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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

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26
Dez15

Banho de Maionese (3) 2 - Entre o Badoxa e um Batido de Banana

Olavo Rodrigues

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 Havia somente um rapaz e as duas raparigas trajavam roupa ousada.  A minha... Amiga passou às apresentações.

- Pessoal, este é o Samuel. Samuel, estes são a Madalena, a Liliana e o Gabriel. - O rapaz iniciou as saudações, estendendo-me a mão.

- Cumprimenta-o. - Incitou a Constança depois de algum tempo de inactividade.

- Não percebo este tipo de comportamento.

- Quando alguém te estende a mão assim é para lhe dares um passou-bem. - Expus desentendimento através do rosto. - Esse vocábulo é-me igualmente desconhecido. - O tal Gabriel agarrou na minha mão e fez o que era suposto. - Obrigado pelo esclarecimento. - Agradeci sem sorrir ao contrário dele. Isso não pareceu agradar-lhe.

 Estava prestes a fazer o mesmo à Madalena e à Liliana quando a Constança deu um grito que quase me rebentou os tímpanos, tendo ficado com uma ligeira dor de cabeça, os meus eram muito sensíveis. 

- Ai eu não acredito, é o Badoxa! - Exclamou ainda com o entusiasmo no auge.

Num estalar de dedos, a música electrónica que invadia todo o perímetro da festa foi trocada por um ritmo tipicamente africano, que eu também não apreciava. O indivíduo que se encontrava no palco não fez questão de prolongar a espera, lançando-se ao espectáculo com uma enorme paixão.

Essa parte deu-me gosto de ver, ele era um dos poucos sortudos que conseguiu fazer com que a vida cantasse a sua vontade. Admirava-o a ele e a todos os outros, que apesar de serem maiores e vacinados, nunca deixaram de desfrutar da sua infância. Conservaram os sonhos como prioridade e quais estrelas continuam a precisar de combustível para brilhar, portanto, não cessam de procurar objectivos concretizados.

O seu tipo de música não era de todo o meu estilo, mas eu começara a adorar o Badoxa. Nunca tinha ouvido falar de tal personagem, mas o seu sorriso sincero no rosto cativara-me... Causara-me inveja. Eu ainda não tinha um sonho definido, o que era grave a esta altura do campeonato. Quando dei por mim, encontrava-me nas entranhas da caixa, que me digeria lentamente, tratava-se de uma prisão bastante difícil de superar. Podia estar atrasado, mas nunca seria tarde de mais.

O meu maior prémio - a vida. Tem uma personalidade dos diabos, bem como uma beleza inigualável que tortura a minha mente todos os dias com os seus quebra-cabeças intermináveis. Aproveitava-a com o maior prazer, proíbia-me a mim mesmo de perder a esperança por muito que me custasse.

- Samuel! - Gritou a Constança.

- Bolas, isso é mesmo necessário?! - Resmunguei.

- Desculpa, mas já te tinha chamado três vezes. Queres uma bebida?

- Sim. Um batido de banana, por favor. Tenho de estabilizar as minhas reservas de potássio. 

- Lamento, aqui não há disso. Não preferes antes um whisky? - Questionou ao mostrar-me o seu copo.

- Não, obrigado. Por que não me avisaste de que este sítio carecia de elementos salubres? Podia ter trazido um batido caseiro. - Ela riu-se.

- Ninguém vem a uma festa para estimular a saúde. As pessoas costumam gostar do que faz mal, é o que sabe melhor. 

- Isso não faz qualquer sentido, estou seguro de que o bem-estar sabe muito melhor. O potássio previne doenças cardiovasculares ao aliviar a hipertensão arterial, nivela a quantidade de açúcar no sangue, evitando tanto os picos como a escassez (esta característica torna-o um óptimo nutriente para os diabéticos), contribui para o bom funcionamento eléctrico dos neurónios. Sem potássio, os mesmos demonstram uma comunicação prejudicada. A dose ideal desta substância auxilia a boa memória e a aprendizagem... (http://www.mundoboaforma.com.br/9-beneficios-do-potassio-para-que-serve-e-fontes/)

Ei, importas-te de que saia daqui? As luzes fluorescentes são deveras incómodas para a minha vista e além disso, cheira a tabaco, bem como àquelas estranhas ervas medicinais. Detesto ser um fumador passivo, com a respiração não se brinca, é o instrumento mais precioso da nossa saúde. Por favor, Constança, tira-me daqui...! - A ansiedade havia tomado o meu autocontrolo, de momento piscava os olhos sem parar e tremia imenso.

Como se não bastasse, os amigos de quem me acompanhava observavam-me de uma maneira que não conseguia descodificar, mas que me era assustadoramente familiar. Sempre que alguém me olhava assim, sentia uma pressão esmagadora.

- Ah... Está bem, vamos lá para fora um bocadinho. - Se não me enganava, a rapariga que me convidara aparentava estar preocupada. - Peço desculpa. - Afirmou aos outros.

Quando chegámos ao exterior, pude finalmente entrar em contacto com oxigénio de qualidade. Principiei um exercício de inspiração e expiração profundas de modo a acalmar-me, só conseguiria comunicar outra vez depois de voltar ao estado neutro. A Constança tentou estabelecer contacto, mas eu instruí-a a esperar quando levantei o dedo indicador.

Assim que recuperei o controlo das minhas emoções, ainda que estivesse ofegante, começou o diálogo:

- Céus! Estás bem? Por que ficaste assim, só te ofereci uma bebida, estava a tentar ser simpática. Não me digas que entraste em pâncio porque não podes beber um batido de banana.

- Não, não é isso, as minhas divagações são meros resultados dos meus nervos. Este evento é demasiado complexo para mim. Tanto barulho, tantos estímulos visuais, tantos cheiros esquisitos e credo! Por que é que tu e tantas outras raparigas gritam? O Badoxa não pode responder-vos. 

- Desculpa, é a força da emoção. - Brincou ela.

- Outro factor horrendo foi o olhar dos teus amigos.

- Como assim?

- Não é a primeira vez que alguém me olha assim, eu não me apercebo por olhar para as pessoas, mas sim por sentir que me observam daquela forma. Não sei o que significa, contudo, não gosto nada. - A Constança não disse uma única palavra durante momentos, apenas acalmava a fera com o seu toque físico tranquilizador.

- Queres ir para casa? - Atirou finalmente num tom meigo.

- Sim, adoro o refúgio da solidão.

- Está bem, deixa-me despedir-me dos meus tropas. 

- Oh, não. Por favor, não estragues a tua noite por minha causa.

- Não vou estragá-la.

- Falo a sério. Não cometas o mesmo erro que eu, diverte-te do melhor prisma.

- De certeza que ficas bem?

- Hei-de ficar, sim. 

- Muito bem, vai lá. - Antes de me conseguir levantar para partir, a nossa interacção foi concluída por um abraço face ao qual me vi incapaz de retribuir. Pus-me a caminho logo após ter terminado, com um nervoso miudinho a processá-lo.

 

 

 

 

 

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