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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

05
Set20

É só mais uma comédia romântica (6)

Olavo Rodrigues

Márcio para de escrever assim que se aproxima a contínua da cafetaria. A sua roupa está empapada de suor e algumas gotas atingem o diário. Quando as vê, o rapaz pensa que, se estivesse à vontade, o caderno estaria encharcado, não só de transpiração, mas também de lágrimas.

- Estás bem, miúdo? – O jovem demora algum tempo a reagir.

- Sim, obrigado.

- De certeza? Já vi maratonistas menos suados.

- É uma questão hormonal.

- ‘Tá bem. Olha, tu é que és o Márcio?

- Sim. Porquê?

- Toma. – A mulher entrega-lhe um pequeno papel. – Ontem uma menina passou por aqui e pediu-me para te dar isto. Falou-me de um moço que anda sempre com um caderno como esse, portanto, suponho que sejas o Márcio certo.

 

“Meu bem-amado, perdoa-me a ausência repentina. Para te escrever, falta-me tempo… e coragem, pois recentemente ouvi-te falar de outra rapariga. Era desmedida a admiração com que entoavas e gesticulavas o brilho que trouxe à tua vida. Fiquei com a impressão de que o rapaz com quem estavas, por outro lado, estava tão morto de tédio, que teria sido engolido pelo chão de bom grado se isso acabasse com o seu tormento. Perdoa-me ter estado à escuta. Não costumo ser abelhuda, mas escutar-te de longe é uma das poucas formas cómodas de conversar contigo. O que eu dava para estar no lugar do teu colega!

Depressa percebi que, como desconfiei, precisas de uma mulher idílica e desde cedo me conformei com a ideia de que, o mais provável, é que essa sortuda não seja eu. A naturalidade do encanto que expressaste fala por si. Afinal, como poderias descrever a erupção de deslumbramento por alguém que não tem rosto? Onde está a autenticidade de alguém que não tem uma alma palpável e cuja sinceridade não podes verificar no olhar?

Gostava de te dar mais, mas sozinha não consigo. Preciso de uma mãozinha. Vem tu ao meu encontro, por favor. Reenvia-me esta carta com uma das opções marcadas abaixo. Não aceites o meu amor se não for esse o teu rumo, meu querido pássaro de seda, mas peço-te que me vejas, pelo menos, uma vez. Encontra-me às 15:00 na sexta-feira, no parque de estacionamento da faculdade, se te aprouver.

 

A tua admiradora”

 

Márcio lê a mensagem diversas vezes. Abaixo do texto há dois quadradinhos: um encimado por “sim” e outro por “não”. Os seus olhos oscilam incessantemente entre as duas hipóteses até que se farta e atira o papel para a mesa com brutidão. No mesmo instante, arrepende-se, apanhando-o a deslizar. Chegou o momento por que tanto ansiou, especialmente na adolescência. Não sabe se é da angústia assoladora; contudo, não está minimamente curioso nem interessado em encontrar-se com a sua admiradora. Adriana não o abandona desde aquela tarde e ele não distingue se é amor ou fixação. Uma vozinha dentro de si sussurra que deixar dois pássaros voar sem sequer tentar ficar com um na mão é um desperdício de vida grave, mas além da falta de interesse, impõe-se o receio de que também a nova rapariga se canse dele.

Apesar disso, sabe que deve ser sensato e honesto para com ela, pelo que, depois de encarar de novo os dois quadradinhos, risca a medo o do “sim”.  

 

O rapaz está à espera no parque de estacionamento. Está a suar em bica, mas não distingue se é do nervosismo ou do calor abrasador. Observa transeuntes que chegam aos bochechos e entram nos carros, alheios ou indiferentes à presença daquele jovem. Alguns deles são raparigas da sua idade, portanto, o coração de Márcio quase fura o peito de tanta ansiedade. Tenta adivinhar-lhes o interior, pois quanto menos doloroso for o impacto, melhor, e ruminar palavras não o ajuda se não tiver uma vaga ideia de com quem fala. Quem é que quer enganar? A ideia já está formada e vai ser horrível. Escorreu-lhe que não há pior castigo que uma alma sensível ter de despedaçar uma congénere. Nenhuma das poucas moças o aborda. Pensou tê-la encontrado quando uma caminhou na sua direção, mas foi só para chegar a um carro perto dele. O telemóvel indica 15:20. Mais cinco minutos e vai-se embora…foi uma partida, quase de certeza.

- Olá, Márcio. – Uma rapariga acena-lhe por trás de um carro e vai ao seu encontro. – Desculpa o atraso, mas tive de resolver um assunto importante na Secretaria. – Trocam beijos na cara.

- És tu?! – A moça diz que sim com a cabeça, olhando para baixo.

- Mas, desde que fui expulso da sala na outra faculdade, só me tens evitado. Aliás, nem sequer sabia que andavas aqui.

- Sabes… cometi um erro. Não queria admitir que gostava de alguém tão… ah… invulgar como tu, mas depois percebi que são pessoas assim que tornam o mundo um lugar melhor e menos aborrecido. És bondoso e divertido e teres feito algo tão grandioso só para me impressionar mostra o quanto és dedicado. Quero alguém assim comigo. – A garganta de Márcio enrola-se. A rapariga fita-o, desvanecendo-se-lhe o sorriso após um longo silêncio. – Está tudo bem? Não vais dizer nada?

- Olha, não vou mentir-te. Adorei e estou-te muitíssimo agradecido pelas cartas, mas infelizmente gosto de outra pessoa. Quero dizer, não é um sentimento recíproco, mas ainda não estou pronto para outra rapariga.

- É a Adriana?

- Conhece-la?

- Conheço.

- Conhecemos. – Joel prime o gatilho e o outro estudante cai imóvel com um tiro na nuca.

- Silenciador de bala? Astuto. À conta deste badameco chato, não conseguia estudar nem prestar atenção às aulas. Parecia uma lapa.

- Nunca mais vou ter um catorze. Atrasei-me tanto por causa dele…

- Já está despachado, mano. Como é que ele gostava da minha amiga e eu não sabia?

- Como é que a Adriana é tua amiga?

- Não sejas assim. Ela curte-te.

- Mas eu não gosto dela. Posso? É doida e achou o Márcio fixe! Não é tão doida como ele, mas mesmo assim…

- Estás a falar, mas quiseste protegê-la.

- Não desejava a inconveniência do Márcio ao meu pior inimigo.

- Já podem aparecer, manas – Dos arbustos emergem uma rapariga loira e outra morena. Ambas têm luvas e uma segura um lençol e outra um saco.

- Este já não constrange mais nenhuma. – Atira a morena.

- O coitadinho do meu sapo teve de o beijar.

 

Que doloroso aperto no estômago! Não me deixa pensar com clareza. Por muito que o Márcio me tenha assustado, nunca vou perdoar-me por a última coisa que lhe disse ter sido “esquece que eu existo”. É claro que eu não podia prever a tragédia e só estava a tentar defender-me de um possível maníaco, mas quando alguém parte, queremos que leve uma boa recordação de nós. Gostava de ter feito alguma coisa para o livrar da desgraça. Se ao menos, tivesse estado no sítio certo à hora certa. Se ao menos, tivesse sabido a tempo que ele estava arrependido, talvez tivéssemos sido bons amigos. Cheira-me que ia haver barrigadas de rir com fartura e eu ia ver aquele ser humano tão cheio de vida e, vontade de agradar, de outra perspetiva.

O Joel aparenta ser de gelo, mas ficou arrasado e as suas irmãs também. Uma delas é minha amiga e, ao que parece, todas se cruzaram com o Márcio nalgum momento. Como era o Joel que passava mais tempo com ele, entregaram-lhe o seu diário, o qual o meu colega me deu. Achou que o Márcio ia querer isso.

Que se faça justiça e os assassinos paguem caro pelo crime! Prisão perpétua era o que mereciam se existisse em Portugal! Entretanto, vou lendo o conteúdo deste caderno. Já que não posso estar com o autor, vou conhecê-lo através do que resta dele. Descansa em paz, Márcio. Estás perdoado.

 

Adriana – a tua eterna amiga

05
Set20

É só mais uma comédia romântica (5)

Olavo Rodrigues

Saco do telemóvel, que me foge das mãos como um sabonete e se esbardalha no chão. Parece que tento respirar com um rinoceronte em cima do peito. Esta miúda é doida! Mais do que eu! Apresso-me a apanhá-lo, magoando-me na cabeça ao bater numa mesa. Isto é uma maluquice pegada! São 18:55! Gaita! O caminho para o telhado ainda é longe, por isso, desato a correr. À medida que me cruzo com outras pessoas, só me escapa “saiam da frente!”. Porque é que não me calhou alguém como a Adriana?!!! Para me dar dores de cabeça já chego eu próprio!

No exterior deparo-me com uma praxe em que há dezenas de pessoas. Ia ser difícil passar a correr sem ir de encontro a ninguém, pelo que abrando e me infiltro na maré de foliões barulhentos, alguns dos quais bêbados. Um dos praxantes, que tresanda a cerveja, barra-me o caminho.

- Aonde é que pensas que vais? Queres baldar-te, é? Aqui ninguém se livra da praxe, espertalhão! Se entraste, só sais quando acabar.

- Não estás a perceber. Não faço…

- Ó, Diogo, olha-me este a querer safar-se. – Grita o rapaz. Num estalar de dedos, o outro aproxima-se e passam a ser dois obstáculos a contornar.

- O que é que fazes longe dos outros caloiros? E porque é que tiraste a camisola da praxe?

- Eu não faço…

- Já lá para a frente. – Vira-se para o primeiro. – Vamos obrigá-lo a beber cerveja enquanto faz o pino.

- Népia, mano. É mais fixe se ele fizer um desenho com a cara cheia de baba de camelo.

- Não, meu. ‘Bora dar um momento de glória ao puto. – Agarro a oportunidade para voltar a correr e acho que aqueles estão com uma broa tão grande, que nem sequer reparam. No edifício principal alcanço, por fim, as escadas que conduzem ao telhado. Assim que lá ponho os pés, berro:

- Para! A vida vale a pena! – Mas estou sozinho. Quando verifico as horas, o telemóvel marca 19:06. Dirijo-me de imediato à beira do telhado e olho para baixo. Porém, tudo está normal: ninguém se desgraçou nem se reuniu um aglomerado de pessoas. Não entendo. – Onde estás?!!! –  Silêncio… vou para outra zona? – Onde estás?!!! – Silêncio… - Aparece!!!

- Estou mesmo atrás de ti. – Sentada numa cadeira que não se encontrava ali, está a Adriana a comer uma travessa de lasanha no colo. Espera, o quê?!

- Ah… como? Porquê? Porquê?!

- És servido?

- Porque é que trouxeste lasanha para o telhado?

- Porque não havia esparguete à bolonhesa, mas isto também é um pedaço do Céu na Terra. Hum! Péssima para o colesterol tal como eu gosto.

- Onde é que estiveste toda a minha vida?

- A tirar bocados de bolo da roupa e do corpo.

- Então, afinal, és mesmo tu a autora das cartas?

- O que é que te parece?

- Porque é que mentiste?

- Que raio de romântico és tu se queres saber logo tudo?

- E precisavas de me assustar de morte?

- Tinha de garantir que vinhas a correr.

- Eu corria de qualquer maneira. Bastava chamares-me.

- Não te bastava um parafuso. Perdeste logo a caixa toda.

- Dá-me um dos bocados com mais queijo.

- Vem cá buscá-lo. – A rapariga dobra, com cuidado, uma folha de lasanha avermelhada do molho e dourada do queijo e enfia-a na boca, deixando metade de fora, além de que salpica o traje no processo. Em seguida, ergue-se devagar e abraça-me. Eu mordo a parte do exterior e também os nossos lábios se abraçam, ainda que por míseros segundos. Há que comer a lasanha primeiro. Pronto, agora sim! Viva a marmelada!

- Sujaste-me com o molho.

- Deixa-te de tretas. Tu fizeste muito pior. – A paleta de tons amarelados, alaranjados e avermelhados do pôr do sol incide sobre nós. Pelo meio das mensagens enviadas através dos lábios a roçar, iluminam-se emoções intensas e ardentes. Um banho de luz e paixão.

 

Tu inventaste toda uma telenovela à volta de uma relação comigo?! Confesso que me sinto mal por ter espreitado o teu diário, mas, ao mesmo tempo, ainda bem que o fiz. Quando te disse que achava piada à tua doidice, não quis incentivar-te a bisbilhotar todos os cantos em que me meto nem a importunares o Joel… e muito menos a viveres numa irrealidade! Há limites, Márcio! E prejudicar um colega e não largar a ficção – especialmente quando se trata de outra pessoa – é pisar o risco.

Sim, naquela tarde foi querida toda a conversa de seres muito carismático, porque também mostraste a tua insegurança e pensei que essa autoestima exacerbada fosse uma defesa. Apesar de estranho, pareceste-me genuinamente humano, mas fantasiares com algo tão mórbido como o suicídio para “eu te ver” é doentio.

O Joel acertou em tudo o que te disse. Esquece que eu existo.

 

PS: Detesto lasanha.

 

Adriana

 

Também eu aproveito a intrusão para te avisar de que o professor aceitou que nos separássemos. Isto era escusado, claro está, pois não estava previsto haver este tipo de exceção infeliz. Agora que já tens o parecer da própria Adriana, espero que compreendas, por fim, aquilo para que tentei alertar-te há bocado. Percebo pela maneira como te expressas aqui que és bastante inteligente ao contrário do que pensava. Usa-o para o bem.

 

Joel

 

Ao sair da sala para ir beber café, esqueci-me do diário na mesa e, quando fui aos Perdidos e Achados, encontrei estas mensagens. A do Joel não me incomoda muito. Como está escrita a lápis, posso apagá-la mais tarde, mas a da Adriana… fez-me lacrimejar. Ainda por cima, foi escrita numa cor diferente, realçando ainda mais a repulsa cortante. Contive-me para não chorar em público. No entanto, o impacto da sua recusa foi de uma brutalidade indescritível. Já me tinha sentido abalado pelos vários nãos que recebi até à data, mas, por alguma razão, nenhum buraco se compara ao que a Adriana acabou de abrir. Igual na forma de atração. Diferente na forma como provoca a minha reação ao choque.

Sim, é verdade. A partir do momento em que vejo o envelope, é tudo inventado. A minha admiradora nunca mais me escreveu. A Adriana só quer distância de mim e agora já nem sequer tenho o Joel. Pensando bem, da mesma maneira que estava a criar uma ligação forçada à primeira, também estava a criá-la ao segundo. A rapariga não me quer como namorado e o rapaz não me quer como amigo.

Porém, eu sinto tudo com imensa intensidade. Não sei agir de outro modo. Sempre que sinto uma empatia por alguém, surge de imediato em mim a vontade de ser o seu melhor amigo. Há quem não suporte a humanidade por ter perdido a fé nela, mas eu daria este mundo e o outro a toda a gente se fosse humanamente possível. Até era capaz de perdoar à Adriana o atrevimento de não apreciar lasanha. Eu gosto de pessoas incondicionalmente, porque são complexas, diversas e esquisitas. O meu fascínio por raparigas é tão grande por serem tão diferentes de mim. Em cada esquina existe um sem-fim de potenciais oportunidades de espanto, pois é divertido gostar da esquisitice dos outros. Só queria que achassem a mesma coisa da minha.

Creio que podia tentar mudar-me, já que não mudo os outros. Contudo, sozinho sou incapaz. Que pessoa seria senão esta? Preciso de ajuda, mas afastei toda a gente. Como posso mudar sem ter ninguém que mo ensine?  Estou ciente de que me excedi ao recorrer à morbidez, ao cantar no meio da aula, ao fazer um pedido de casamento precoce e ao disparar “eu amo-te” demasiado cedo. Mas não sei ser de outra maneira… ajudem-me… não sei… eu não sei…

05
Set20

É só mais uma comédia romântica (4)

Olavo Rodrigues

Quarta-feira

Estes últimos dias não tenho recebido cartas e, para mal dos meus pecados, também não me tenho cruzado com a Adriana. Sinto saudades, mas não sei de quem são as mais aguçadas: se da minha admiradora, se da musa que admiro. Adoro a segunda, mas não nego que a ausência da primeira me deixa um pouco… vazio. Eu gosto daquele tipo de atenção. Nem uma nem outra. Nem ando nem desando. Estou nesta corda bamba e o Joel só quer saber do raio do trabalho em vez de se focar no que realmente importa. Não posso culpá-lo de certa forma. É a única coisa que conhece. De certeza que, se lhe dessem a provar um pouco de amor, arrebitava logo. Não ia querer outra coisa.

Hum… pensando bem, talvez não seja boa ideia. E se ficasse a ver navios como eu? Se eu, que sou bonito e divertido, me desunho para as raparigas repararem em mim, o que achariam do Joel? Como se diz e muito bem, a ignorância é uma bênção, portanto, mais vale deixá-lo ser feliz à sua maneira.

- Quando estiveres pronto, avisa. – Diz ele atrás de mim com uma pilha de livros que pousa na mesa ao sentar-se. Ocupámos uma sala vazia que encontrámos no pavilhão. Nem acredito que trouxemos aquilo tudo. São “só alguns livros”. “Alguns”, disse ele. Ponho o diário de lado enquanto o meu colega não tarda a enfiar o nariz num matacão.

– Pensava que era suposto os diários serem privados. – Comenta sem desviar o olhar da obra.

- Geralmente, sim.

- O teu é?

- Iá.

- Então, experimenta não o ler em voz alta em público.

- Apanhaste o que escrevi sobre ti?

- Sim.

- Ótimo! Assim ficas com um excelente conselho para a vida.

- Diz aqui que, tal como já comentámos em aula, Judith Butler defende que o género é performático. O que achas desta afirmação?

- A Adriana fala de mim quando estão juntos?

- O que é que isso tem a ver com o que te perguntei?

- Ela faz mesmo o meu género de miúda e gostava de “performar” com ela umas cenas, se é que me entendes.

- Não sejas ordinário. E “performar” nem sequer é uma palavra.

- Não é nada disso que estás a pensar, badalhoco. Só quero um beijinho. O resto logo se vê.

- Então, porque é que não disseste logo isso?

- Porque é que tu complicas sempre tudo? Qual é o mal de partilhar estas coisas entre homens? Hã? Não tens nenhuma giraça na mira? – O Joel ter-me-ia reduzido a cinzas se o olhar queimasse.

- Por favor, podemos focar-nos apenas no trabalho? Detesto fazer as coisas em cima do joelho.

- Diz-me só se ela fala de mim.

- Márcio…

- Vá lá. Só isso, por favor.

- Sim, fala. Diz que és porreiraço e tal. Já podemos trabalhar?

- “Porreiraço” como?

- Disseste que não insistias mais.

- Mas agora fiquei curioso. Se uma miúda como a Adriana me acha porreiraço, quero saber porquê. – O rapaz levanta-se e pega na pilha de livros. A sua sorte é que a maioria deles é fininha.

- Tem um zero se quiseres. Eu não tolero isto. – Começa a afastar-se.

- Não, Joel, espera. Pode não ser nada de especial para ti, mas significa mesmo muito para mim. – Tento agarrar-lhe o braço, mas ele finge que não me ouve e solta-se. No entanto, ninguém consegue calar um tagarela apaixonado. Quem tem de aturar o “não, desliga tu” que o diga. - Não a vejo há dias e estou a morrer de saudades. É como se estivéssemos afastados há décadas e saber que ela também pensa em mim… é reconfortante. Eu amo-a, Joel. – O meu colega estaca e vira-se para mim novamente.

- Estiveste com ela uma tarde. Não sejas precipitado.

- Nunca ouviste falar em amor à primeira vista? Eu já estava interessado nela antes de lhe encher o traje de bolo, lembras-te? Só que tu não te importaste, porque estás sempre com a mesma conversa da treta.

- De que página do Facebook é que tiraste isso?

- Olha outro!

- Se eu sou assim tão ignorante e aborrecido, porque é que não me largas? O que é que eu posso acrescentar assim de tão útil?

- Eu não preciso da tua ajuda para me orientar com ela. Não quero conselhos, mas gosto de que me digas informações que me facilitem a aproximação como: o que é que pensa de mim, o que achas dela, os lugares que costuma frequentar, caso queira fazer-lhe uma surpresa…

- “Os lugares que costuma frequentar”? Márcio, estás a ouvir-te? Pedes-me que colabore com uma perseguição. Não percebes o quanto a tua ideia de conquista é sinistra? É por este teu traço que evito falar destas coisas contigo. Sei como és e não me agrada de todo que pessoas como tu andem atrás de quem quer que seja. É fácil tirar-te a pinta, mas tenho uma amiga da tua faculdade anterior que me descreveu como te comportavas e, pelos vistos, não mudaste rigorosamente nada.

Tu não amas a Adriana. Apaixonas-te por qualquer rapariga que aches bonita ou te sorria. Ninguém te quer, porque és chato, convencido, burro e sinistro. Amadurece, sabichão! Eu não sei muito dela, porque nem faço questão, mas pelo seu bem e pelo teu, não te digo mais nada para poupar uma dor de cabeça à minha colega e impedir que sejas processado por perseguição. Boa sorte para, nesta altura do campeonato, encontrares um parceiro de projeto que te ature. Só pus o meu nome ao pé do teu, porque os outros grupos estavam cheios. – Ato contínuo, o Joel retoma o andamento, o que me impulsiona a pôr-me de pé de um salto e gritar:

- Tu és um frustrado! És presunçoso, mas nunca alcançaste nada além de notas mecânicas. És um robô! És vazio! Ao menos, eu tento fazer alguma coisa pela minha pessoa em vez de ser frio e antipático! – Ele sai porta fora, mas eu acompanho-o para gritar no corredor. - Nem sequer perguntas à Adriana como é que ela está! Ao menos, eu importo-me com as pessoas e não ignoro uma potencial amiga que está mesmo à frente do teu nariz empinado! Por acaso, caem-te os parentes na lama se lhe retribuíres a simpatia, seu imbecil arrogante?!

Despreza-me sem olhar para trás e desaparece da minha vista. Que raio! As pessoas deviam olhar-se ao espelho antes de chamarem “burras” às outras. Toda a gente sabe que, quando o Cupido goza com a nossa cara… não há nada a fazer… independentemente de quem é a iniciativa.

Mal volto para o interior da sala, deparo-me com um envelope a meus pés. Abro-o e… não evito saltar de alegria ao ver o remetente!... Só que depois leio o conteúdo da carta:

“Meu eterno e único amor, a cada dia que passa o meu sentimento por ti intensifica-se tanto quanto a fraqueza emocional. O peso de não ser suficiente para ti está a sufocar-me. Não aguento muito mais. Não posso viver assim! Como se não bastasse eu ser irremediavelmente tímida, não vejo o mínimo esforço, a mínima curiosidade da tua parte em procurar-me. Mas atenção, isto não é uma crítica, meu bem-amado. Jamais te pediria que te prendesses por mim. Seria ingénuo e egoísta da minha parte esperar que o teu inspirador espírito livre, a tua maior qualidade, se limitasse por mim. Não sei se és a melhor ou a pior pessoa do mundo, mas és a única que tenho. Obrigada. Obrigada apenas por existires.

Antes de me despedir, gostava de te fazer um pedido se me permites. Às 19:00 estarei no telhado da faculdade e, já que não consigo ir até ti, por favor, vem tu até mim. O intuito não é aceitares o meu amor, mas queria ver-te antes de pôr termo a tão duradouro sofrimento e, sentir por uma vez, por breves momentos, que a vida vale a pena.

A tua admiradora”

04
Set20

É só mais uma comédia romântica (3)

Olavo Rodrigues

Quinta-feira

Já era suficientemente difícil estar atento às aulas antes e agora vem – não acredito que é mesmo real – uma admiradora secreta que piora tudo. Também ela não me sai da cabeça. Pelo menos, já temos algo em comum. Eu preciso de saber quem é. Gostava de experimentar topá-la ao analisar a letra de alguém, mas seria inútil, porque a carta estava impressa. Bom, isso também é uma pista, visto que nem toda a gente tira apontamentos em cadernos. O que não falta nesta sala são portáteis, tablets e essas cenas. Será que ela está aqui escondida a algum canto a escrever-me outra carta? Isso queria dizer que já tínhamos dois aspetos em comum. Eu também estou a marimbar-me para isto! Arranco uma folha do caderno, amachucando-a e ando em direção ao balde do lixo, que está na parte da frente da sala. À medida que passo por alguns aparelhos eletrónicos, olho-os de soslaio, mas não apanho nada de interessante. Uns têm apontamentos, outros mostram videojogos, há quem esteja a ver vídeos sem som ou com fones, mas não encontro nenhuma declaração de um amor incontrolável. Volto ao meu lugar como se o que tivesse ido para o lixo fosse a minha expetativa.

Raios! Onde estará essa musa tão misteriosa e dedicada?! Oxalá eu fosse um pouco menos perfeito para ela não ter tanto medo. Oh! Terrível contrariedade! A perfeição atrai, não repele! Porque é que ela não me procura diretamente? Eu saciava-lhe o desesperante desejo de mim e ficávamos, por fim, completos!

- Estás bem? – Pergunta-me o colega do lado, acordando-me dos meus devaneios.  

- Iá, porquê?

- Parecias um bocado nervoso… a mexeres-te… e a contorceres-te dessa maneira.

- Népia, não te preocupes. É exercício matinal.

 

Apanho o Joel no corredor, que caminha cabisbaixo, e interpelo-o, agarrando-o.

- É ela, não é? Por favor, diz-me que é ela. – O rapaz mostra a mesma expressão que eu quando me falou do trabalho.

- Desculpa?

- A rapariga que te falou na cantina. Foi ela que me mandou a carta, não foi? Disseste que não me ajudavas, mas mexeste uns cordelinhos e ela enviou-me a carta. Mas, claro, eu finjo que não sei que foi obra tua. – Pisco-lhe o olho.

- Márcio… a sério que não percebo o que estás a dizer. Se não te importas, estou com alguma pressa.

- Diz-me só onde é que ela está.

- Quem?

- A moça!

- Não faço ideia. Já te disse que não me dou com ela.

- Quando é que têm aulas juntos?

- Isso querias tu saber.

- Vá lá, puto, diz-me ao menos isso.

- O que é que vais fazer? Invadir a aula?

- Não…

- Adeus, Márcio. – Começa a afastar-se.

- Espera! – Mas ele ignora-me e eu bufo. Vou ao cacifo para trocar de material. A primeira coisa que vejo, encostada à parede, é um envelope. Solto uma exclamação! Será que é?... Sim, é dela! – Obrigado, Joel! És o maior! – Já ao longe, ele olha para mim, de polegar levantado, mas depressa volta à sua vida.

 

“Meu amor, estou sempre a sonhar contigo, quer de dia, quer de noite. Ainda não sabes quem eu sou e é provável que assim permaneça por enquanto, pois sou demasiado reservada para me revelar espontaneamente. Não tenho coragem de te encarar. Não saberia olhar os teus inigualáveis olhos, que me pareceriam buracos negros, em vez das lindas pérolas cintilantes que admiro ao longe, como as flores de um jardim que se observa da janela.

Adoraria trocar umas palavras contigo, mas aspirar-me-ias a voz. Fica, então, com este pequeno pedaço de mim por agora. Talvez um dia deixe de estar camuflada e afónica. Talvez…

 

A tua admiradora”

 

Não acredito! “Camuflada”?! Ela anda a espiar-me… e isso significa que anda perto de mim! Oh, mas quem será? Oh, mas quem será?! A autora do bilhete? Eu sei lá, sei lá. Eu sei lá, sei lá. Só há uma maneira de comprovar as minhas suspeitas, mas o cortes do Joel não quer descoser-se. Como é que hei de encontrá-la? Entro em piloto-automático, dado que não posso desperdiçar nem mais um minuto. Porém, convém mesmo ver por onde ando, porque acabo de colidir com uma rapariga que esborracha um bolo de chocolate enorme, o qual invade grandes porções do maravilhoso traje. Espera aí! Eu conheço-a! É ELA! Espera aí! Gaita! É ELA! E agora parece ter saído de uma poça de lama à minha conta.

- Desculpa!  - Restos de bolo salpicam, em larga escala, o chão daquele corredor. A cara da rapariga contorce-se de frustração, mas inesperadamente, não aparenta estar indecisa entre as inúmeras maneiras de fazer parecer que foi um suicídio. Limita-se a ficar em silêncio. – Desculpa…

- Eu ia perguntar-te se tinhas visto o Joel, mas agora já não vale a pena. – É verdade! O Joel! Aquele malandro fez outra vez das suas! É claro que não podia dizer-me onde ela estava: assim estragava-me a surpresa. Até se deram ao trabalho de me fazer um bolo e eu despedacei-o! Vai-te encher de moscas, Cupido, que agora tens concorrência. Ao menos, a ajuda do Joel presta, portanto, não posso deixar que vá tudo pelo cano.

- Acabei de passar por ele. Parecia estar com pressa. – Quem sabe para me preparar mais uma surpresa. - Se quiseres, posso mandar-lhe um e-mail ou assim.

- Não, obrigada, eu tenho o WhatsApp dele. De qualquer maneira, é melhor ir para casa. Que horror! O bolo entranhou-se-me no sutiã.

- Por favor, deixa-me levar-te a casa. É o mínimo que posso fazer depois disto.

- Sim, agradeço. Não tenho coragem de aparecer nos transportes públicos neste estado. Adriana. Prazer.

- Márcio. -  Digo enquanto apertamos as mãos.

 

No carro conduzo em silêncio já há algum tempo. A Adriana parece desconfortável, mas juro que a culpa não é minha. Ainda não abri a boca desde que chegámos ao veículo. No entanto, está muito calor e, mesmo com os vidros abertos, desconfio de que o pujante odor a chocolate e suor não contribui em nada para a descontração. Não devo falar, porque já aprendi que não é suposto ser eu a aproximar-me, mas o silêncio está a dar cabo de mim e tenho de saber se encontrei a autora das cartas. Falo? Não falo? Falo? Não falo?

- Então, o que é que tu e o Joel andam a preparar para a próxima surpresa? – Tarde de mais.

- Surpresa? Para quem?

- Vá lá, podes parar de fingir. És tu que mandas as cartas, não és?

- Quais cartas?

- As de amor.

- Eu mal te conheço!

- E daí? Tens de me conhecer para gostares de alguma coisa em mim?... Tipo: “os meus inigualáveis olhos, que são pérolas cintilantes que admiras ao longe, como as flores de um jardim que se observa da janela”? – Silêncio… entreolhamo-nos.

- Dói-te o quê? Isso soa a uma daquelas tretas que a minha avó partilha no Facebook. Foi daí que tiraste essa foleirice?

- Percebo que tenhas medo de te revelar. Embora transpire confiança e carisma, sou mais suscetível do que aparento… também tenho pavor da rejeição. Dói. Dói mesmo muito e acredita que sei do que falo, mas ninguém fica satisfeito na sombra. Porquê cingires-te a espiar a minha perfeição quando podes tornar-te parte dela? Prometo que não te faço o que me fizeram a mim. Eu não sou uma besta… assim tão grande. Já não precisas de conter o teu desejo desesperado por mim e ficamos felizes e completos – A Adriana segue-me com toda a atenção sem desenhar o mais ligeiro traço de desdém, gozo ou raiva. Enquanto eu exteriorizo aquele discurso, permanece em silêncio… a ouvir. Desvia em seguida o olhar e não profere uma única palavra. Como se um pedregulho me esmagasse, considero aquilo a sua resposta.

- És mesmo marado. – Oiço quando penso que o assunto está esquecido, mas não reajo. – Tu… és mesmo… chanfrado! – Desmancha-se à gargalhada. Contudo, é um riso diferente do habitual. Parece estar deliciadíssima com o que eu disse. – Eu não faço ideia de que página é que tiraste isso, mas devo admitir que, o que tem de doido e foleiro, também tem de querido. Precisas de mais prática nos engates, pá.

- Ah… primeiro: ambos sabemos que quem escreveu aquelas coisas foste tu. Segundo: consequentemente, foste tu que tentaste engatar-me.

- Eu?!

- Ias oferecer-me um bolo.

- O bolo era para uma amiga que faz anos hoje!

- Hum, hum… conta-me histórias. E teres ido contra mim, ao estilo das comédias românticas, foi um acidente, porque querias perguntar-me pelo Joel. Pois claro…

- Tens memória de galo ou quê? Se não tivesses sido tu a chocar comigo, eu agora não parecia uma mousse ressequida com pernas.

- Porque é que não te desviaste?

- Experimenta carregar um bolo do tamanho de uma roda de trator e vê se consegues andar aos ziguezagues. Porque é que tu andavas com a cabeça na lua?

- Porque estava a pensar nas lindas cartas que me escreveste. Tu e o Joel pensam que me dão baile, mas eu já vos apanhei. Mais vale acabarmos já com este mistério gasto e assumirmos esta bênção.

- O que é que o Joel tem a ver com isto?

- Vais mesmo continuar a fingir que não armaram isto tudo, porque lhe pedi que nos apresentasse?

- Márcio, se o Joel não falar do trabalho – e ainda assim é pouco – e me perguntar se eu estou bem, está algum santo para cair do altar. Vejo-me grega para o incitar a quebrar o gelo, quanto mais a… a arquitetar esse plano de loucos para te conquistar. Isto não é o Truman Show, bacano. Menos ficção, mais realidade. O que é que ele te disse sobre apresentar-nos?

- Que não o fazia… porque só se dá contigo por serem colegas.

- O que é que pode ser mais claro que isso?

- Sei lá! Às vezes, as pessoas dizem uma coisa e fazem outra. Por ser tímido podia não querer ser direto. – A rapariga ri-se.

- Não era mais fácil vires ter comigo do que imaginar essa maluquice toda? Ou é demasiado difícil para a encarnação da perfeição e do carisma?

- Quando sou eu a começar, nunca resulta. Acabo sempre por assustar ou irritar alguém.

- Eu ainda estou a conversar contigo e, para que conste, foste tu que começaste esta conversa.

- Então, aceitavas sair comigo? – Parei à porta da casa dela.

- Lamento, mas não estou interessada. Não é nada de pessoal, só que… estou de olho noutro. Obrigada pela boleia. – A Adriana sai do carro e, antes de abrir a porta de casa, despede-se com um aceno.

Após encontrar-me sozinho no carro, noto uma certa desilusão a expandir-se em mim. A minha admiradora, com aquelas palavras na ponta dos dedos, é sem dúvida dotada de uma grandiosa alma lírica. Uma rapariga sensível, carinhosa, dedicada e única por amar avidamente alguém tão único como eu. Ah! Ela tem tudo o que eu podia desejar. Sendo os dois românticos incansáveis, como poderíamos alguma vez entediar-nos ou ficar chateados por muito tempo? Mas então, porque é que eu não quero essa rapariga perfeita? Porque é que, uma vez mais, a perfeição repele em vez de atrair? A única vez na vida em que uma mulher se mostra interessada em mim é tão… dececionante. Parece um padrão: só me atrai quem me rejeita. Quero a Adriana. Quero que me diga, até ter os ouvidos cheios, como sou foleiro e chanfrado, mas com a sua medicinal gentileza. Preciso dela ao meu lado a dissecar a minha doidice e a mostrar-me que estou errado… mas ela disse-me que não. Uma vez mais, o Cupido conspirou contra mim, direcionando-a para um sortudo que não eu. Eu quero a sua companhia. Porque é que não pode ser a Adriana a autora das cartas? Espero que o tipo repare nela para, ao menos, alguém sair feliz disto.

E agora? O que faço a cartas que, afinal, não provêm de quem esperava? O que digo à rapariga se nos encontrarmos? E se ela colapsar por a recusa a levar a crer que não serve para mim, que sou demasiado perfeito? Não é que não esteja ao meu nível, mas… gostava que a candidata a essa honra fosse outra pessoa. Detesto ser obrigado a fazê-la passar por tão corrosiva dor. Nunca pensei um dia estar do lado oposto.

04
Set20

É só mais uma comédia romântica (2)

Olavo Rodrigues

Enfim, não vale a pena chorar por leite derramado. Nunca hei de entender as mulheres, mas como se diz, o amor não vem quando a gente quer, mas sim quando ele quer. Eu acredito. Já tentei esbarrar (literalmente) com ele à moda das comédias românticas, mas como sempre, a ficção mentiu. Não foi nada amor à primeira vista. Uma das raparigas com quem choquei até me atirou alguns dos calhamaços que a fiz deixar cair. Se não fossem os meus reflexos de ninja, tinha levado com um matacão de química na fuça. Não era bem essa química que eu procurava.

Faculdade nova, vida nova. Fecho o cacifo e dirijo-me à cantina. Os intervalos são a minha parte preferida da faculdade! Ao chegar à fila, avisto um grupo de alunos mais velhos com os típicos trajes universitários. Caramba! Como aquela roupa assenta bem às raparigas! Os membros do grupo são sobretudo do sexo feminino. Contudo, abstenho-me de avançar. Estou a abordar uma nova estratégia, esperando que sejam elas a vir ter comigo, já que o amor só se aproxima quando entende.

Uma das raparigas começa a caminhar na minha direção! Prepara-te! Este é o momento por que tanto esperaste! Está mais perto! Acalma-te! Convém não desmaiares antes de ela te cumprimentar. Cada vez mais perto! É mesmo gira! Está prestes a chegar!!! E passa por mim. Sem “ai” nem “ui”. Vai só deitar fora o que parece ser uma pastilha e volta a cruzar-se comigo, com a mesma frieza, de volta aos seus amigos. Nem sequer trocamos olhares. Será que um pouco de contacto humano é pedir muito, Cupido?!!! Senti um súbito toque no ombro, que era do velhinho atrás de mim.

- Mexe-te, puto! - Ahahaha! Que graça! “Cupido da treta! Deviam cair-te as asas em pleno voo para marrares com a fuça...”. Desculpem, mas não me lembro do resto da frase. Estava a pensar nisto enquanto preenchia outra vez o espaço da fila quando reparei que havia lasanha. Toda a gente sabe que, se há coisa que compete com o amor, é a comida e essa não pode fugir de mim nem julgar-me por ter má memória musical. Talvez nem tudo esteja perdido. Se calhar, a minha alma-gémea veio em forma de lasanha. Uma lasanha suculenta, macia, gordurosa e pejada de queijo. Hum! Péssima para o colesterol tal como eu gosto. Assim que me sento para a saborear, o meu olhar recai sobre um rapaz que segura um tabuleiro à procura de um lugar para se sentar. Aceno-lhe e ele aproxima-se.

- Então, Joel, como é que é? Queres abancar aqui? - Sem responder, senta-se e começa a comer. Ficamos em silêncio algum tempo, o que me dá urticária. - Estás a curtir as aulas de... que cadeiras é que temos juntos?

- O Estudo das Culturas. – Responde o meu colega, baixinho e cabisbaixo enquanto come sopa.

- Isso mesmo.

- Sim, são interessantes. – Mais silêncio. Podia ter-me perguntado a mim o que é que eu acho.

- Eu nunca sei quais são as que temos juntos.

- É só essa.

- Certo…

- Tens alguma preferência pelo pensador do trabalho? – Pisco os olhos perplexo.

- Pensador? Trabalho?

- Vamos fazer uma apresentação de um dos autores que estamos a dar e eu pus o nome na mesma data que tu. O professor reviu os grupos em voz alta – Hum… não me escorre.

- Ah, iá, é verdade. Escolhe tu.

- Porquê eu?

- Porque estou mesmo indeciso. – E também não presto atenção às aulas.

- Falamos sobre a Judith Butler.

- Seja, então, a Judite Butter.

- Judith Butler.

- Sim, pode ser essa. – A rapariga que passou por mim aproxima-se por trás do Joel e toca-lhe no ombro, o que o assusta.

- Olá. Desculpa interromper-te o almoço, mas era só para te dizer que já marquei a entrevista com a minha amiga e que ta envio em breve.

- Está bem. Obrigado. – Responde o rapaz sem levantar muito a cabeça. A moça sorri-lhe, embora ele não repare e também me dirige um “olá”. Vejo-a partir e, em seguida, chego-me à frente, batendo na mesa de tão entusiasmado. Uma vez mais, o outro moço salta da cadeira.

- Puto, és amigo daquele canhão?

- Colega, mas noutra cadeira.

- Ganda Joel, pá! – Abano-lhe o braço, mas, sem querer, faço-o entornar um pouco de sopa na mesa.

- Estou a comer.

- Desculpa… apresentas-ma?

- Não. – Uou! O miúdo mais acanhado da turma acabou mesmo de me atirar um “não” bem sólido e seco?

- Mas porquê?!

- Porque eu também não a conheço.

- Como assim? Ela acabou de te falar.

- Somos colegas, mas não a conheço mesmo. Não sei se estou a ser claro.

- E daí? Não tem nada que saber. É só dizer: “Márcio, esta é a “Não Sei das Quantas”, “Não Sei das Quantas”, este é o Márcio”.

- Se é assim tão fácil, porque precisas de mim? Fala logo tu com ela. – O meu colega levanta-se, pegando no tabuleiro. – Obrigado pela companhia. - E vai-se embora. Só depois de ele partir é que vejo que mal toquei na lasanha. Então, fico sozinho àquela mesa a acabar de almoçar enquanto remoo no facto de o Joel não querer ajudar-me. Quando sou eu a começar, nunca corre bem. Se ao menos ele o soubesse…

 

Finalmente! O fim do dia chegou. Acabei de ter O Estudo das Culturas e não sei o que teria sido de mim se não fossem as jeitosas que apresentaram hoje. Abro o cacifo para devolver todo o material à mochila. Ao arrastar um livro, vejo um envelope a cair no chão. No interior há uma pequena carta:

 

“Não imaginas as vezes que me visitas sem te dares conta. Eu tento expulsar-te com todo o meu ser, mas apesar do esforço, teimas em não sair-me da cabeça. És demasiado elegante, demasiado perfeito para me atrever a dirigir-te a palavra. Ó, Márcio, mas já não consigo conter-me! Preciso de que saibas de mim.

Fica, então, com este curto bilhete que com tanto carinho te escrevi.

 

A tua admiradora”

 

É impossível descrever as 1001 emoções que borbulham neste momento em mim. Só me lembro de perguntas: “quem?”; “de onde?”; “quem?!”; “porquê?”; “quem?!” Meto a carta envelopada no meio de um caderno e lá vou eu para casa com uma boa razão para regressar à faculdade no dia seguinte.

04
Set20

É só mais uma comédia romântica (1)

Olavo Rodrigues

Quarta-feira

Alguma vez sentiram, no coração, o desabrochar de uma flor rara e linda como nada deste mundo? Alguma vez se deu uma erupção em vocês, como se o vosso Vesúvio interior tivesse entrado em erupção e vos tivesse coberto, da cabeça aos pés, de lamechice de comédias românticas? A mim, não. E ainda bem, porque para doçura já basto eu e não quero ficar com diabetes! Ahahaha!... Desculpem lá a piada foleira. Adiante, eu nunca, mas nunca soube o que é estar apaixonado. Já pensei estar, mas parecendo que não, são duas coisas bem diferentes. 

Pensar ter sido atingido pelo Cupido tem consequências... inesquecíveis. Como estas:

Sétimo ano - escola  - eu e rapariga loira - escondidos num canto do bloco B

Eu: Estás pronta para a marmelada?

Ela: Vai com calma... estou nervosa... nunca dei o meu primeiro beijo. - A miúda tinha um sapo de estimação que a acompanhava sempre, especialmente em momentos stressantes como este.

Eu: Já somos dois! Mas vamos resolver isso num instante. - Ela sorri timidamente, fecha os olhos - ó, meu Deus! - e chega-se para a frente com os lábios a chamar-me. Como podia resistir à violenta palpitação no meu peito?! -  Eu amo-te!

Ela: O quê?! – Aparece o coro que contratei, vestido a rigor, a cantar uma música de uma boysband qualquer. Era romântica, é o que interessa. Os lábios esticados recolheram e os olhos fechados abriram-se como se lhe fossem saltar os globos oculares.

Eu: Não é o máximo?! - Ela não respondeu. Algo me dizia que aquele espanto talvez não fosse bem o que eu esperava. - Anda cá. - Para lhe retribuir a dedicação de antes, também eu pus os lábios naquela posição e fechei os olhos, o que me saiu caro, porque quando me apercebi - e demorei algum tempo a reparar - estava a beijar o sapo. É o que dá entregar a alma a quem não a merece. Mas ainda há mais:

 

Décimo ano - eu e rapariga morena – ao pé da escola

Eu: Sabes, desde que te conheci que acho que tens algo único. - A moça era linda! Linda de cair para o lado! Daquelas que param o tempo a todos os rapazes quando passam. Sim, é isso que estão a pensar: a típica cena de Hollywood em câmara lenta com o cabelo a esvoaçar e cenas assim. E, pelos comentários que ouvi dos meus colegas, não era o único a pensar isso e, provavelmente, havia mais candidatos.

Ela: Desculpa, mas tens de me refrescar a memória. Tu és?...

Eu: O Márcio. Estamos na mesma turma, lembras-te?

Ela: Ah! Lamento, mas as aulas não começaram nem há uma semana e ainda não interiorizei muitas caras, mas… obrigada... seja lá pelo que for. - Na minha opinião, isto era um sinal de que estava no bom caminho. Precisava de garantir que ela tinha a mesma entrega incondicional por mim antes que um marmanjo, com mais jeito para isto que eu, lhe desse a volta.

Eu: Queres casar comigo? - O rosto dela mostrou uma súbita surpresa, mas eu não distinguia se era do tipo “saiu-me a lotaria!” ou “este é, sem dúvida, o melhor dia da minha vida!”. Silêncio...

Ela: Não. - Ou então não era nenhuma dessas duas opções. Gaita! Tinha-me enganado outra vez! A rapariga foi-se embora em passo acelerado sem acrescentar mais nada nem olhar para trás. Por alguma razão, evitou-me a todo o custo durante o Secundário inteiro, chegando a implorar aos professores que não nos juntassem para fazer trabalhos. Se teve alguma coisa a ver com a minha proposta lírica e lisonjeadora, só tenho a dizer que há miúdas que não reconhecem o ouro mesmo que lho esfreguem na fronha... e depois queixam-se dos rapazes com quem acabam... os mesmos que elas perseguem e admiram e que substituem almas requintadas como a que vos escreve. Mas enfim, é a sociedade que temos.

Também me lembro perfeitamente desta:

 

Primeiro ano da faculdade - eu e rapariga de cabelo preto - aula (já não sei do quê)

Esta moçoila era particularmente atraente pelo contraste entre a pele clara como a geada do exterior e o cabelo escuro como a tinta das palavras calorosas que eu registava no bilhete.

Gostas de mim? Abaixo tinha posto dois quadrados: um encimado por “sim” e outro por “não”. A rapariga agarrou na caneta e desenhou uma terceira opção:

Presta atenção à aula. Ao que eu respondi: É difícil contigo ao meu lado. Se ao menos, tivesses um pouco menos de brilho. Ela revirou os olhos, mas deixou a conversa por ali. Eu, no entanto, escrevi mais uma nota: queres ver uma cena fixe? A rapariga ignorou-me, portanto, vi-me obrigado a mostrar-lhe que só tinha a ganhar se se rendesse. Pus-me de pé na cadeira e comecei a cantar a música que tinha dedicado à miúda do sétimo ano. Já não me lembrava bem da letra e deve ter sido por essa falta de profissionalismo que fui expulso da aula. Da próxima vez ia escolher outra música, visto que aquela não transparecia bem o meu charme. No entanto, não houve uma próxima vez, porque toda a gente da faculdade ficou a saber do meu fraco desempenho e olhavam-me como se eu tivesse vindo de outro planeta. Que hipócritas! Tanta mesquinhez por causa de um ou outro erro na letra. Eu, pelo menos, tive coragem de levar as minhas calinadas para fora do banho.

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