por ir a um sítio no qual houvesse fornecimento de batidos de banana, agora não estarias nesse estado e terias optimizado a tua memória e qualidade de aprendizagem, como já referi antes. Tenho a certeza de que precisas dessas capacidades para o sucesso académico. - Não conseguindo conter o espanto, perguntei à ganância:

- Como é que sabes o que eu bebi? 

- Através do cheiro do teu hálito.

- Foi o Samuel que a socorreu. - Explicou o velhote enquanto recolocava o gelo caído no meu galo. - Estava muito bem no quarto a fazer... O que é hábito, quando de repente saiu disparado sem passar cavaco a ninguém e voltou consigo inconsciente nos braços. 

- Senti uma perturbação na tua energia normalmente positivíssima. Também tive de alternar diversas vezes entre carregar-te e descansar devido à minha constituição franzina, mas o que é importante é que nenhum dos dois se magoou ao longo dos 150 m. - 150 m?!

- Uau! Obrigada, Samuel. - Agradeci do fundo coração e a sorrir abertamente, no entanto, recebi o seu tom frio e distante do costume.

- De nada, só fiz o meu dever.

- Bom, muito obrigada pela preocupação e hospitalidade, mas eu tenho de ir, é dia de escola. - O rapaz deteve o meu movimento ao pressionar-me o ombro.

- Não é boa ideia, já é uma sorte não estares em coma. Não estás em condições de ir a lado nenhum, ficas aqui e almoças connosco. 

- Almoçar? Mas eu acabei de conhecer o teu avô. 

- Então e também vai conhecer a avó. - Riu-se o senhor.

- Agradeço imenso, mas não consigo comer agora, o meu estômago está a andar às voltas. 

- Essa é uma das consequências da veisalgia, popularmente conhecida como ressaca. O corpo faz um esforço tremendo para processar o excesso de álcool e as respectivas toxinas. Quando o trabalho acaba, o fígado, o órgão mais sacrificado, quer mais e mergulha num género de depressão, gerando o caos no metabolismo. O sistema nervoso também afectado tem uma reacção parecida e manifesta-a em forma de dores de cabeça, náuseas, cansaço extremo, sensibilidade à luz, ao barulho... (https://pt.wikipedia.org/wiki/Veisalgia)

- Samuel, não precisas de descrever isso, estou a senti-lo. - Disse eu agarrada à cabeça.

- Com tudo isto quero insinuar que para combateres melhor esse desconforto, tens de nutrir o teu corpo. Compreendo que não sejas capaz de ingerir grandes quantidades de alimento, mas o jejum é de longe a melhor solução. E garanto que não tomaste o pequeno-almoço. 

- Mas...

- Constança, para quem quer introduzir-me no âmago da sociedade, não estás a aceder à atitude correcta.

E com esta arrumou-me. Como se não bastasse, ele detectou-me do quarto a 150 m de distância e distinguiu o cheiro de três bebidas diferentes já consumidas. Talvez não fosse boa ideia contrariá-lo. Dei o braço a torcer-me, rindo-me.

- Está bem, acho que posso aceitar uma tigelinha de sopa. 

26/12/15

Banho de Maionese (3) 2 - Entre o Badoxa e um Batido de Banana

por Olavo Rodrigues

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 Havia somente um rapaz e as duas raparigas trajavam roupa ousada.  A minha... Amiga passou às apresentações.

- Pessoal, este é o Samuel. Samuel, estes são a Madalena, a Liliana e o Gabriel. - O rapaz iniciou as saudações, estendendo-me a mão.

- Cumprimenta-o. - Incitou a Constança depois de algum tempo de inactividade.

- Não percebo este tipo de comportamento.

- Quando alguém te estende a mão assim é para lhe dares um passou-bem. - Expus desentendimento através do rosto. - Esse vocábulo é-me igualmente desconhecido. - O tal Gabriel agarrou na minha mão e fez o que era suposto. - Obrigado pelo esclarecimento. - Agradeci sem sorrir ao contrário dele. Isso não pareceu agradar-lhe.

 Estava prestes a fazer o mesmo à Madalena e à Liliana quando a Constança deu um grito que quase me rebentou os tímpanos, tendo ficado com uma ligeira dor de cabeça, os meus eram muito sensíveis. 

- Ai eu não acredito, é o Badoxa! - Exclamou ainda com o entusiasmo no auge.

Num estalar de dedos, a música electrónica que invadia todo o perímetro da festa foi trocada por um ritmo tipicamente africano, que eu também não apreciava. O indivíduo que se encontrava no palco não fez questão de prolongar a espera, lançando-se ao espectáculo com uma enorme paixão.

Essa parte deu-me gosto de ver, ele era um dos poucos sortudos que conseguiu fazer com que a vida cantasse a sua vontade. Admirava-o a ele e a todos os outros, que apesar de serem maiores e vacinados, nunca deixaram de desfrutar da sua infância. Conservaram os sonhos como prioridade e quais estrelas continuam a precisar de combustível para brilhar, portanto, não cessam de procurar objectivos concretizados.

O seu tipo de música não era de todo o meu estilo, mas eu começara a adorar o Badoxa. Nunca tinha ouvido falar de tal personagem, mas o seu sorriso sincero no rosto cativara-me... Causara-me inveja. Eu ainda não tinha um sonho definido, o que era grave a esta altura do campeonato. Quando dei por mim, encontrava-me nas entranhas da caixa, que me digeria lentamente, tratava-se de uma prisão bastante difícil de superar. Podia estar atrasado, mas nunca seria tarde de mais.

O meu maior prémio - a vida. Tem uma personalidade dos diabos, bem como uma beleza inigualável que tortura a minha mente todos os dias com os seus quebra-cabeças intermináveis. Aproveitava-a com o maior prazer, proíbia-me a mim mesmo de perder a esperança por muito que me custasse.

- Samuel! - Gritou a Constança.

- Bolas, isso é mesmo necessário?! - Resmunguei.

- Desculpa, mas já te tinha chamado três vezes. Queres uma bebida?

- Sim. Um batido de banana, por favor. Tenho de estabilizar as minhas reservas de potássio. 

- Lamento, aqui não há disso. Não preferes antes um whisky? - Questionou ao mostrar-me o seu copo.

- Não, obrigado. Por que não me avisaste de que este sítio carecia de elementos salubres? Podia ter trazido um batido caseiro. - Ela riu-se.

- Ninguém vem a uma festa para estimular a saúde. As pessoas costumam gostar do que faz mal, é o que sabe melhor. 

- Isso não faz qualquer sentido, estou seguro de que o bem-estar sabe muito melhor. O potássio previne doenças cardiovasculares ao aliviar a hipertensão arterial, nivela a quantidade de açúcar no sangue, evitando tanto os picos como a escassez (esta característica torna-o um óptimo nutriente para os diabéticos), contribui para o bom funcionamento eléctrico dos neurónios. Sem potássio, os mesmos demonstram uma comunicação prejudicada. A dose ideal desta substância auxilia a boa memória e a aprendizagem... (http://www.mundoboaforma.com.br/9-beneficios-do-potassio-para-que-serve-e-fontes/)

Ei, importas-te de que saia daqui? As luzes fluorescentes são deveras incómodas para a minha vista e além disso, cheira a tabaco, bem como àquelas estranhas ervas medicinais. Detesto ser um fumador passivo, com a respiração não se brinca, é o instrumento mais precioso da nossa saúde. Por favor, Constança, tira-me daqui...! - A ansiedade havia tomado o meu autocontrolo, de momento piscava os olhos sem parar e tremia imenso.

Como se não bastasse, os amigos de quem me acompanhava observavam-me de uma maneira que não conseguia descodificar, mas que me era assustadoramente familiar. Sempre que alguém me olhava assim, sentia uma pressão esmagadora.

- Ah... Está bem, vamos lá para fora um bocadinho. - Se não me enganava, a rapariga que me convidara aparentava estar preocupada. - Peço desculpa. - Afirmou aos outros.

Quando chegámos ao exterior, pude finalmente entrar em contacto com oxigénio de qualidade. Principiei um exercício de inspiração e expiração profundas de modo a acalmar-me, só conseguiria comunicar outra vez depois de voltar ao estado neutro. A Constança tentou estabelecer contacto, mas eu instruí-a a esperar quando levantei o dedo indicador.

Assim que recuperei o controlo das minhas emoções, ainda que estivesse ofegante, começou o diálogo:

- Céus! Estás bem? Por que ficaste assim, só te ofereci uma bebida, estava a tentar ser simpática. Não me digas que entraste em pâncio porque não podes beber um batido de banana.

- Não, não é isso, as minhas divagações são meros resultados dos meus nervos. Este evento é demasiado complexo para mim. Tanto barulho, tantos estímulos visuais, tantos cheiros esquisitos e credo! Por que é que tu e tantas outras raparigas gritam? O Badoxa não pode responder-vos. 

- Desculpa, é a força da emoção. - Brincou ela.

- Outro factor horrendo foi o olhar dos teus amigos.

- Como assim?

- Não é a primeira vez que alguém me olha assim, eu não me apercebo por olhar para as pessoas, mas sim por sentir que me observam daquela forma. Não sei o que significa, contudo, não gosto nada. - A Constança não disse uma única palavra durante momentos, apenas acalmava a fera com o seu toque físico tranquilizador.

- Queres ir para casa? - Atirou finalmente num tom meigo.

- Sim, adoro o refúgio da solidão.

- Está bem, deixa-me despedir-me dos meus tropas. 

- Oh, não. Por favor, não estragues a tua noite por minha causa.

- Não vou estragá-la.

- Falo a sério. Não cometas o mesmo erro que eu, diverte-te do melhor prisma.

- De certeza que ficas bem?

- Hei-de ficar, sim. 

- Muito bem, vai lá. - Antes de me conseguir levantar para partir, a nossa interacção foi concluída por um abraço face ao qual me vi incapaz de retribuir. Pus-me a caminho logo após ter terminado, com um nervoso miudinho a processá-lo.

 

 

 

 

 

12/12/15

Banho de Maionese (3) 1 - Na Festa dos Sentidos Emaranhados e Olhos Encarnados

por Olavo Rodrigues

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 (Samuel a narrar)

Cheguei à porta da Constança com um ramo de rosas brancas. Procurei a campainha, mas não a encontrei. As campainhas costumam ser botões quando inseridas em prédios e são salientes e estão envolvidas por um contorno quadrangular no caso de servirem casas rasteiras como a da minha... Amiga.

Não havia claramente nenhum adereço na paredes que seguisse tais padrões, portanto, bati à porta com força. Achei por bem meditar nas palavras, pelo que quando a Constança me abriu a porta, o meu regresso ao mundo real foi repentino e abrupto, tendo-me isto saído isto instintivamente:

- São brancas porque não quero fazer sexo contigo! - Ela não sabia se havia de ficar chocada, confusa ou divertida.

- Ah... Muito bem, está registado... Não te preocupes. - Riu-se por fim ao aceitar as flores. - Uau, Samuel, sinto-me lisonjeada, mas... Não é suposto isto ser um encontro.

- Oh, as minhas desculpas, não sabia qual a ocasião certa e achei por bem trazê-las na mesma, não fosse eu cometer uma falácia. 

- São verdadeiras, ena! 

- Calculei que isso ampliaria o efeito positivo sobre ti. Não sabia quantas devia trazer, por isso, decidi guiar-me pelo número de letras do teu nome, que vem de Constantius em latim. Significa constante, determinada e também uma variante medieval de Constância (o feminino de Constâncio) encontrada em escritos portugueses dos séculos XIII e XIV. (http://www.dicionariodenomesproprios.com.br/constanca/)

Cheguei a pensar que seria melhor seguir a quantidade de letras de Constantius, pois tal como as rosas podias querer que tudo fosse o mais natural possível, no entanto, por outro lado...

- Calma, eu adoro-as, são perfeitas independentemente do número. - Aproveitei a oportunidade para recuperar o fôlego. 

- Obrigado, estou-te eternamente grato por me teres interrompido. 

- Isso são tudo nervos por causa da festa? - A rapariga largou uma gargalhada. - Não te preocupes, passam-te com uma bruta duma bebedeira. Anda. - E com isto, deixando-me completamente atónito e sem palavras, pegou-me na mão e começou a andar, estava claro que chegaríamos atrasados se eu ficasse ali a matutar.

O caminho foi todo feito em silêncio, quer a andar, quer nos transportes públicos. Quando entrámos, senti que a música me penetrava de tão alta que estava. Além disso, detestava-a, era electrónica.  À minha volta, uma tempestade de sensações tomava forma - a música quase me rebentava os tímpanos (obviamente), ouvia as pessoas a rir, a falar... A vomitar, inalava diversos cheiros de toda a espécie... Era impressão minha ou alguns eram originários de ervas medicinais? Cores vibrantes por todo o lado! Das vestimentas, das luzes fluorescentes que me encadeavam e massacravam a vista. 

 Ainda a processar tanta informação, dei por mim ao pé de indivíduos que não conhecia de lado nenhum. A expressão que mostravam ao retirar prazer das ervas medicinais era estranha... Mas que raio?! Não paravam de se rir sem motivo aparente. Seria a depressão o problema deles?

- Samuel, estás com o grupo errado. - Disse a Constança do nada enquanto me arrastava para uma reunião com outros desconhecidos.

 

 

02/12/15

Banho de Maionese (2) - "Arrgh"! Salvem-Me de Mim!

por Olavo Rodrigues

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Estava sentado num banco de um jardim ora solitário, ora confuso e por vezes as duas coisas. É assim que constantemente vejo o mundo - nada me faz sentido, tudo me parece incerto porque o certo não existe simplesmente. Toda a Existência é vibração energética abstracta como o barro. Contudo, há um propósito - cumprir uma missão, missão esta que requer aprender e evoluir.

Para grande desgosto meu, carrego o terrível fardo de não conseguir dar estes passos por as respostas que encontro não me satisfazerem. Obtenho tanta informação e o resultado é a substituição de todo o conhecimento por dúvidas. Eu não me realizo porque questiono a própria dúvida, tudo me parece desconfiável. Até pode haver uma ou várias respostas certas, mas aos meus olhos serão sempre hologramas. 

Cada imagem, cada som, cheiro ou sabor é aspirado e processado pela minha mente hiperactiva, que os dispõe brutalmente a uma velocidade exuberante, sendo a minha cabeça um ninho oficial de tornados. 

A Lua! Leva 27 dias a completar uma órbita completa à volta da Terra, A Lua é o único satélite natural do nosso planeta e o quinto maior do Sistema Solar. É o maior satélite natural de um planeta no sistema solar em relação ao tamanho do seu corpo primário, tendo 27% do diâmetro e 60% da densidade da Terra, o que representa 1⁄81 da sua massa. Entre os satélites cuja densidade é conhecida, a Lua é o segundo mais denso, atrás de Io. (Wikipédia)
É o símbolo do feminino e da sensibilidade, a mãe da noite, o cartão verde para a aparição de criaturas fictícias criadas por imaginações férteis.

Oh!!! Lá estou eu outra vez! Dói-me a alma por não saber usá-la, adoro sentir e pensar, mas não misturar os dois, o que é inevitável. Se sinto, penso no que sinto, se penso, sinto o que penso e como sinto e penso tanto, sou apenas uma consciência caótica que às tantas não discerne qual é o primeiro agressor. Somente sabe que pensa, que sente e que está intensamente dorida.

É à conta disto que dificilmente me faço entender perante os demais, que não sabem nem querem ser abstractos ou cujo barro foi moldado de uma maneira diferente. Raios! Detesto viver no desespero de não encontrar um objectivo...

- Olá, Samuel.

Uma voz interrompeu-me os devaneios. Era doce, melódica e consequentemente muito agradável de se ouvir. No entanto, um pânico irracional impediu-me de direccionar o olhar para a proprietária, limitando-me a ficar parado como uma estátua. Sem qualquer aviso, a Constança põe-se à minha frente com um grande sorriso, pregando-me um susto de morte.

- Estás bem? Estás tão pensativo. - Afirmou antes de se sentar ao meu lado.

- A segunda parte da tua premissa é um hóspede obeso mórbido que declarou a sua presença permanente em mim, pelo que o verdadeiro significado da primeira metade é difícil de deslindar. Tanta coisa em que reflectir, tanta dúvida que criar, sim, porque eu só crio vazio.  - Continuava a não estabelecer contacto visual, mas consegui sentir que a rapariga ia demorar a mascar a minha deixa.

- Há alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar? - Perguntou por fim ao pôr-me a mão suave no ombro.

- Não, obrigado, esta é uma tarefa que me cabe a mim cumprir.

- Mas tudo é melhor com a ajuda dos amigos. - Não sabia se fora mal-educado, mas revelei-me incapaz de mostrar a minha surpresa.

- Nós somos amigos?

- Bem.. Quer dizer, como disseste acabámos de nos conhecer, porém, eu teria muito gosto em ser-te útil. Olha, sabes do que é que tu precisas? Disso mesmo: amigos. A minha faculdade organiza imensas festas, vem comigo à próxima, é daqui a três dias. - Voltei a desviar os olhos, estava novamente em pânico. Tremia como uma vara.

- Vá lá, Samuel, não vais deixar-me plantada outra vez. - Disse a Constança enquanto me punha de novo a mão no ombro e procurava o meu olhar com o dela.  Após algum tempo, piscou-me o o olho para me tranquilizar. - Então? - Raios, não conseguia tirar as palavras da boca. Para a moça não foi problema, tomou o meu silêncio como um sim. - Vemo-nos daqui a três dias, vai buscar-me à minha casa às 20:30.

Decoras a minha morada?

- Decoro quantos grãos de areia têm cinco metros quadrados ou mais.

A Constança despejou todos os dados da sua morada com a sua nata alegria que eu invejava. O estado da minha cabeça piorou, nunca soube como enfrentar este tipo de desafios.

 

 

 

 

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