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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

25
Mar17

"Buuum"!

Olavo Rodrigues

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Vimo-lo a sair da sua casa e a sentar-se na bicicleta para ir passear. O Ernesto tinha regressado do exército há alguns dias para estar com a família durante duas semanas. Ele já era bastante velhote e estava fora de forma, reconheçamos, no entanto, continuava a adorar o que fazia e voltava sempre para a tropa, disponibilizando-se para o que desse e viesse: administrar, orientar os recrutas, mostrar-lhes as instalações e por aí fora. 

O mais fixe era que o Ernesto normalmente tinha imensas histórias relacionadas com a pressão esmagadora sob a qual se está quando se é um militar ou, então, com relatos de tipos ainda mais velhos que ele, que estiveram em guerras de pôr os nervos e as veias à flor da pele.

Contudo, hoje o Ricardo e eu não fomos lá para o ouvir, mas sim para experimentarmos uma coisa que nos punha em pulgas desde os seis anos. Agora tínhamos dez, portanto, já éramos suficientemente maturos para nos divertirmos com uns brinquedos especiais que o Ernesto guardava na cave. 
Escondidos na esquina, esperámos que ele saísse do quintal e assim que se afastou o suficiente, corremos em direcção ao portão, os nossos pés tão silenciosos como penas. 
Quando chegámos, o Ricardo inseriu um bocado de arame muito bem moldado na fechadura e para nosso grande espanto e adrenalina, o portão abriu-se. Tive de me conter para não verbalizar o meu entusiasmo muito alto, pois caso contrário, teríamos problemas com as habituais espias ultra-secretas, que observavam tudo e todos das suas janelas. 

Tendo isto em conta, apressámo-nos a entrar no quintal do Ernesto, fechando o portão com a maior das cautelas. Ao usar o mesmo bocado de arame, não foi difícil entrar na casa e descer as escadas até à cave. Encontrámos várias torres de caixas, algumas delas mais velhas que outras e também mais mal-cheirosas que o perfume de qualquer doninha, diga-se de passagem. Íamos levar séculos a encontrar os brinquedos… Ou então, não. O Ricardo começou a explorar enquanto eu me perdia nos meus pensamentos e descobriu que muitas das caixas continham granadas e outros tipos de material militar.

Estaria o Ernesto a pensar vingar-se de todos os velhos rabugentos ou em dominar a vila? Se fosse o caso, podia contar comigo para ser o seu fiel ajudante, visto que não era o maior fã da D. Márcia, que tinha a mania de me ficar com as bolas quando iam parar ao quintal dela e sempre que eu o contava aos meus pais, dizia-lhes que não sabia de nada. Porém, volta e meia encontrava os seus netos a brincar com o que supostamente nunca tinha sido visto. 

E se fôssemos donos da vila, ninguém se atreveria a obrigar-me a ir à escola, considerando que eu seria um dos chefes. Já para não falar das montanhas de doces que toda a gente teria de me doar. 

Enfim, fartámo-nos de correr até à zona rural e os nossos pés quase não tocavam no chão. Sentíamos a brisa a fazer-nos festas na cara e uma mistura de alegria e adrenalina a servir de combustível interminável. Senti um nó na barriga, será que era uma boa ideia?... Bom, só havia uma maneira de o descobrir. 

Mal chegámos aonde estava o charco, tirei a granada da mochila e depois de darmos uns quantos passos para trás, tirei a cavilha e cumpri por fim um sonho que o meu amigo e eu tínhamos há muito. Atirámo-nos para o chão de imediato, mesmo a tempo. Uma explosão enorme quase nos ensurdeceu, bem como a uma parte da vila, dado que mal a explosão acabou e os meus ouvidos pararam de zumbir, ouvi gritos de pânico e bastante arrepiantes, como se tivéssemos sido postos num filme de terror. 

E não estávamos de facto muito longe dessa realidade, para o provar bastava olhar para o cenário. As canas foram completamente ceifadas e havia água por todo o lado, inclusive perto de nós. Oh, céus! O que é que acabámos de fazer?!

 

Felizmente, nunca chegámos a ser descobertos, pois o Ernesto não nos denunciou. Era quase um tio para nós, por isso, por muito que quisesse, não conseguia zangar-se connosco a sério. As pessoas foram-se acalmando com o tempo e eventualmente, esqueceram a explosão. A única desvantagem agora era que ninguém podia fazer chichi atrás das canas sem ser visto. 

O Ricardo, o Ernesto e eu prometemos que era um segredo que levaríamos para o túmulo e uma história que daria muito que rir quando fôssemos ter com o velhote ao Céu... Isto se nos autorizassem a entrar, porque depois do que fizemos, estava com muitas dúvidas. 

Adiante, a razão pela qual o militar guardava tudo aquilo na sua cave devia-se ao facto de um ou de uns engraçadinhos terem feito o mesmo onde ele trabalhava e assim sendo, os seus superiores pediram-lhe que mantivesse todo o material na sua casa enquanto não se descobrisse o/s responsável/éis. O nosso velhote countou-no-lo mesmo sabendo que éramos travessos porque não imaginou que fôssemos pisar o risco daquela forma. 

Devido ao perigo que representavam, as armas foram todas transferidas para a cave de outro militar cujo nome o Ernesto se recusou a dizer-nos. Só nos revelou que era um velho rabugento, portanto, o seu contacto com as crianças não devia ser frequente. 

Por falar nisso, assim não ia conseguir vingar-me da D. Márcia. Pior! Tinha de ir à escola! Bom, ao menos, já havia um motivo para me aplicar. Inventar bolas que se teletransportam era o meu novo sonho. 

 

26
Nov16

O 84º Problema

Olavo Rodrigues

Um homem foi ao encontro do Buda com a intenção de lhe pedir conselhos e falou-lhe então de um problema que o atormentava. 

- Desculpa, mas não posso ajudar-te com esse problema. - Respondeu o conselheiro calmamente. O visitante ficou surpreendido e intrigado, porém, resolveu passar a outra aflição, talvez o Buda soubesse a resposta a essa.

- Lamento, mas também não te posso ajudar com esse problema. - Desta vez o homem zangou-se:

- Como raio é possível que sejas o iluminado Buda e não saibas solucionar nenhum dos meus problemas?! - Ao que o mestre respondeu sabiamente:

- Tu terás sempre 83 problemas. Quando resolveres um, é provável que outro venha logo a seguir. Eu não posso ajudar-te com isso. Aquilo em que tens de te concentrar é o teu 84º problema.

- E que problema é esse?

- O facto de quereres solucionar os teus 83 problemas. 

(Nós criamos a nossa própria realidade, o mundo que nos rodeia é moldado pela nossas emoções e acções, portanto, o nosso sucesso ou vazio depende de como escolhemos ultrapassar as dificuldades da vida. Se encararmos os problemas como gigantes monstruosos capazes de nos esmagar, seremos com certeza vencidos. Contudo, ao percepionarmo-los enquanto pequenas partículas de uma fase má, é possível sairmos vitoriosos muito mais facilmente.

Os problemas de uma pessoa são passageiros como ela). 

 

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=pljbhN1CNHE

28
Ago16

Um Pesadelo de Sonho

Olavo Rodrigues

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Era hora da aula de Expressão Plástica. A professora tinha em mente um tema complexo, mas interessante para os projectos dos seus alunos. Silenciou a barulheira por ter levantado a secretária, o que provocou um terramoto ruidoso no chão. Os corações dos garotos quase explodiram.

Olhou para os miúdos espantados e um sorriso curvou-lhe os lábios para cima. Tinha a certeza de que eles iam gostar do tema do trabalho. Afastou-se da secretária e disse:

- Esta aula de Expressão Plástica vai ser diferente. Em vez de desenharem ou colorirem desenhos impressos, vão fazer algo mais complicado.

Ouviu-se uma lamúria colectiva.

- Chiu! Não quero barulho! Às vezes o que requer esforço árduo também é divertido. Quero ver o mesmo entusiasmo que têm a jogar um videojogo qualquer, quando fizerem este trabalho.

Sabem, ultimamente tem-se dito que a escola é uma seca do pior, que não cativa os miúdos, que se não fosse tão maçadora, haveria mais sucesso... Então, se vocês se queixam sempre que fazemos alguma coisa - a professora fez aspas com os dedos - secante, porque não fazemos algo diferente desta vez?

Isto pareceu captar a atenção dos alunos. Dirigiu-se ao centro da sala e concluiu o discurso com uma pergunta.

- Que tal fazerem cartazes sobre os sonhos?

Os miúdos ficaram nitidamente confusos. O que raio estava a professora a magicar? E se era suposto divertirem-se com o projecto, porque não podiam ser eles a escolher o tema? Eram miúdos e não havia ninguém que os percebesse melhor do que eles próprios. O que é que uma adulta quarentona, velhota e entediante sabia de seres daquela natureza? Trabalhos sobre desenhos animados ou jogos de vídeo seriam muito mais giros.

Como se as cabeças dos petizes fossem espelhos, a professora viu o que se passava nas suas mentes.

- Há pouco tempo atrás, à noite, estava a ver um documentário que falava sobre o tema que vos propus. Não falo dos vossos objectivos de vida, mas sim das pequenas histórias que vos surgem no subconsciente enquanto dormem.

O Gustavo levantou a mão.

- Sim?

- Porque não podemos antes fazer um trabalho sobre o Spongebob?

- Ou sobre o Minecraft. - Sugeriu o Armando.

- Ou então... - Antes de poder terminar a sua ideia, a Juliana foi interrompida por uma adulta que, apesar de não estar zangada, mostrava alguma amargura na voz.

- Nenhum desses temas é importante para a aula.

- Porquê? - Questionou a Luzia.

- Meninos, já vos expliquei a razão montes de vezes. Há tempo para trabalhar e tempo para brincar. E primeiro está o trabalho. Os temas que vocês propuseram só podem ser abordados na hora da brincadeira. Vocês têm que se mentalizar de que a escola não é assim tão má como pensam.

Oh, não! Lá estava ela outra vez! Os adultos faziam sempre o mesmo discurso gasto. Alguns miúdos debruçaram-se sobre a mesa e assentaram a cabeça nos braços em sinal de ausência.

- Vocês não gostavam de ser adultos para trabalhar? Bom, pensem nisto como sendo um emprego. A escola é fixe. A escola é a chave para várias portas. A escola é...

 - Uma seca! - Interrompeu o Gustavo.

A professora lançou-lhe um ar fuzilador, mas não teve tempo de lhe responder. Ao ver as palavras nascer na boca da mulher, a Juliana interveio.

- Ele tem razão, "stôra". Além disso, nós não precisamos da escola para aprender, há imensas outras fontes de conhecimento.

- E esta é a hora da brincadeira. - Começou o Armando. - É uma aula de Expressão Plástica, não devíamos poder ter o controlo criativo?

A professora agarrou na mesa e deixou-a cair no chão, provocando mais um terramoto.

- Silêncio! - Gritou autoritariamente, o que fez os miúdos sentir-se no exército momentaneamente. Assim que a paz foi restaurada, a senhora retomou a palavra.

- Oiçam, eu já não sei o que hei-de vos dizer. Este trabalho conta para a vossa nota. Se não quiserem fazê-lo, por mim, tudo bem, mas têm negativa. Sabem, quando tiverem um emprego, não vão decidir o que vos apetece fazer ou não...

Ouviu-se mais uma lamúria da turma. Mas será que os crescidos têm todos os discos riscados?

- Ó, "stôra"...

- Ninguém te pediu a opinião, Gustavo! - A professora estava definitivamente zangada. Olhou brevemente para os moços e depois num tom mais calmo, acrescentou:

- Vocês vão fazer este projecto e é um trabalho de grupo. Portanto, agora quero silêncio para eu vos mostrar como se faz um cartaz.

A turma iniciou uma explosão de protestos e lamúrias. A professora esperou que toda a gente se acalmasse para prosseguir, mas a avaliar pela situação, podia esperar sentada. Agarrou num pau de giz e iniciou uma mensagem no quadro com letras bem grandes, utilizando apenas maiúsculas. Aplicou tanta força no ponto de exclamação final que o giz se partiu. Tinha escrito: "NÃO QUERO SABER SE SABEM FAZER CARTAZES OU NÃO, MAS TÊM UMA SEMANA PARA MOS APRESENTAR!".

À medida que o tempo passava, os miúdos iam reparando na mensagem e a confusão atenuava. Ficaram perplexos e diante deles estava uma cota entediante que suava fúria. Depois de um momento de silêncio tenso, a adulta disse:

- Foram vocês que pediram.

A campainha tocou segundos após a afirmação da professora. Toda a gente arrumou e saiu. Alguns estavam pensativos, outros indiferentes e também havia quem achasse piada. Como se a «stôra» metesse medo a alguém.

No caminho para casa, o grupo de amigos composto pelos nossos heróis comentava o que havia acabado de acontecer.

- Meus, estamos tramados. - Disse o Gustavo. Ao que o Armando respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo:

- Não te preocupes, não há espiga. Ela é cão que ladra e não morde. Além disso, passa-se por tudo e por nada.

- Nós também fazemos asneiras por tudo e por nada. - Riu-se a Juliana.

- Não brinquem, é um caso sério. Eu sei lá como é que se faz um cartaz.

- Na boa. É para isso que serve a Internet, para aprendermos cenas. - Afirmou a Luzia descontraída.

Todos olharam para ela espantados.

- A sério? - Perguntou o Armando. - Aposto que é tudo mentiras, toda a gente pode escrever o que lhe dá na gana.

- Sim, mas temos de nos basear nalguma coisa, temos de começar por algum lado. 

- Cá para mim a "stôra" sonhou que nós íamos mesmo apresentar o trabalho. - Troçou a Juliana.

- Olha que não sei, ela nunca fez questão de partir giz para fazer um ponto de exclamação. Acho que foi mesmo a última gota.

- Só espero que a cabeça dela nunca expluda. - Atirou o Armando

- Porque raio haveria isso de acontecer? - Perguntou a Luzia.

- Coisas desse género estão sempre a acontecer em Bikini Bottom. 

- Achas a informação da Internet uma treta pegada, mas acreditas no que se passa no mundo do Spongebob?

- Vá, lá, pessoal, concentrem-se. O que vamos fazer? Querem ir à Internet como a Luzia sugeriu?

- Não perdemos nada, por mim pode ser. - Disse a Juliana e os outros dois apoiaram-na em uníssono:

- Por mim também.

 

Os miúdos encontraram-se na biblioteca da cidade no dia seguinte. Enquanto procuravam no computador a aparente complicada fórmula dos cartazes, comentavam o tema do projecto. Foi a Juliana que começou:

- Sabem, tenho andado a pensar. É verdade que o trabalho não é sobre uma coisa tão fixe como o Spongebob ou o Minecraft, mas até é interessante.

Porque será que sonhamos? Porque serão os sonhos de vez em quando histórias descabidas? Será que apesar de por vezes não fazerem sentido, têm algum significado importante?

- Boas perguntas. - Respondeu o Gustavo que vasculhava todas as páginas cibernéticas que encontrava.

No entanto, quem deu a resposta mais impactante foi a Luzia.

- Ah! Ah! Ah! Não sejam ridículos, os sonhos não passam de amontoados de memórias.

- Como é que sabes? - Questionou o Armando.

- Vi num documentário. - A Luzia estava com ar de sabichona.

- A ciência também se engana. - Refutou a outra rapariga, tentando fazer sobressair a sua opinião.

- É verdade, antes pensava-se que a Terra era plana, mas afinal é redonda. - Apoiou o Armando.

- Não, a minha mãe disse-me que era a Igreja que pensava isso. Os cientistas é que tentaram provar a verdadeira forma do planeta. - Interveio o garoto que não tirava os olhos do ecrã do computador.

- «Bah»! Os sonhos são só memórias e pronto. - Afirmou a Luzia ao cruzar os braços. Notava-se que estava a ficar amuada.

- Não são nada, têm significados. Então e aquelas pessoas que sonham com uma coisa que acontece mais tarde? - O tom da Juliana atingira o da outra menina.

- Essas são malucas.

- Ai sim? Vejamos o que dizes de várias pessoas terem o mesmo sonho. Isso é estranho. - Atirou o Armando.

- Chiça penico! É tudo inventado! - A Luzia havia acabado de explodir. Levantou-se da cadeira e discursou zangada. - O nosso cérebro recolhe informações do que vê, ouve, cheira, toca e sente sabor durante todo o santo dia! À noite, esses dados ou outros anteriores misturam-se e criam esquisitices nas nossas cabeças! Perceberam?!

- Porque estás chateada?! - Disse a Juliana também amarga.

- Porque eu estou a dizer-vos uma coisa e vocês insistem noutra!

- Já pensaste que podes não estar certa?!

A Luzia barafustou exasperada.

O Armando tentou acalmar a confusão.

- Tenham calma meninas, não é caso para tanto.

Contudo, apesar do esforço do rapaz, as raparigas continuavam a discussão fervente. Cada uma debatia-se para impor a sua ideia à outra a todo o custo, chegando a envolver insultos... E violência física!

A Juliana empurrou a menina com quem estava à bulha e esta colidiu com a secretária, derrubando-a juntamente com o computador usado pelo Gustavo. O estrondo espalhou-se por toda a biblioteca. Num piscar de olhos, havia uma data de bibliotecárias a repreender os miúdos. Todos tentaram apaziguar a situação e pôr-lhe panos quentes para que não lhes acontecesse nada, no entanto, os seus esforços foram inúteis e acabaram por ser expulsos, tendo a ira contagiado o resto do grupo. O Gustavo gritou já fora do edifício.

- Nunca mais vou com vocês a lado nenhum!

- Foi ela que começou! – Defendeu-se a Juliana.

- Não interessa quem começou! Eu estava sossegado no computador a investigar e de repente vejo-o cair no chão, juntamente com a Luzia! O confronto devia ter sido resolvido aqui fora, onde estamos agora! É que sabem, nós vivemos numa civilização! Quer dizer, pelo menos devia ser assim.

A sério?! É preciso andarem à batatada por causa dos sonhos? Parecem adeptas de futebol!

- Eu não teria começado a gritar se a Luzia, como tu dizes, soubesse viver numa civilização!

- Estás a chamar-me burra e primitiva?!

- Ei! – Ralhou o Gustavo para impedir outra contenda, mas depois suavizou a voz. – Vá lá, pessoal, nós somos uma equipa e temos de agir como tal se queremos ter uma boa nota. A "stôra" já nos lixou e vocês só ajudam.

Ficaram todos em silêncio durante um momento a reflectir, até que a Luzia decidiu quebrar a ausência de comunicação.

- Desculpem, mas não concordo. – Todos a olharam confusos. – Como líder desta equipa, eu declaro que a minha opinião é a soberana por ser a que tem mais fundamentos.

O Armando suspirou.

- Por favor, podemos esquecer quem é que tem razão ou não? Façamos o trabalho e pronto.

- Não. Eu não trabalho com incultos. – A Luzia mostrou claramente um tom desdenhoso.

- Estão a ver?! Estão a ver?! – Tentou sobressair a Juliana, porém, foi incapaz de se prolongar, pois o Gustavo fez-lhe um sinal com a mão.

-Então, não pertences a este grupo. Se te achas tão boa, porque não fazes um cartaz só teu?

A rapariga arrogante ficou atónita.

- Mas quem raio pensas que és?! Tu não podes mandar-me embora!

- Não sozinho. – Disse a Juliana ao pôr-se ao lado do rapaz. O Armando seguiu-lhe o exemplo sem demoras.

- O quê?! Não! Não podem expulsar a líder!

- Aqui não há líderes. Digamos que somos como aqueles monstros bué fortes com várias cabeças. E tu acabaste de ser separada do corpo, é doloroso, mas parece que tu não fazes muita questão de ficar.

A Luzia deitava fumo pelo nariz e pelas orelhas. Como se atreviam?! Estavam a cometer o pior erro das suas vidas, não seriam nada sem ela!

Num instante, a menina atacada decidiu-se. Não a queriam? Então, quis castigá-los, haviam de ter um zero bem grande e redondo para aprenderem!

- Sabem, que mais, está bem, eu não preciso de vocês!

Dito isto, os outros limitaram-se a virar-lhe as costas e a tentar resolver o assunto do cartaz, já que a biblioteca ficara fora de questão. A Luzia rosnou:

- Adeus! – E foi-se embora furiosamente.

E recebeu também uma despedida, tão seca quanto o deserto.

- Adeus.

 

Um tufão de oito anos atravessava as ruas a alta velocidade e ai de quem se metesse à frente! Quando chegou aonde morava, teve mais uma surpresa desagradável que quase lhe parou o coração. Era o Tobias, o seu novo vizinho e colega de turma que chegara à cidade há relativamente pouco tempo. Estava sentado no na beira do passeio a olhar para alguma coisa no chão que o divertia imenso. Só lhe faltava aquele! Ela não era a única a não gostar do miúdo, ninguém da turma gostava, chamavam-lhe esquisito.

A Luzia tentou passar por ele sem lhe dirirgir o olhar a fim de o evitar. Contudo, a sua curiosidade traiu-a e olhou de relance para o menino, uma vez que estava desejosa de saber ao que é que achava tanta piada. Que bela treta! Não passavam de formigas parvas! Ouviu de repente:

- Olá, Luzia.

A menina azeda devolveu o cumprimento secamente e continuou a andar, só que ainda mais depressa. Mas o Tobias não estava disposto a deixá-la. Assim que ela chegou à porta, foi arreliada por outra pergunta.

- Tens algum companheiro para o trabalho de grupo?

Eh, lá! Como é que ele sabia do projecto? Não esteve na aula nem tinha amigos dentro da turma. A Luzia irou-se rapidamente para ele:

- Como é que sabes isso?!

- Fui ter com a "stôra" à hora de atendimento dela e perguntei pelas novidades.

A rapariga suspirou.

- Não, não tenho um companheiro. Mas também não estou interessada.

- Ah… É um trabalho de grupo.

- Não quero saber! – Disse a menina agressivamente.

- Mas assim tenho zero.

A Luzia levou as mãos à cara e desceu-as. Tinha de acabar com o assunto antes que dissesse ou fizesse algo de que se arrependesse!

- Se eu te deixar ser o meu par, paras de me chatear?

- Ah… Claro.

- Óptimo! Então, vai ser assim: eu faço tudo e tu não me atrapalhas. Limita-te a ficar sossegado e a ter uma nota brilhante.

- O quê?

- Ouviste-me bem!

Após a última deixa, tocou à campainha com força. O Tobias achou por bem voltar para as suas formigas, pois talvez fosse melhor não insistir em mais nada naquele dia.

A mãe da Luzia abriu-lhe a porta. O pai estava no sofá a ler o jornal descansado e depois de ouvir um "boa tarde" muito mal dito e um vulto, olhou para a mulher que também não percebia o que se passava. O casal concordou em não interrogá-la de momento, preferia esperar que se acalmasse para depois tentar falar.

No quarto, a menina frustrada começou logo a pensar em como ia fazer o seu fantástico cartaz. O sabor de dar a provar aos outros miúdos a futura e clara qualidade superior do seu projecto, já lhe fluía no ser só de pensar. E adorava-o! Estava ansiosa por lhes esfregar o facto na cara.

Mas subitamente, quando ia a caminho de ter com os pais para lhes pedir dinheiro para que pudesse comprar os materiais, o seu empenho em trabalhar fora cortado pela angústia da discussão. Sentia-se de mau-humor e sabia que naquele estado não iria conseguir fazer bem a tarefa.

Então, mandou os lençóis e os cobertores para trás, deitou-se e voltou a tapar-se. Talvez uma pequena soneca lhe fizesse bem, não fazia mal, ainda havia de faltar um bom tempo para as apresentações.

Claro que corria o risco de os seus antigos sócios mostrarem o seu projecto primeiro e brilharem antes dela, mas a sua consciência continuava tranquila o suficiente para cair num delicioso e profundo sono revigorante.

Tinha mais do que a certeza de que até podia hibernar, porque quando acordasse, ainda os veria atrapalhados. Sendo assim, marcou uma hora no despertador e deixou o João Pestana levá-la durante um bom bocado.

Quando acordou, sentou-se na cama e bocejou, espreguiçando-se como se estivesse a tentar chegar a outras pontas do planeta. Porém, quando olhou para o relógio em cima da mesa de cabeceira, assustou-se. Dormira de mais e ainda não tinha começado nada, se os outros tivessem conseguido alguma coisa, estava bastante atrasada.

Estranhou o despertador não ter tocado, no entanto, concluiu depressa que podia não ter posto bem o alarme. Ainda não era de noite, mas para lá caminhava, portanto, apressou-se a saltar da cama.

- Mãe?! Pai?! Posso ir à papelaria?! - Gritou tão alto como se tivesse um megafone.

Não ouviu uma resposta. Tentou outra vez, mas ainda mais alto.

- Mãe?! Pai?! - Nada.

Foi até à sala de estar. Não encontrou ninguém. Voltou a chamar os pais, mas o resultado foi o mesmo. Acabou por reparar na mala da mãe pendurada numa cadeira da cozinha. A sua mãe levava-a sempre que saía. Por que razão a teria deixado desta vez? Para onde raio teriam ido os dois? "Que estranho!" - Pensou.

Mas voltou a passar-lhe com facilidade porque estava com imensa pressa. Aproximou-se da mala e da carteira tirou uma nota de dez euros. Já que os pais não estavam, ela tomava a iniciativa. Como sempre, achava-se capaz de resolver o problema e por isso, não pensou duas vezes em pôr a autorização dos seus "chefes" de parte.

Assim sendo, saiu de casa rumo à papelaria para comprar a cartolina do seu magnífico trabalho.

Tinha de ser rápida. Apesar de gostar de se armar em valentona, a Luzia lá no fundo estava com um nervoso miudinho por ter saído sem permissão. E a papelaria ficar longe da sua casa não era uma grande ajuda. Havia uma perto de si, mas o Presidente da Câmara fechou-a, obrigando a menina a ir até à outra ponta da cidade. Ninguém sabe o porquê de o autarca ter feito essa palermice, mas dificultou de facto a vida da Luzia.

Outra coisa que afligia a moça eram os perigos da noite numa cidade tão grande… Que no momento actual estava 100% vazia! Não havia nada nem ninguém para além da Luzia na rua: nem humanos, nem animais abandonados, que costumavam ser mais que as mães... A menina andava agora pelas ruas confusa.

Era verdade que estava a ficar tarde, contudo, por esta altura ainda era hábito a cidade mostrar sinais de grande vida. Só deixava de estar activa para aí à volta das 23:00 e mesmo assim, não completamente.

Neste momento, eram apenas 18:00 num dia de Inverno. E no entanto, a cidade parecia um deserto com edifícios em vez de dunas. Nada de nada. A coisa mais activa era o corpo de Luzia e os seus ténis eram os únicos a quebrar o silêncio. A situação tornava-se cada vez mais bizarra.

Chegou a passo acelerado à papelaria e pôde reparar que estava aberta, mas não havia lá ninguém. Olhou à volta e pensou: «ok...!» Entrou facilmente, pois a porta não estava trancada. De seguida, dirigiu-se rapidamente à zona das cartolinas e tirou uma ao acaso. Começava a ficar assustada e a desejar que o quer que estivesse a acontecer, acabasse depressa. Foi deixar o dinheiro no balcão. Deu de mais, mas o que podia fazer? Não havia ninguém para lhe dar o troco.

Saiu da papelaria pensativa. De súbito, sentiu um toque no ombro. Virou-se, mas não viu ninguém.

- Aqui atrás. – Disse uma voz.

A Luzia tornou a voltar-se. Não podia acreditar! Era o Tobias! Bem, era verdade que nunca tinha visto alguém mais esquisito, no entanto, pelo menos podia satisfazer a sua fome de contacto humano.

- Tobias! – Exclamou a rapariga contente.

Deu-se um momento de silêncio. O rapaz não devolvera a excitação, aliás muito pelo contrário, tinha um ar sério e pesado.

- Está tudo bem? – Perguntou a menina preocupada.

- Tu trataste-me mal há bocado. Foste muito bruta.

- Ah, não me ligues…

- Eu não gosto de que me tratem mal. – O Tobias aproximou-se da rapariga e ficaram cara-a-cara. – O que quiseste dizer com eu não te atrapalhar?

- Ah… Ouve, tens razão, não foi fixe da minha parte, desculpa.

A Luzia tentou ir-se embora, afinal preferia ficar sozinha. Porém, o Tobias não a deixou e agarrou-lhe o braço.

- Isto não vai ficar assim. – Afirmou o rapaz que apertava o braço da miúda com força.

- Hei, larga-me, estás a magoar-me! – De súbito, percebeu que o Tobias a olhava fixamente e aquele ar pesado e arrepiante estava a dar-lhe cabo dos nervos. – Larga-me!

- Tu não vais a lado nenhum. Estás aqui só comigo, não há mais ninguém.

A menina arregalou os olhos.

- Estás condenada, Luzia! – Gritou o miúdo com uma voz muito grossa e abrangente.

- Como?! – O vozeirão pusera-a a chorar.

Em menos de nada, a Luzia estava imobilizada no chão, tendo só dado conta quando o Tobias acabara de lhe restringir os movimentos. Este por sua vez tinha crescido imenso em segundos e estava em cima dela.

De repente, a rapariga deu o grito mais aterrador de toda a sua vida. A cara do Tobias…! Não era a dele, não era humana! O rosto de um miúdo de oito anos dera lugar a uma cabeça monstruosa! Os dentes eram grandes e estavam podres!

A criatura rosnou ao mesmo tempo que a miúda se debatia, chorava e gritava desalmadamente como se o monstro já a tivesse magoado profundamente.

A besta mostrou as garras enormes de uma mão e estas continham um líquido esquisito e viscoso. Quando a Luzia as viu, debateu-se ainda com mais força, mas evidentemente sem qualquer sucesso.

Finalmente, já satisfeito com o desespero da vítima, o monstro decidiu atacá-la. A Luzia só teve oportunidade de ver aquelas garras grandes e afiadas a dirigir-se-lhe à testa. Acabara tudo de vez… Ali.

 

No entanto, sem mais nem menos, viu uma parede. Estaria no Céu? Não. Era uma parede que lhe era bastante familiar. Parecia ser do seu quarto. Ei! E era! As prateleiras com os seus brinquedos preferidos eram inconfundíveis. Nunca tinha saído da divisão.

Entretanto, ouvia um ruído estranho, mas depressa deduziu que vinha do despertador. Lá estava exactamente a hora que marcara. Desligou-o. Da janela chegavam raios de sol reluzentes que não eram muito calorosos e reconfortantes, uma vez que era Inverno, mas não podiam ser mais bem recebidos pela Luzia.

- Ena, que grande susto. – Ouviu a rapariga.

Ai! Reconhecia a voz! A Luzia foi virando a cabeça devagar com o coração a mil… E sim. Infelizmente, acertou no proprietário. O Tobias estava sentado numa cadeira ao pé da porta do quarto, mas desta vez era novamente um miúdo e também sorria. Estaria a gozar com a rapariga?

A menina encostou-se à parede com o horror nítido na cara e na voz.

- Como é que entraste aqui?!

- Os teus pais saíram e deixaram-me entrar.

A Luzia não conseguiu evitar desabar em lágrimas.

- Quem és tu e o que queres de mim?!

- Tem calma, eu não quero magoar-te. Aliás, muito pelo contrário, peço imensa desculpa por te ter assustado daquela maneira, mas foi necessário.

- Ainda não respondeste às minhas perguntas. – Disse a miúda agora mais calma, porém, claramente confusa.

- Neste momento, creio que eu não sou importante. Acho que devias perguntar isso a ti mesma. Quem és tu, Luzia? O que queres de ti?

- O quê?! – Perguntou a rapariga outra vez irritada. – Tu não podes simplesmente assustar-me de morte e….

- Luzia, foca-te! – O tom do Tobias não foi agressivo, mas sobrepôs-se ao da garota. Ela decidiu ceder.

- Eu sou a Luzia Martins, frequento a Escola Primária D. Afonso XVI e penso que sou boa aluna a Português, portanto, não terei dificuldade em ser uma grande jornalista como sonho. Pronto, a minha profissão predilecta é o que mais quero de mim.

- És uma boa aluna a Português, disseste tu. Então e o inglês? Tens de saber essa língua estrangeira no mínimo, os jornalistas não trabalham só com o idioma materno.

- Sim, é uma coisa que tenho de melhorar.

- Ah, então afinal tens defeitos.

- Eu não disse isso. Querer fazer uma melhoria não significa que seja má.

- Sim, é verdade, mas se não fosses má a inglês, tê-lo-ias referido, mas não o fizeste e eu sei que tu sabes quais são os requisitos para o bom jornalismo, tu pesquisas. Tens vergonha da tua falha.

- Não, só me esqueci de a mencionar.

- Isso é uma desculpa esfarrapada.

A menina não esteve à altura durante algum tempo, mas desbloqueou por fim:

- Bem, então e tu? Não queres responder-me, é porque tens algo de errado que estás a esconder.

- Nós ainda não acabámos o teu caso. Tem calma. Vou fazer-te as perguntas de outra maneira: quem és realmente tu e o que é queres realmente de ti? Achas mesmo que ser jornalista é o mais importante?

Ela não respondeu.

- Muito bem, a profissão que queres seguir relaciona-se com histórias, por isso, vou contar-te uma digna de primeira capa.

Era uma vez dois reinos, um mais rico que o outro. O rei do reino mais pobre invejava o vizinho, invejava-o tanto que a cada dia que passava lhe caía sempre um fio de cabelo. Isso frustrava-o imenso, porque a certa altura começou-se a notar a falta de cabelo e já tinha apanhado alguns nobres a gozar com ele nas costas.

Tinha que fazer alguma coisa depressa antes que ficasse completamente careca e sem o respeito dos cortesãos. No entanto, a única maneira de se livrar da angústia era preencher o vazio que sentia, mas para isso tinha de inverter a balança dos reinos.

Então, certo dia, o rei mais pobre atravessou a fronteira para falar com o mais rico. Quando entrou na sala do trono, ficou pasmado. Era muito bonita, com imensos objectos de ouro e havia pedras preciosas por todo o lado. O próprio rei abastado era a riqueza em pessoa por usar tecidos caríssimos e uma coroa e um ceptro que quase fizeram o outro babar-se.

O anfitrião disse contente:

- Ora viva, bem-vindo sejas! Ei, estás a ficar careca?

- Não! Foi o idiota do meu cabeleireiro que se enganou. – Resmungou o convidado ao aproximar-se.

- Então, o que te traz por cá?

- Por favor, imploro-te, diz-me o teu segredo.

- O meu segredo?

- Sim, como é que és tão rico?

- Ah! Há muito tempo, quando ainda era novo, salvei a filha do rei dos elfos e ele deu-me poderes mágicos. Agora basta estalar os dedos para ter o que quiser.

- Achas que o rei dos elfos também me daria poderes?

- Duvido, não são para qualquer um, eu tenho-os, porque sou especial. Porém, são temporários, tenho de ir à Floresta Encantada de vez em quando para os renovar.

O facto de a magia do rei rico ser finita deu uma ideia ao pobre. Portanto, à noite, entrou no castelo do outro às escondidas e com a ajuda de alguns soldados, raptou-o e pô-lo nas masmorras do seu reino. O invejoso era parecido com o preso, por isso, na manhã seguinte, vestiu as suas roupas e foi ter com o rei dos elfos. Este por sua vez, recebeu-o surpreendido.

- Já estás aqui outra vez? Então, eu não te renovei os poderes na semana passada?

- Pois, não sei o que aconteceu, deixaram de funcionar de repente. – Mentiu o rei pobre.

- A sério? Que esquisito.

O líder dos elfos lançou um feitiço sobre o recém-chegado, que saltou de alegria depois de se ver com magia. Voltou para o seu lar todo contente e a planear muitos projectos.

Contudo, com o passar do tempo, as pessoas à sua volta foram deixando de se dar com ele. Tinha-se tornado muito arrogante e antipático, afirmando sempre que os outros não tinham valor e que não precisava de ninguém.

Certo dia, os exército do rei rico e dos elfos entraram pelo castelo do reino pobre adentro para reaver o prisioneiro. Como já o tinham procurado em todo o lado nas suas terras, decidiram verificar a que faltava e alarmaram-se quando ouviram gemidos vindos das masmorras.

O rei dos elfos estava possesso! Tirou os poderes ao rei mentiroso e este por ter agido mal em relação a toda a gente, foi expulso do seu lar, encontrando-se agora sem magia nem amigos. Assim sendo, a sua queda de cabelo continuou sem parar, visto que se relacionavaa com uma frustração muito mais profunda que ser pobre.

Vitória, vitória, acabou a história. – Concluiu o Tobias sorridente.

- Isso não serve para o jornalismo, é um conto para crianças. – Disse a Luzia.

- O que conta é a intenção. Percebeste a moral? Eu acho que se adequa perfeitamente a alguém que eu conheço.

- Pois. – Retribuiu ela secamente.

O rapaz suspirou.

- Olha, Luzia, tu tens razão, de facto és uma miúda com grandes capacidades. Mas acredita que estás a ser muito tonta ao pensares que és superior por causa delas.

- Não, estou a ser realista.

- Ai sim? Então, diz-me lá porque é que não conseguiste livrar-te de mim no pesadelo?

As palavras tentaram nascer na boca da garota, mas não conseguiram. Houve outra tentativa e o resultado foi o mesmo. A Luzia sentiu uma angústia interior a consumi-la. Queria dizer das boas ao Tobias, porém, simplesmente não o podia.

Apeteceu-lhe gritar ou explodir de raiva. Raios! Não havia volta a dar. A voz do miúdo estranho ganhou um tom indignado e desagradável, ao levantar-se.

- Se eu quisesse, não estarias aqui agora! Se eu quisesse, prolongaria muito mais o teu sofrimento! Tu conseguiste fazer alguma coisa para me impedir?! Não!

Aquilo que me fizeste a mim e aos teus amigos é inadmissível! Ter poder não significa poder tudo, porque como viste o rei pobre acabou pior do que estava!

A Luzia não sabia como reagir, só olhava para ele pasmada. E se voltasse a transformar-se? Actualmente mais calmo, voltou a sentar-se.

- Ser feliz a fazer bem aquilo de que gostamos é óptimo, claro que sim. Mas de que serve isso se não podemos partilhá-lo com alguém? É mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que encontrar amigos no verdadeiro sentido da palavra. Achas mesmo que vale a pena estragar a macieira só por causa de uma minhoca minúscula e insignificante?

- Não.

Ela começava a ficar mais consciencializada. Não gostara do tom do Tobias, por isso, percebera finalmente como tinha sido cruel para com quem adorava.

- Então, vai recuperar os teus amigos e trabalha em conjunto. Lembra-te: a melhor felicidade é a colectiva.

- Então e tu? Precisas de um parceiro.

- Não te preocupes, eu cá me arranjo.

- Bom, a tua ideia é muito bonita, mas não faço ideia de onde é que eles estão.

- Eu faço. – Disse o rapaz misterioso a sorrir de orelha a orelha.

Após um estalo de dedos, tudo se tornou branco ofuscante durante breves momentos para a seguir dar lugar a uma imagem desfocada que foi ficando nítida.

Aos poucos e poucos, a Luzia foi reconhecendo a pessoa à sua frente. Era a Juliana! E parecia preocupada. Numa tentativa de compreender melhor o que se passava, a rapariga deitada e ainda zonza, olhou à volta, reparando que ainda estava na biblioteca. Uau! Não era nada estranho...

- Estás bem? – Perguntou a amiga amavelmente.

- Ah… Hei-de ficar, obrigada.

De súbito, a Luzia apercebeu-se de que a Juliana não estava sozinha, ao pé dela encontrava-se o resto do seu grupo de amigos, todo ele atento ao seu mal-estar. 

- Anda, levanta-te. – Afirmou a amiga enquanto lhe estendia a mão.

A menina atordoada aceitou a ajuda, porém, ao ser erguida, sentiu o efeito da queda a castigá-la.

- Mais devagar, por favor. – Pediu ao expressar a dor.

Por fim, com muito de cuidado, voltou à posição vertical, mas não conseguia mantê-la sem ajuda. A Juliana e o Armando socorreram-na o mais depressa possível, envolvendo os seus pescoços nos braços da amiga.

- Se calhar é melhor sentarem-na. – Aconselhou o Gustavo que teve como resposta obediência imediata.

O gerente da biblioteca reparou na miúda aleijada já consciente e decidiu verificar o que tinha acontecido.

- Então, mas o que é que se passou? Está tudo bem?

Os rapazes olharam para as raparigas, que pressionadas olharam uma para a outra. Baixaram a cabeça e de repente instalou-se um silêncio pesado e penoso. Nenhuma se sentia disposta a falar com a outra, estavam bastante magoadas uma com a outra. Como se não bastasse, o orgulho era um muro enorme, dificílimo de saltar.

Entretanto, a menina que caiu lembrou-se do que conversara com um certo rapaz esquisito, mas que embora custasse a admiti-lo, tinha razão em relação ao assunto.

- Bem, ainda não. – Disse a Luzia. Inesperadamente, dirigiu-se à Juliana. – Desculpa. – A outra garota olhou-a. – Desculpa por ter sido bruta e não ter respeitado a tua opinião. Acho que não valeu a pena fazermos muito barulho por nada.

- Sim, tens razão. Desculpa por te ter atirado contra a secretária do computador, deves estar feita num caco.

- Iá. – Queixou-se a amiga da Juliana enquanto levava a mão às costas. Doía-lhe só de pensar.

- Fico feliz por terem feito as pazes, mas resta um problema para resolver. O PC partiu-se e lamento, vou ter de falar com os vossos pais sobre isso. – Interveio o gerente.

- Tudo bem, nós compreendemos. – Responderam as raparigas em uníssono. Em seguida, olharam uma para a outra e riram-se.

- Outra questão – disse o Gustavo – e quanto ao trabalho?

- Bem… Já que eu fui a causadora da confusão, amanhã podemos encontrar-nos na minha casa e usar o meu computador. – Sugeriu a Luzia. Todo o grupo concordou.

A menina magoada ligou à mãe para lhe pedir que a fosse buscar a ela e aos amigos. Contudo, embora tivesse resolvido o seu problema com a Juliana, ainda restava um assunto para deixar em pratos limpos.

- Ei, alguém viu o Tobias? – Perguntou.

- O esquisitóide lá da escola? – Disse o Armando. – Não. O que queres dele?

- Nada. Pareceu-me tê-lo visto.

A Luzia sentia-se desconfortável em relação ao encontro com o miúdo... Diferente Será que fizera apenas parte do sonho?

 

O dia da apresentação tinha chegado por fim! Felizmente, com orientação dos pais da Luzia e das instruções da Internet, os garotos lá conseguiram elaborar um cartaz. E para a primeira vez, não era nada mau. Era bastante criativo, cheio de cores e ilustrações feitas pelos autores. A nota foi a esperada, contudo, a rapariga anteriormente arrogante, não percebia a ausência do Tobias. Tanta tagarelice para depois deixá-la pendurada no seu momento de glória? Melhor: no momento de glória dela e dos amigos?

Após o toque do recreio, disse aos companheiros que precisava de ir à casa de banho. O que diriam se lhes contasse que procurava o esquisitóide?

A menina revistou a escola toda – investigou todos os cantos, todas as árvores, viu debaixo de todas as pedras… Não era um rapaz como os outros, tudo era possível. A Luzia escavava na caixa de areia quando ouviu:

- O que procuras?

Ela assustou-se. Virou-se e o grande sorriso do Tobias quase a cegou. Devolveu-lho, respondendo:

- Tu. – E saiu da caixa de areia para se aproximar. – Tens de parar de aparecer sem eu estar à espera, é desagradável.

- Mas giro. – Afirmou o rapaz enquanto gargalhava.

- Não apresentaste nenhum cartaz, vais ter negativa.

- Não, eu inventei que vou para a Escócia.

- Creio que é um plano rebuscado para te baldares, olha que assim tens de ir mesmo.

- Oh, não, eu vou-me embora, mas não para a Escócia, disse um local conhecido para não dar nas vistas.

 A Luzia fitou-o com um ar sério e interrogador. Tinha de saber a verdade de uma vez por todas.

- Não sei se te lembras, mas deves-me duas respostas. Quem és tu? O que queres de mim? E já agora aproveito: de onde vens?

- Parece-me justo: sou o teu anjo da guarda, quero que te tornes na mulher mais feliz do mundo e claro está, venho de um sítio especial, bem lá em cima.

O Tobias reparou que a expressão da sua protegida mostrava uma mistura de espanto e ao mesmo tempo, tristeza. Ela ficou sem falar durante algum tempo, contudo, disse finalmente:

- Então… Vais voltar para lá? – O anjo confirmou com a cabeça. – E nunca mais estarei contigo?

- Bom… Não vou mentir-te – é verdade que não tornaremos a ver-nos fisicamente nem teremos mais conversas

- Espera, mas sendo assim, como é que comunicamos? – Questionou a garota confusa.

- Não te preocupes, acredita que a gente se entende. – O Tobias sorriu. – Em seguida, deu um grande abraço surpresa à miúda, que foi recompensado com o mesmo carinho.

Peço desculpa por ter sido bruta para ti. – Disse a Luzia.

- Ora essa, quem não erra só cresce para cima… Adeus, amiga, adoro-te de paixão.. Até uma próxima.

- Adeus. – Devolveu a menina alguns segundos depois de dar conta de que já não abraçava ninguém. A Juliana e o Armando apanharam-na em flagrante e agarraram a oportunidade para reinar.

- A queda fez-te mal, Luzia. – Troçou a primeira.

- Foi da tua dignidade que te despediste? – Atirou o rapaz.

A rapariga que antes se encontrava sozinha, entrou na brincadeira com uma gargalhada. Contudo, seguiu-se uma frase séria:

- Sabem, se eu sou louca por não ser louca como este mundo, então, bem-dita seja a minha loucura. Ser diferente não é mau, mas sim divertido.

- Muito bem dito. – Apoiou o Armando. – No entanto, agora não é a altura certa para filosofar, a mãe do Gustavo trouxe-nos bolo de chocolate para o lanche.

- É melhor despacharmo-nos antes que ele coma tudo. – Complementou a Juliana.

E com as barrigas a dar horas, as crianças correram prontas para se empanturrarem.

04
Mar16

Banho de Maionese (5) 1 - Sai da Casca, Samuel!

Olavo Rodrigues

stock-photo-side-profile-young-woman-using-working(Constança a narrar)

Cheguei ao centro comercial entusiasmada. Esperava-me um dia em grande na companhia dos meus amigos... Incluindo na do Samuel, vejam só! Depois de ter travado uma boa luta de argumentos, pois contra ele não era nada fácil, lá consegui convencê-lo a comparecer apesar da má recordação da festa universitária.
Não me acompanhava de momento, havíamos combinado encontrarmo-nos no sítio anfitrião, visto que o rapaz estava a meio da sua hora da solidão. (Ei, rimou! Ah! Ah! Ah!)

Apercebi-me rapidamente de que estava sozinha. Ninguém do meu grupo tinha chegado antes, procurei-os por toda a parte. Cansada e entediada, sentei-me a uma mesa na zona gastronómica. Felizmente, era sexta-feira, o Samuel estava de folga e não havia aulas à tarde para mim e para os meus outros companheiros. Olha, que pena! Tínhamos praticamente o fórum inteiro só para nós!

Ora, o que é que uma jovem da minha idade podia fazer numa situação destas? Jogar no telemóvel parecia-me uma excelente ideia! Sejamos sinceros, havia mesmo outra opção?

Eu sabia que não fazia sentido assim de repente, mas sentia-me.... Observada! Os meus olhos abandonaram o telemóvel e o meu coração quase explodiu ao descobrir que o Samuel me fitava fixamente. Assemelhava-se a uma autêntica estátua! Ele... Estava sequer a respirar?

- Samuel? - Chamei a estalar os dedos à frente da sua cara. Incrível! Nem pestanejava! Eu não me drogava, portanto, não era uma alucinação de certeza! Comecei mesmo a ficar preocupada. - Samuel?! - Voltei a tentar num ritmo mais acelerado. Raios! - Samuel?! - Desta vez bati com toda a força na mesa, acordando-o finalmente. O rapaz  tomou uma golfada de ar. Eu sabia! 

- Saudações. - Disse ele cordialmente como se nada fosse. Até fiquei parva!  - Agradeço-te muito por me teres alertado, por vezes estou tão absorto nos meus pensamentos, que me olvido de respirar. Felizmente, a frequência não é abundante. 

- Mas... Sentes-te bem? - Questionei ainda notavelmente abalada. 

- Sim.

- Mesmo?

- Sim.

Levei as mãos à cara para depois suspirar... Credo, que cena! Eu sei que encomendei uma caixinha de surpresas no preciso momento em que decidi levar avante uma amizade com este gajo, mas esperava uma caixinha de surpresas com um palhacinho que salta e que ao qual achamos piada logo a seguir. Não queria de facto ficar com a de Pandora durante muito mais ou pelo menos, gostava de me adaptar a ela o mais depressa possível.

Pronto, sim, era uma choramingas e então? Nunca fui boa a lidar com grandes camadas de nervos e cheirava-me que aprender a conviver com o meu novo amigo me prometia um grande desafio emocional. Fiquei mesmo bastante assustada quando ele falou dos meus amigos na festa universitária. Estaria uma inimizade prestes a desabrochar?

Não, não podia ser! Não ia aguentar! Estava desejosa de assistir ao desfecho desta reunião. Esperem, eu cheguei a contar aos meus outros amigos que o Samuel vinha? Não me lembro! Bom, convenhamos, o convite do dito foi feito um pouco em cima da hora... Cruzes canhoto!

Apesar de por norma ter um sorriso sincero estampado na cara e ser extrovertida, às vezes apenas sorrio para não gritar ou chorar.

- Há quanto tempo é que estás aqui?

- Há 30 minutos e 16 segundos. Não, 17. Desculpa, 18. Afinal, são 19. - Ri-me genuinamente.

- Por que ficaste aí especado?

- Encontravas-te ocupada, não quis ser mal-educado e interromper-te.

- Isso só seria aplicável se fosse alguma coisa importante ou estivesse a falar com alguém, mas estava a jogar no telemóvel. Bom, haveria uma excepção se estivesse prestes a passar um nível avançado, porém, não era o caso. Podias ter-me ligado. - Achei por bem sugerir isto, dado que seria uma forma de evitar transmitir a ideia de estar agarrada. Não conseguia acreditar que tinha passado tanto tempo com as unhas no ecrã! - Há algo de errado com a minha cara para teres estado a olhá-la fixamente? Tenho a boca suja ou algum gorila a querer sair da jaula? - Seguindo esta linha de pensamento, já estava por tudo, provavelmente até me podia cair o tecto em cima, que só teria medo de não bater o meu recorde no Candy Crush. 

- Não, toda a tua face está idêntica ao que é habitual, eu mirava-te, contudo, não te via, somente as imagens atribuladas e rápidas da minha mente. - Dito isto, apercebeu-se de que travava contacto visual e procurou fugir-lhe como de costume. Como se não bastasse, fora-se outra vez, paralisou a olhar para o chão.

- Ei, acorda. - Após um ou dois estalidos de dedos, lá consegui fazê-lo regressar à Terra. - Então, ela é assim tão gira? - Brinquei eu a rir-me.

- Quem? Terás de ser mais específica. 

- Estou a reinar contigo. A distracção é um dos sintomas de estar apaixonado, portanto, quando alguém anda muito na lua, a malta manda estas piadolas. 

- Ah. Quando uma pessoa se apaixona, perde em média dois amigos. 

- Oh! Que pena!... Mas tens alguma na mira? - Pela expressão facial, não me percebeu, claramente. Céus! Era impossível evitar rir-me quando ele fazia aquela cara. - Tu sabes, estás interessado nalguma jeitozona do trabalho ou do ginásio?

- Não.

- Por que não? Não me digas que não há raparigas bonitas nos lugares que frequentas.

- Há, mas não possuo preferência por nenhuma. Gosto de as ver de longe como quem contempla as estrelas a brilhar no céu. Tampouco nutro vontade de interagir com elas, não há nenhuma razão para tal. 

- É claro que há. Tipo: elas serem giras.

- Continuo a não perceber qual a relevância do aspecto físico.

- Eh, pá, é sempre uma característica chamativa. É como olhares para um bolo enfeitado, os enfeites dão-lhe um ar mais atractivo. Os olhos são os primeiros a comer.

- Não os meus.

- Muito bem, vou tentar de outra maneira: quando dizes que gostas de as ver de longe, a que te referes exactamente? 

- À qualidade da sua expressão pessoal. Atento no vocabulário, na linguagem corporal e na energia que emanam. Meço tudo ao pormenor: a frequência da tristeza, da alegria, da agressividade, da erudição...

- Está bem, já percebi. 

- E as mais bonitas são sempre as mais bondosas. As intelectuais e as criativas também, mas atribuo primazia às que possuem um coração de ouro. Em relação à parte física, limito-me a pô-la de parte, não a compreendo. Sou incapaz de distinguir graus desse tipo de beleza porque não os vejo simplesmente, estão em toda a gente de forma igual e diferente ao mesmo tempo. Tudo o que é criado pela Mãe Natureza é belo e único, por que divergiriam as pessoas? 

Os magros só são bonitos devido à existência dos obesos e vice-versa. O encanto dos olhos castanhos e dos azuis existe por se diferenciarem uns dos outros. Os olhos azuis não seriam bonitos se só houvesse olhos azuis, o que também é aplicável aos castanhos e aos diferentes formatos de corpo. 

Os cientistas dizem que é uma questão de simetria. Quanto mais simétrico for alguém, mais atraente parece aos olhos dos outros. Creio que não nasci com esse sistema de separação incutido. Olhar para uma mulher desnuda ou para uma petúnia entusiasmam-me ao mesmo nível, embora de maneira distinta. 

- Pronto, respeito o teu ponto de vista, mas continuo a não ver razão para não te meteres com elas. O que interessa é que têm algo que te cativa, seja físico ou psicológico. 

- Por que não são elas a meter-se comigo?

- Sê sincero: gostavas mesmo que isso acontecesse? - Após um momento de silêncio que denunciou as suas engrenagens bem oleadas a trabalhar, o rapaz proferiu o que eu esperava:

- Não. 

- Ora aí está. Foste mesmo ao ponto que eu queria. Samuel, eu estou a brincar, não precisas de arranjar uma namorada à força, a tua tal virá na altura certa. Entretanto, falo a sério enquanto brinco, devias tentar ser mais aberto às pessoas - mulheres ou homens. Não precisas de conversar como se fossem amigos de infância, leva a coisa com calma, ia fazer-te muito bem. 

Um bom dia, uma boa tarde, pequenas sementes como estas tornar-se-ão em empatias e algum tempo depois, quem sabe, em amizades. 

- Eu cumprimento sempre toda a gente.

- Não é o suficiente se acabas por te isolar. Eis um facto científico: a solidão pode matar. - Subitamente, lembrei-me dos pulos constantes que o sistema nervoso dele dava. - Calma! Não pretendo assustar-te, apenas dar-te um alerta. Tu deves e consegues conquistar uma melhor qualidade de vida. Eu sei que te custa do pêlo à brava, mas não faz mal, todos temos pontos fortes e fracos. Contudo, é para vencer os segundos que cá estamos. Eu estou cá para ti. - Finalizei ao segurar-lhe as mãos agitadas, meigamente. Não sou capaz de precisar o que é que ele apanhou do meu discurso ou se o apanhou sequer, pois estudei-lhe os olhos e apercebi-me logo de que somente o corpo se encontrava neste planeta. 

 

 

 

17
Jan16

Banho de Maionese (4) 2 - Morrer É Renascer

Olavo Rodrigues

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 (Constança a narrar)

Estávamos a almoçar tranquilamente, mas havia algo de constrangedor no ambiente. Os velhotes conversavam sobre assuntos quotidianos e o Samuel comia sem tirar os olhos do prato. Se estivesse numa situação diferente, eu não ia de modas e punha na mesa um tópico interessante para todos debatermos. No entanto, o meu estado físico não era propriamente bom, não me apetecia mesmo nada pensar.

A dor de cabeça tinha voltado a aumentar de intensidade, aquilo de que eu precisava  mesmo era de uma boa noite de sono sem interrupções. Além disso, também me sentia um pouco envergonhada por ter conhecido os avós do meu amigo neste estrafego. 

Ah, que se danasse! Atirei a primeira coisa que me veio à cabeça:

- Então, Samuel, o que planeias fazer depois do almoço?

- Hoje é uma excepção, normalmente não planeio, a vida flui e eu acompanho-a. Ser espesso é doloroso. Mas por ter deixado a minha hora da solidão a meio de modo a auxiliar-te, vou ter que cumprir a meia hora que falta. Tirando isto, as únicas imposições às quais obedeço são as laborais e as dos meus avós. - A seguir a um pequeno riso, reinei:

- Então e as dos teus pais, não contam?

- Sim, prestar-lhes-ia devoção com o mesmo prazer se estivessem vivos. - Raios, já me arrependi à grande!

- Ó, Samuel, lamento imenso. Ai, eu e a minha grande boca!

- Porquê? A culpa não é tua. 

- Sim, é verdade, mas... Toquei numa ferida sensível, deve doer-te à brava.

- Não, nem por isso, a morte é um acontecimento natural e inevitável. Passa por toda a gente mais tarde ou mais cedo. - O que mais me surpreendia era a frieza pura que empregava nas palavras, destroçava-me o coração! Estaria a adoptar aquela posição para se defender contra a dor? Quer dizer, o Samuel era a pessoa mais distante dos padrões da sociedade que eu já tinha conhecido, mas caramba, não deixava de ser humano!

- Bom... De certeza que gostavas de os ter cá. Eram... Teus pais. - Disse eu com um travo do choque misturado com a voz.

- De certo modo sim, os progenitores são uma parte integral do crescimento saudável de qualquer indivíduo, contudo, por outro lado, escolheria manter a minha vida tal e qual como está. Gosto do que é meu porque é meu.

 Os velhotes olhavam para mim, indicando-me que não devia aprofundar o tema. Assenti, regressando à ingestão da sopa, incrédula, mascando o que acabara de ouvir. 

 

(Samuel a narrar)

 Um desconforto mental tomou os meus pensamentos. Havia agitação na vibração energética da divisão. Localizei a fonte! Era a Constança! Mas por que motivo? Não estaria a sopa do seu agrado? Seria o efeito da veisalgia ainda muito intenso? De repente, vi-a pousar a colher. 

- Lamento, D. Carla, por favor, não me leve a mal, mas não consigo comer mais. A sopa estava óptima, obrigada. - Agradeceu ela enquanto entregava o prato à minha avó. 

- Mas estavas quase a terminar. Como é que consegues sentir-te bem contigo própria ao deixares algo incompleto?

- Não sei, não me apetece comer mais. 

Não lhe apetecia comer mais? Mas... A noite passada ela consumiu bebidas alcoólicas em excesso, o que é um indicador de que as mencionadas se encontravam no patamar óptimas. Ora, também definiu a sopa como sendo óptima, portanto, colocou-a ao mesmo nível que as bebidas. Todavia, se assim era, por que bebeu tanto e agora estava a menosprezar a comida? Eu.... Não percebo....

Comecei a piscar os olhos a um ritmo desmesurado, levando a energia da Constança a voltar a aumentar o grau de agitação 

- Samuel, estás bem? - Após um efémero exercício de respiração, afirmei finalmente:

- As outras pessoas são estranhas... E fascinantes!

- Ah... Fixe. Estás bem, certo?

- Sim. - No espaço de um fósforo, acabei com o pouco alimento que ainda se encontrava no meu prato e levantei-me para me dirigir ao meu quarto.

- Aonde vais? - Questionou a rapariga antes de eu abrir a porta.

- Para o meu quarto, vou cumprir o tempo que falta da hora da solidão. 

- Boa, posso ir contigo?

- É a hora da solidão. 

- Oh! Certo, não me ligues. Então, mas o que é que eu faço?

- Por que hei-de eu saber?

- Bom... Sou tua convidada, não é muito simpático pores-me de parte. - Fiquei visivelmente incomodado por uns momentos, até que da maneira mais calma que consegui, expus o meu ponto de vista:

- Se estabelecêssemos um interlúdio no momento presente, este duraria quase de certeza até ao fim do dia. Seguindo esta linha de raciocínio, a meia hora da solidão que está em falta aproximar-se-ia demasiado ou coincidiria com a versão nocturna da mesma actividade. Isso seria incoerente. A incoerência não é nada boa.

Olha o exemplo da Natureza, a nossa espécie perturba-a todos os dias e a Mãe Suprema já apesenta sinais de desgaste. Aprende com a Natureza, Constança, há muita sabedoria a retirar dela. - Oh, não, o tique dos olhos outra vez!

- Pronto, está bem, a gente encontra-se noutra altura.

Posto isto, abandonei a cozinha, senti-me muito mais calmo quando cheguei ao quarto. Ah! Que alívio! A grande confusão constante que habitava o meu âmago era bem melíflua comparada com a que o atormentava ao tentar socializar com outro ser-humano. Precisava do meu espaço, de mim, como sempre.

Após fechar a porta, descalcei-me e pus os ténis no mesmo sítio do costume sem falhar um milímetro. Claro que usei uma régua para o confirmar, sabia que devia confiar nos meus sentidos apurados, mas nunca era de mais averiguar.

Em seguida, deitei-me na cama, ignorando o conforto do interior dos cobertores. A acção foi empreendida devagar para não os amarrotar. Da divisão onde anteriormente me encontrava, a minha audição captou a conversa que decorria entre a convidada e os meus avós. Dei conta de que se esforçavam para falar baixo.

- Lamento, menina. Por favor não fique ofendida, ele não faz por mal. O Samuel sempre teve bastante dificuldade em integrar-se na sociedade, por isso é saudável ter estes momentos de descanso. - Começou o Avô.

- Eu sei, só gostava que ele não fosse tão fechado. É perfeitamente perceptível que há muitas dúvidas e frustrações a borbulhar dentro daquela cabecinha pensadora. É um rapaz simplesmente incrível em tantos aspectos.

Foi por esta razão que insisti na história dos pais, faz-me uma aflição tremenda que ele fale dum acontecimento assim com tanta frieza. Peço imensa desculpa se pisei algum risco. Já agora, trate-me por tu. - Riu-se a minha amiga

- Deixa lá, não te rales com isso. - Era a vez da Avó. - Por muito estranho que pareça, o Samuel nunca reagiu mal ao falecimento dos pais e já tinha idade para que isso o abalasse a valer, com treze anos... Vá lá, vai. 

- Céus!

- Sim, estranhou a ausência deles durante mais ou menos um mês, mas acabou por se adaptar. Como ele nunca mais tocou no assunto, nós também decidimos não insistir. Além disso, nunca mudou a sua maneira de estar, sempre foi invulgar, portanto, não havendo anomalias, não havia muitas preocupações. 

Contudo, não penses que ele não é capaz de sentir afecto. Quando te conheceu, chegou aqui a dizer que no café se tinha cruzado com uma rapariga portadora de uma óptima vibração energética, limpaste-lhe a alma como a Coca-Cola limpa canos. - A Constança largou uma gargalhada que quase fez o meu coração saltar do peito. Credo! Tenho de a ensinar a moderar o registo vocálico. 

Enquanto a piada da minha avó provocava risos, o tema da morte permanecia-me na mente. A nossa convidada parecia ter ficado extremamente perturbada ao passo que eu não visava nenhum género de motivo para sentir mágoa. E falávamos dos meus pais. Por que ficavam as pessoas tão angustiadas, por que levavam meses, anos a chorar nas camas sem forças para se erguerem e voltarem a encarar o mundo? Morrer era tão natural como nascer.

Aliás, conduzindo o tópico para uma textura mais suave, até podia ser mais saboroso. Quando se morria, descansava-se! Descanso! Não era isto que todos os habitantes desta sociedade devoradora ambicionavam diariamente? Então, por que se afligiam tanto quando chegava por fim?

A meu ver, morrer era como chegar à meta e ganhar o grande prémio da competição. Não devíamos ficar tristes, mas sim felizes por os nossos entes queridos terem ganhado, por terem cumprido a sua missão. E o melhor disto tudo, era que ninguém morria verdadeiramente, na Natureza tudo se transformava, não existiam desperdícios.

Também se tinha outra vida. Uma vida que superava esta aos pontos. Seria demasiado ingrato se assim não fosse, havia fenómenos que o demonstravam. Pelo menos eu gostava de quase acreditar que sim, a pulga nunca saía de trás da minha orelha, mas havia coisas que me faziam mais sentido que outras. Reflectia e retirava conclusões, sempre a desconfiar. 

Ai a tristeza! Este sentimento que se recusava a deixar-me ter um encontro com a paz. Pensando bem, quiçá não fosse assim tão mau usar esta emoção para traduzir o carinho que sentíamos pelos nossos. Sem tristeza, não havia felicidade e talvez fosse por encarar tudo de forma tão natural que eu não era feliz. Talvez. Não sabia. Estava fora do meu alcance compreender isto...

Fui ligar a aparelhagem e pus a tocar música clássica num volume mediano. Já embalado pelo seu inigualável charme, voltei a sentar-me na cama de olhos fechados. Que bom era perder-me na tagarelice de tão boa melodia...

 

 

 

 

29
Dez15

Banho de Maionese (4) 1 - Zaragataram os Três e Caíram os Quatro

Olavo Rodrigues

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 (Constança a narrar)

O Samuel afastava-se de mim a um passo apressado enquanto eu sentia um aperto no coração e a preocupação e a tristeza a fervilhar. Talvez tivesse sido melhor começar por algo mais simples como uma pequena reunião de amigos num restaurante. 

Apanhei de facto um susto de morte, por momentos pensei que ele fosse desmaiar ou ter um ataque cardíaco. Tenho imensa pena de esta experiência haver sido um fracasso para o rapaz, achei que seria fantástico ele conseguir articular toda aquela genialidade que demonstra sem estar prestes a explodir. Precisava de amigos, amigos que o percebessem. 

Um sorriso instalou-se nos meus lábios. Eu formava-me em Psicologia e tinha como amigo o meu desafio supremo. Se bem que trabalhar com autistas não devia ser nada fácil. O meu grupo veio encontrar-se comigo.

- Ei, o teu amigo está bem? - Questionou a Madalena.

- Há-de ficar... Pelo menos foi o que ele disse.

- É um bocado estranho. - Afirmou o Gabriel.

- Não é nada! - Rosnei eu movida por um impulso. - É só diferente. - Retomei num tom mais calmo.

Não tenha medo de me "agarrá"

Toca em mim e me aperta,

Me amassa... hum, hum...!

Assim não dá, 'tou a "gostá"

(...)

- Oh, fixe, é o Controla, vamos lá para dentro. - Exclamou a Liliana a suar entusiasmo.

Os outros seguiram-na igualmente famintos de ouvir a música, porém, eu fiquei na rua durante mais uns momentos. Pensava no bem-estar do Samuel. Mas depressa percebi que estava sozinha feita ursa e entrei por fim.

 

Eram oito da manhã e eu estava com uma dor de cabeça do piorio! Sim, era verdade, tinha exagerado na bebida. Depois de uma directa, por mim ficava em casa, o meu desempenho na faculdade não seria o melhor, contudo, os meus pais pagavam uma nota preta para eu tirar o curso e se não me aplicasse, eles não hesitariam em dar-me com o chinelo embora tivesse vinte anos. Portanto, a imitar os pinguins, dirigia-me à paragem de autocarro.

No entanto, enquanto andava, ou melhor, cambaleava, tropecei nalguma coisa e espalhei-me ao comprido, dando um beijinho ao chão. 

 

Zonza, abri os olhos e dei conta de que me encontrava numa casa que não conhecia, deitada no sofá. Levantei-me sobressaltada, porém, um velhinho com um ar amistoso apareceu de súbito com um copo de água.

- Sente-se bem, menina? - Questionou amavelmente com um sorriso na cara antes de me entregar o copo. 

- Mais ou menos, obrigada. - Hum! Água! Há imenso tempo que não me sabia assim! - Quem é você?

- É o meu avô.  - Respondeu uma voz familiar atrás de mim. Era o Samuel! - Bebeste whisky, cerveja e vodca. És decerto uma melhor entendida em consumo de álcool do que eu, devias saber que as misturas são altamente nocivas. Estavas mesmo a pedi-las.

Se tivesses optado por ir a um sítio no qual houvesse fornecimento de batidos de banana, agora não estarias nesse estado e terias optimizado a tua memória e qualidade de aprendizagem, como já referi antes. Tenho a certeza de que precisas dessas capacidades para o sucesso académico. - Não conseguindo conter o espanto, perguntei à ganância:

- Como é que sabes o que eu bebi? 

- Através do cheiro do teu hálito.

- Foi o Samuel que a socorreu. - Explicou o velhote enquanto recolocava o gelo caído no meu galo. - Estava muito bem no quarto a fazer... O que é hábito, quando de repente saiu disparado sem passar cavaco a ninguém e voltou consigo inconsciente nos braços. 

- Senti uma perturbação na tua energia normalmente positivíssima. Também tive de alternar diversas vezes entre carregar-te e descansar devido à minha constituição franzina, mas o que é importante é que nenhum dos dois se magoou ao longo dos 150 m. - 150 m?!

- Uau! Obrigada, Samuel. - Agradeci do fundo coração e a sorrir abertamente, no entanto, recebi o seu tom frio e distante do costume.

- De nada, só fiz o meu dever.

- Bom, muito obrigada pela preocupação e hospitalidade, mas eu tenho de ir, é dia de escola. - O rapaz deteve o meu movimento ao pressionar-me o ombro.

- Não é boa ideia, já é uma sorte não estares em coma. Não estás em condições de ir a lado nenhum, ficas aqui e almoças connosco. 

- Almoçar? Mas eu acabei de conhecer o teu avô. 

- Então e também vai conhecer a avó. - Riu-se o senhor.

- Agradeço imenso, mas não consigo comer agora, o meu estômago está a andar às voltas. 

- Essa é uma das consequências da veisalgia, popularmente conhecida como ressaca. O corpo faz um esforço tremendo para processar o excesso de álcool e as respectivas toxinas. Quando o trabalho acaba, o fígado, o órgão mais sacrificado, quer mais e mergulha num género de depressão, gerando o caos no metabolismo. O sistema nervoso também afectado tem uma reacção parecida e manifesta-a em forma de dores de cabeça, náuseas, cansaço extremo, sensibilidade à luz, ao barulho... (https://pt.wikipedia.org/wiki/Veisalgia)

- Samuel, não precisas de descrever isso, estou a senti-lo. - Disse eu agarrada à cabeça.

- Com tudo isto quero insinuar que para combateres melhor esse desconforto, tens de nutrir o teu corpo. Compreendo que não sejas capaz de ingerir grandes quantidades de alimento, mas o jejum é de longe a melhor solução. E garanto que não tomaste o pequeno-almoço. 

- Mas...

- Constança, para quem quer introduzir-me no âmago da sociedade, não estás a aceder à atitude correcta.

E com esta arrumou-me. Como se não bastasse, ele detectou-me do quarto a 150 m de distância e distinguiu o cheiro de três bebidas diferentes já consumidas. Talvez não fosse boa ideia contrariá-lo. Dei o braço a torcer-me, rindo-me.

- Está bem, acho que posso aceitar uma tigelinha de sopa. 

26
Dez15

Banho de Maionese (3) 2 - Entre o Badoxa e um Batido de Banana

Olavo Rodrigues

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 Havia somente um rapaz e as duas raparigas trajavam roupa ousada.  A minha... Amiga passou às apresentações.

- Pessoal, este é o Samuel. Samuel, estes são a Madalena, a Liliana e o Gabriel. - O rapaz iniciou as saudações, estendendo-me a mão.

- Cumprimenta-o. - Incitou a Constança depois de algum tempo de inactividade.

- Não percebo este tipo de comportamento.

- Quando alguém te estende a mão assim é para lhe dares um passou-bem. - Expus desentendimento através do rosto. - Esse vocábulo é-me igualmente desconhecido. - O tal Gabriel agarrou na minha mão e fez o que era suposto. - Obrigado pelo esclarecimento. - Agradeci sem sorrir ao contrário dele. Isso não pareceu agradar-lhe.

 Estava prestes a fazer o mesmo à Madalena e à Liliana quando a Constança deu um grito que quase me rebentou os tímpanos, tendo ficado com uma ligeira dor de cabeça, os meus eram muito sensíveis. 

- Ai eu não acredito, é o Badoxa! - Exclamou ainda com o entusiasmo no auge.

Num estalar de dedos, a música electrónica que invadia todo o perímetro da festa foi trocada por um ritmo tipicamente africano, que eu também não apreciava. O indivíduo que se encontrava no palco não fez questão de prolongar a espera, lançando-se ao espectáculo com uma enorme paixão.

Essa parte deu-me gosto de ver, ele era um dos poucos sortudos que conseguiu fazer com que a vida cantasse a sua vontade. Admirava-o a ele e a todos os outros, que apesar de serem maiores e vacinados, nunca deixaram de desfrutar da sua infância. Conservaram os sonhos como prioridade e quais estrelas continuam a precisar de combustível para brilhar, portanto, não cessam de procurar objectivos concretizados.

O seu tipo de música não era de todo o meu estilo, mas eu começara a adorar o Badoxa. Nunca tinha ouvido falar de tal personagem, mas o seu sorriso sincero no rosto cativara-me... Causara-me inveja. Eu ainda não tinha um sonho definido, o que era grave a esta altura do campeonato. Quando dei por mim, encontrava-me nas entranhas da caixa, que me digeria lentamente, tratava-se de uma prisão bastante difícil de superar. Podia estar atrasado, mas nunca seria tarde de mais.

O meu maior prémio - a vida. Tem uma personalidade dos diabos, bem como uma beleza inigualável que tortura a minha mente todos os dias com os seus quebra-cabeças intermináveis. Aproveitava-a com o maior prazer, proíbia-me a mim mesmo de perder a esperança por muito que me custasse.

- Samuel! - Gritou a Constança.

- Bolas, isso é mesmo necessário?! - Resmunguei.

- Desculpa, mas já te tinha chamado três vezes. Queres uma bebida?

- Sim. Um batido de banana, por favor. Tenho de estabilizar as minhas reservas de potássio. 

- Lamento, aqui não há disso. Não preferes antes um whisky? - Questionou ao mostrar-me o seu copo.

- Não, obrigado. Por que não me avisaste de que este sítio carecia de elementos salubres? Podia ter trazido um batido caseiro. - Ela riu-se.

- Ninguém vem a uma festa para estimular a saúde. As pessoas costumam gostar do que faz mal, é o que sabe melhor. 

- Isso não faz qualquer sentido, estou seguro de que o bem-estar sabe muito melhor. O potássio previne doenças cardiovasculares ao aliviar a hipertensão arterial, nivela a quantidade de açúcar no sangue, evitando tanto os picos como a escassez (esta característica torna-o um óptimo nutriente para os diabéticos), contribui para o bom funcionamento eléctrico dos neurónios. Sem potássio, os mesmos demonstram uma comunicação prejudicada. A dose ideal desta substância auxilia a boa memória e a aprendizagem... (http://www.mundoboaforma.com.br/9-beneficios-do-potassio-para-que-serve-e-fontes/)

Ei, importas-te de que saia daqui? As luzes fluorescentes são deveras incómodas para a minha vista e além disso, cheira a tabaco, bem como àquelas estranhas ervas medicinais. Detesto ser um fumador passivo, com a respiração não se brinca, é o instrumento mais precioso da nossa saúde. Por favor, Constança, tira-me daqui...! - A ansiedade havia tomado o meu autocontrolo, de momento piscava os olhos sem parar e tremia imenso.

Como se não bastasse, os amigos de quem me acompanhava observavam-me de uma maneira que não conseguia descodificar, mas que me era assustadoramente familiar. Sempre que alguém me olhava assim, sentia uma pressão esmagadora.

- Ah... Está bem, vamos lá para fora um bocadinho. - Se não me enganava, a rapariga que me convidara aparentava estar preocupada. - Peço desculpa. - Afirmou aos outros.

Quando chegámos ao exterior, pude finalmente entrar em contacto com oxigénio de qualidade. Principiei um exercício de inspiração e expiração profundas de modo a acalmar-me, só conseguiria comunicar outra vez depois de voltar ao estado neutro. A Constança tentou estabelecer contacto, mas eu instruí-a a esperar quando levantei o dedo indicador.

Assim que recuperei o controlo das minhas emoções, ainda que estivesse ofegante, começou o diálogo:

- Céus! Estás bem? Por que ficaste assim, só te ofereci uma bebida, estava a tentar ser simpática. Não me digas que entraste em pâncio porque não podes beber um batido de banana.

- Não, não é isso, as minhas divagações são meros resultados dos meus nervos. Este evento é demasiado complexo para mim. Tanto barulho, tantos estímulos visuais, tantos cheiros esquisitos e credo! Por que é que tu e tantas outras raparigas gritam? O Badoxa não pode responder-vos. 

- Desculpa, é a força da emoção. - Brincou ela.

- Outro factor horrendo foi o olhar dos teus amigos.

- Como assim?

- Não é a primeira vez que alguém me olha assim, eu não me apercebo por olhar para as pessoas, mas sim por sentir que me observam daquela forma. Não sei o que significa, contudo, não gosto nada. - A Constança não disse uma única palavra durante momentos, apenas acalmava a fera com o seu toque físico tranquilizador.

- Queres ir para casa? - Atirou finalmente num tom meigo.

- Sim, adoro o refúgio da solidão.

- Está bem, deixa-me despedir-me dos meus tropas. 

- Oh, não. Por favor, não estragues a tua noite por minha causa.

- Não vou estragá-la.

- Falo a sério. Não cometas o mesmo erro que eu, diverte-te do melhor prisma.

- De certeza que ficas bem?

- Hei-de ficar, sim. 

- Muito bem, vai lá. - Antes de me conseguir levantar para partir, a nossa interacção foi concluída por um abraço face ao qual me vi incapaz de retribuir. Pus-me a caminho logo após ter terminado, com um nervoso miudinho a processá-lo.

 

 

 

 

 

12
Dez15

Banho de Maionese (3) 1 - Na Festa dos Sentidos Emaranhados e Olhos Encarnados

Olavo Rodrigues

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 (Samuel a narrar)

Cheguei à porta da Constança com um ramo de rosas brancas. Procurei a campainha, mas não a encontrei. As campainhas costumam ser botões quando inseridas em prédios e são salientes e estão envolvidas por um contorno quadrangular no caso de servirem casas rasteiras como a da minha... Amiga.

Não havia claramente nenhum adereço na paredes que seguisse tais padrões, portanto, bati à porta com força. Achei por bem meditar nas palavras, pelo que quando a Constança me abriu a porta, o meu regresso ao mundo real foi repentino e abrupto, tendo-me isto saído isto instintivamente:

- São brancas porque não quero fazer sexo contigo! - Ela não sabia se havia de ficar chocada, confusa ou divertida.

- Ah... Muito bem, está registado... Não te preocupes. - Riu-se por fim ao aceitar as flores. - Uau, Samuel, sinto-me lisonjeada, mas... Não é suposto isto ser um encontro.

- Oh, as minhas desculpas, não sabia qual a ocasião certa e achei por bem trazê-las na mesma, não fosse eu cometer uma falácia. 

- São verdadeiras, ena! 

- Calculei que isso ampliaria o efeito positivo sobre ti. Não sabia quantas devia trazer, por isso, decidi guiar-me pelo número de letras do teu nome, que vem de Constantius em latim. Significa constante, determinada e também uma variante medieval de Constância (o feminino de Constâncio) encontrada em escritos portugueses dos séculos XIII e XIV. (http://www.dicionariodenomesproprios.com.br/constanca/)

Cheguei a pensar que seria melhor seguir a quantidade de letras de Constantius, pois tal como as rosas podias querer que tudo fosse o mais natural possível, no entanto, por outro lado...

- Calma, eu adoro-as, são perfeitas independentemente do número. - Aproveitei a oportunidade para recuperar o fôlego. 

- Obrigado, estou-te eternamente grato por me teres interrompido. 

- Isso são tudo nervos por causa da festa? - A rapariga largou uma gargalhada. - Não te preocupes, passam-te com uma bruta duma bebedeira. Anda. - E com isto, deixando-me completamente atónito e sem palavras, pegou-me na mão e começou a andar, estava claro que chegaríamos atrasados se eu ficasse ali a matutar.

O caminho foi todo feito em silêncio, quer a andar, quer nos transportes públicos. Quando entrámos, senti que a música me penetrava de tão alta que estava. Além disso, detestava-a, era electrónica.  À minha volta, uma tempestade de sensações tomava forma - a música quase me rebentava os tímpanos (obviamente), ouvia as pessoas a rir, a falar... A vomitar, inalava diversos cheiros de toda a espécie... Era impressão minha ou alguns eram originários de ervas medicinais? Cores vibrantes por todo o lado! Das vestimentas, das luzes fluorescentes que me encadeavam e massacravam a vista. 

 Ainda a processar tanta informação, dei por mim ao pé de indivíduos que não conhecia de lado nenhum. A expressão que mostravam ao retirar prazer das ervas medicinais era estranha... Mas que raio?! Não paravam de se rir sem motivo aparente. Seria a depressão o problema deles?

- Samuel, estás com o grupo errado. - Disse a Constança do nada enquanto me arrastava para uma reunião com outros desconhecidos.

 

 

02
Dez15

Banho de Maionese (2) - "Arrgh"! Salvem-Me de Mim!

Olavo Rodrigues

stock-photo-young-business-man-getting-stressed-an(Samuel a narrar)

Estava sentado num banco de um jardim ora solitário, ora confuso e por vezes as duas coisas. É assim que constantemente vejo o mundo - nada me faz sentido, tudo me parece incerto porque o certo não existe simplesmente. Toda a Existência é vibração energética abstracta como o barro. Contudo, há um propósito - cumprir uma missão, missão esta que requer aprender e evoluir.

Para grande desgosto meu, carrego o terrível fardo de não conseguir dar estes passos por as respostas que encontro não me satisfazerem. Obtenho tanta informação e o resultado é a substituição de todo o conhecimento por dúvidas. Eu não me realizo porque questiono a própria dúvida, tudo me parece desconfiável. Até pode haver uma ou várias respostas certas, mas aos meus olhos serão sempre hologramas. 

Cada imagem, cada som, cheiro ou sabor é aspirado e processado pela minha mente hiperactiva, que os dispõe brutalmente a uma velocidade exuberante, sendo a minha cabeça um ninho oficial de tornados. 

A Lua! Leva 27 dias a completar uma órbita completa à volta da Terra, A Lua é o único satélite natural do nosso planeta e o quinto maior do Sistema Solar. É o maior satélite natural de um planeta no sistema solar em relação ao tamanho do seu corpo primário, tendo 27% do diâmetro e 60% da densidade da Terra, o que representa 1⁄81 da sua massa. Entre os satélites cuja densidade é conhecida, a Lua é o segundo mais denso, atrás de Io. (Wikipédia)
É o símbolo do feminino e da sensibilidade, a mãe da noite, o cartão verde para a aparição de criaturas fictícias criadas por imaginações férteis.

Oh!!! Lá estou eu outra vez! Dói-me a alma por não saber usá-la, adoro sentir e pensar, mas não misturar os dois, o que é inevitável. Se sinto, penso no que sinto, se penso, sinto o que penso e como sinto e penso tanto, sou apenas uma consciência caótica que às tantas não discerne qual é o primeiro agressor. Somente sabe que pensa, que sente e que está intensamente dorida.

É à conta disto que dificilmente me faço entender perante os demais, que não sabem nem querem ser abstractos ou cujo barro foi moldado de uma maneira diferente. Raios! Detesto viver no desespero de não encontrar um objectivo...

- Olá, Samuel.

Uma voz interrompeu-me os devaneios. Era doce, melódica e consequentemente muito agradável de se ouvir. No entanto, um pânico irracional impediu-me de direccionar o olhar para a proprietária, limitando-me a ficar parado como uma estátua. Sem qualquer aviso, a Constança põe-se à minha frente com um grande sorriso, pregando-me um susto de morte.

- Estás bem? Estás tão pensativo. - Afirmou antes de se sentar ao meu lado.

- A segunda parte da tua premissa é um hóspede obeso mórbido que declarou a sua presença permanente em mim, pelo que o verdadeiro significado da primeira metade é difícil de deslindar. Tanta coisa em que reflectir, tanta dúvida que criar, sim, porque eu só crio vazio.  - Continuava a não estabelecer contacto visual, mas consegui sentir que a rapariga ia demorar a mascar a minha deixa.

- Há alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar? - Perguntou por fim ao pôr-me a mão suave no ombro.

- Não, obrigado, esta é uma tarefa que me cabe a mim cumprir.

- Mas tudo é melhor com a ajuda dos amigos. - Não sabia se fora mal-educado, mas revelei-me incapaz de mostrar a minha surpresa.

- Nós somos amigos?

- Bem.. Quer dizer, como disseste acabámos de nos conhecer, porém, eu teria muito gosto em ser-te útil. Olha, sabes do que é que tu precisas? Disso mesmo: amigos. A minha faculdade organiza imensas festas, vem comigo à próxima, é daqui a três dias. - Voltei a desviar os olhos, estava novamente em pânico. Tremia como uma vara.

- Vá lá, Samuel, não vais deixar-me plantada outra vez. - Disse a Constança enquanto me punha de novo a mão no ombro e procurava o meu olhar com o dela.  Após algum tempo, piscou-me o o olho para me tranquilizar. - Então? - Raios, não conseguia tirar as palavras da boca. Para a moça não foi problema, tomou o meu silêncio como um sim. - Vemo-nos daqui a três dias, vai buscar-me à minha casa às 20:30.

Decoras a minha morada?

- Decoro quantos grãos de areia têm cinco metros quadrados ou mais.

A Constança despejou todos os dados da sua morada com a sua nata alegria que eu invejava. O estado da minha cabeça piorou, nunca soube como enfrentar este tipo de desafios.

 

 

 

 

26
Nov15

Banho de Maionese (1) - A Mergulhar na Maionese Desconhecida

Olavo Rodrigues

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(Constança a narrar)

Entrei num café e pedi uma bica a qual o empregado afirmou servir-me de imediato. Agradeci, no entanto, após ter dado o primeiro gole, depressa dei conta de que toda a gente interagia menos eu e... O rapaz mesmo ao meu lado. Tinha vestido um fato de treino e avaliando como comia o seu croissã de chocolate e bebia o seu sumo de laranja natural, devia ter acabado de vir do ginásio perto deste estabelecimento, pois estava esgalgado de fome.

- Olá. - Disse amigavelmente. Não me respondeu.  - Olá. - Nada. - Sabes, quando alguém te cumprimenta, é suposto retribuíres. - Finalmente olhou para mim, estava surpreendido. 

- Olá. - Retribuiu numa versão mais tímida.

- Sou a Constança, muito prazer.

- Samuel. - Respondeu depois de um longo intervalo.

- Eu sou nova aqui na vila, portanto, não tenho amigos por perto. Achas que podes mostrar-ma?

- Depende. Segundo as circunstâncias, acabei de te conhecer, o que significa que a ligação entre nós é nula. Além do mais, a região não possui nada de extraordinário, o que pode variar perante a perspectiva de cada um.

Caso achemos que vale a pena, temos de considerar o nosso tempo livre, pois se na tua óptica a visita for interessante, provavelmente ficarás frustrada por não ser possível dar-lhe continuidade devido a um conflito hipotético.  - O rapaz bebeu um pouco do sumo para pausar. - Mesmo que estejas inteiramente disponível, não sei se serei capaz de te providenciar a melhor transmissão de conhecimento, tal dependerá da tua interacção.comigo. - Eu estava nitidamente confusa. Hã?!!! - Desculpa, não consegui perceber se aceitaste a minha proposta ou não. - O Samuel olhou-me durante algum tempo. 

- Depende. Segundo as circunstâncias, acabei de te conhecer...

- Espera, espera. Mais fácil - eu gostava de ver a vila independentemente das circunstâncias, estou aqui para me divertir.

- És epicurista? É uma escolha arriscasda.

- Sou o quê? - Ai, o que é que eu fui fazer?

 - Epicurismo descende de Epicuro, um filósofo da Grécia Antiga que defendia a preservação total do prazer em detrimento das precupações. As célebres palavras carpe diem ou colhe o dia ligam-se à teoria em questão, tendo sido formuladas pelo poeta Horácio mais tarde.

O teu enunciado foi que estavas aqui para te divertir, se não procuras o equilíbrio entre o regozijo do ócio e o tédio das obrigações, a tua vida ficará instável a qualquer momento. - Não evitei rir-me. 

- Não, não percebeste, estou aqui para me divertir agora, mas estou a licenciar-me em Psicologia para um dia arranjar trabalho. E tu, que fazes?

- Ingiro uma refeição leve para compensar o desgaste do exercício físico.

- Não, refiro-me à tua ocupação. Estudas ou trabalhas? O que fazes exactamente?

- Trabalho num call center de modo a ser apto a auto-sustentar-me. Porém, na verdade, nada mais faço do que falar com os sentidos e formular pensamentos através dos mesmos nesta fartura cheia de vazio.

- Ah... Óptimo. Eu cá gosto de sair com os meus amigos da faculdade, de curtir a noite e... O regozijo do ócio. - Soltei uma gargalhada, mas o Samuel não ma devolveu, limitando-se a comer.  Outra tentativa foi atirada sem ele esperar. - Então, vamos dar uma volta ou quê?

- Lamento, mas ocorreu-me que eu possuo um conflito. - Em todo o processo de tirar o dinheiro do bolso e pô-lo no balcão, a vida do rapaz aparentava correr perigo, pelo que assim que o terminou, saiu do café.

- Ah, está bem, adeus. - Disse eu na esperança falhada de prolongar o contacto um pouco mais. - Ele é autista? - Perguntei ao empregado?

- Por incrível que pareça, conheço-o há alguns anos e sei tanto como tu. É provável que sim, ninguém sabe muito da sua vida, apenas que vem sempre aqui depois dos treinos, que come mais ou menos em meia hora e que vai... Fazer o quer que seja.

Fiquei a olhar para a porta enquanto matutava na situação. Creio que o assustei, não acabou o lanche. Sorri pela ideia de que uma amizade com aquela personagem invulgar seria interessante a valer.

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