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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

17/01/16

Banho de Maionese (4) 2 - Morrer É Renascer

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 (Constança a narrar)

Estávamos a almoçar tranquilamente, mas havia algo de constrangedor no ambiente. Os velhotes conversavam sobre assuntos quotidianos e o Samuel comia sem tirar os olhos do prato. Se estivesse numa situação diferente, eu não ia de modas e punha na mesa um tópico interessante para todos debatermos. No entanto, o meu estado físico não era propriamente bom, não me apetecia mesmo nada pensar.

A dor de cabeça tinha voltado a aumentar de intensidade, aquilo de que eu precisava  mesmo era de uma boa noite de sono sem interrupções. Além disso, também me sentia um pouco envergonhada por ter conhecido os avós do meu amigo neste estrafego. 

Ah, que se danasse! Atirei a primeira coisa que me veio à cabeça:

- Então, Samuel, o que planeias fazer depois do almoço?

- Hoje é uma excepção, normalmente não planeio, a vida flui e eu acompanho-a. Ser espesso é doloroso. Mas por ter deixado a minha hora da solidão a meio de modo a auxiliar-te, vou ter que cumprir a meia hora que falta. Tirando isto, as únicas imposições às quais obedeço são as laborais e as dos meus avós. - A seguir a um pequeno riso, reinei:

- Então e as dos teus pais, não contam?

- Sim, prestar-lhes-ia devoção com o mesmo prazer se estivessem vivos. - Raios, já me arrependi à grande!

- Ó, Samuel, lamento imenso. Ai, eu e a minha grande boca!

- Porquê? A culpa não é tua. 

- Sim, é verdade, mas... Toquei numa ferida sensível, deve doer-te à brava.

- Não, nem por isso, a morte é um acontecimento natural e inevitável. Passa por toda a gente mais tarde ou mais cedo. - O que mais me surpreendia era a frieza pura que empregava nas palavras, destroçava-me o coração! Estaria a adoptar aquela posição para se defender contra a dor? Quer dizer, o Samuel era a pessoa mais distante dos padrões da sociedade que eu já tinha conhecido, mas caramba, não deixava de ser humano!

- Bom... De certeza que gostavas de os ter cá. Eram... Teus pais. - Disse eu com um travo do choque misturado com a voz.

- De certo modo sim, os progenitores são uma parte integral do crescimento saudável de qualquer indivíduo, contudo, por outro lado, escolheria manter a minha vida tal e qual como está. Gosto do que é meu porque é meu.

 Os velhotes olhavam para mim, indicando-me que não devia aprofundar o tema. Assenti, regressando à ingestão da sopa, incrédula, mascando o que acabara de ouvir. 

 

(Samuel a narrar)

 Um desconforto mental tomou os meus pensamentos. Havia agitação na vibração energética da divisão. Localizei a fonte! Era a Constança! Mas por que motivo? Não estaria a sopa do seu agrado? Seria o efeito da veisalgia ainda muito intenso? De repente, vi-a pousar a colher. 

- Lamento, D. Carla, por favor, não me leve a mal, mas não consigo comer mais. A sopa estava óptima, obrigada. - Agradeceu ela enquanto entregava o prato à minha avó. 

- Mas estavas quase a terminar. Como é que consegues sentir-te bem contigo própria ao deixares algo incompleto?

- Não sei, não me apetece comer mais. 

Não lhe apetecia comer mais? Mas... A noite passada ela consumiu bebidas alcoólicas em excesso, o que é um indicador de que as mencionadas se encontravam no patamar óptimas. Ora, também definiu a sopa como sendo óptima, portanto, colocou-a ao mesmo nível que as bebidas. Todavia, se assim era, por que bebeu tanto e agora estava a menosprezar a comida? Eu.... Não percebo....

Comecei a piscar os olhos a um ritmo desmesurado, levando a energia da Constança a voltar a aumentar o grau de agitação 

- Samuel, estás bem? - Após um efémero exercício de respiração, afirmei finalmente:

- As outras pessoas são estranhas... E fascinantes!

- Ah... Fixe. Estás bem, certo?

- Sim. - No espaço de um fósforo, acabei com o pouco alimento que ainda se encontrava no meu prato e levantei-me para me dirigir ao meu quarto.

- Aonde vais? - Questionou a rapariga antes de eu abrir a porta.

- Para o meu quarto, vou cumprir o tempo que falta da hora da solidão. 

- Boa, posso ir contigo?

- É a hora da solidão. 

- Oh! Certo, não me ligues. Então, mas o que é que eu faço?

- Por que hei-de eu saber?

- Bom... Sou tua convidada, não é muito simpático pores-me de parte. - Fiquei visivelmente incomodado por uns momentos, até que da maneira mais calma que consegui, expus o meu ponto de vista:

- Se estabelecêssemos um interlúdio no momento presente, este duraria quase de certeza até ao fim do dia. Seguindo esta linha de raciocínio, a meia hora da solidão que está em falta aproximar-se-ia demasiado ou coincidiria com a versão nocturna da mesma actividade. Isso seria incoerente. A incoerência não é nada boa.

Olha o exemplo da Natureza, a nossa espécie perturba-a todos os dias e a Mãe Suprema já apesenta sinais de desgaste. Aprende com a Natureza, Constança, há muita sabedoria a retirar dela. - Oh, não, o tique dos olhos outra vez!

- Pronto, está bem, a gente encontra-se noutra altura.

Posto isto, abandonei a cozinha, senti-me muito mais calmo quando cheguei ao quarto. Ah! Que alívio! A grande confusão constante que habitava o meu âmago era bem melíflua comparada com a que o atormentava ao tentar socializar com outro ser-humano. Precisava do meu espaço, de mim, como sempre.

Após fechar a porta, descalcei-me e pus os ténis no mesmo sítio do costume sem falhar um milímetro. Claro que usei uma régua para o confirmar, sabia que devia confiar nos meus sentidos apurados, mas nunca era de mais averiguar.

Em seguida, deitei-me na cama, ignorando o conforto do interior dos cobertores. A acção foi empreendida devagar para não os amarrotar. Da divisão onde anteriormente me encontrava, a minha audição captou a conversa que decorria entre a convidada e os meus avós. Dei conta de que se esforçavam para falar baixo.

- Lamento, menina. Por favor não fique ofendida, ele não faz por mal. O Samuel sempre teve bastante dificuldade em integrar-se na sociedade, por isso é saudável ter estes momentos de descanso. - Começou o Avô.

- Eu sei, só gostava que ele não fosse tão fechado. É perfeitamente perceptível que há muitas dúvidas e frustrações a borbulhar dentro daquela cabecinha pensadora. É um rapaz simplesmente incrível em tantos aspectos.

Foi por esta razão que insisti na história dos pais, faz-me uma aflição tremenda que ele fale dum acontecimento assim com tanta frieza. Peço imensa desculpa se pisei algum risco. Já agora, trate-me por tu. - Riu-se a minha amiga

- Deixa lá, não te rales com isso. - Era a vez da Avó. - Por muito estranho que pareça, o Samuel nunca reagiu mal ao falecimento dos pais e já tinha idade para que isso o abalasse a valer, com treze anos... Vá lá, vai. 

- Céus!

- Sim, estranhou a ausência deles durante mais ou menos um mês, mas acabou por se adaptar. Como ele nunca mais tocou no assunto, nós também decidimos não insistir. Além disso, nunca mudou a sua maneira de estar, sempre foi invulgar, portanto, não havendo anomalias, não havia muitas preocupações. 

Contudo, não penses que ele não é capaz de sentir afecto. Quando te conheceu, chegou aqui a dizer que no café se tinha cruzado com uma rapariga portadora de uma óptima vibração energética, limpaste-lhe a alma como a Coca-Cola limpa canos. - A Constança largou uma gargalhada que quase fez o meu coração saltar do peito. Credo! Tenho de a ensinar a moderar o registo vocálico. 

Enquanto a piada da minha avó provocava risos, o tema da morte permanecia-me na mente. A nossa convidada parecia ter ficado extremamente perturbada ao passo que eu não visava nenhum género de motivo para sentir mágoa. E falávamos dos meus pais. Por que ficavam as pessoas tão angustiadas, por que levavam meses, anos a chorar nas camas sem forças para se erguerem e voltarem a encarar o mundo? Morrer era tão natural como nascer.

Aliás, conduzindo o tópico para uma textura mais suave, até podia ser mais saboroso. Quando se morria, descansava-se! Descanso! Não era isto que todos os habitantes desta sociedade devoradora ambicionavam diariamente? Então, por que se afligiam tanto quando chegava por fim?

A meu ver, morrer era como chegar à meta e ganhar o grande prémio da competição. Não devíamos ficar tristes, mas sim felizes por os nossos entes queridos terem ganhado, por terem cumprido a sua missão. E o melhor disto tudo, era que ninguém morria verdadeiramente, na Natureza tudo se transformava, não existiam desperdícios.

Também se tinha outra vida. Uma vida que superava esta aos pontos. Seria demasiado ingrato se assim não fosse, havia fenómenos que o demonstravam. Pelo menos eu gostava de quase acreditar que sim, a pulga nunca saía de trás da minha orelha, mas havia coisas que me faziam mais sentido que outras. Reflectia e retirava conclusões, sempre a desconfiar. 

Ai a tristeza! Este sentimento que se recusava a deixar-me ter um encontro com a paz. Pensando bem, quiçá não fosse assim tão mau usar esta emoção para traduzir o carinho que sentíamos pelos nossos. Sem tristeza, não havia felicidade e talvez fosse por encarar tudo de forma tão natural que eu não era feliz. Talvez. Não sabia. Estava fora do meu alcance compreender isto...

Fui ligar a aparelhagem e pus a tocar música clássica num volume mediano. Já embalado pelo seu inigualável charme, voltei a sentar-me na cama de olhos fechados. Que bom era perder-me na tagarelice de tão boa melodia...

 

 

 

 

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