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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

04/03/16

Banho de Maionese (5) 1 - Sai da Casca, Samuel!

stock-photo-side-profile-young-woman-using-working(Constança a narrar)

Cheguei ao centro comercial entusiasmada. Esperava-me um dia em grande na companhia dos meus amigos... Incluindo na do Samuel, vejam só! Depois de ter travado uma boa luta de argumentos, pois contra ele não era nada fácil, lá consegui convencê-lo a comparecer apesar da má recordação da festa universitária.
Não me acompanhava de momento, havíamos combinado encontrarmo-nos no sítio anfitrião, visto que o rapaz estava a meio da sua hora da solidão. (Ei, rimou! Ah! Ah! Ah!)

Apercebi-me rapidamente de que estava sozinha. Ninguém do meu grupo tinha chegado antes, procurei-os por toda a parte. Cansada e entediada, sentei-me a uma mesa na zona gastronómica. Felizmente, era sexta-feira, o Samuel estava de folga e não havia aulas à tarde para mim e para os meus outros companheiros. Olha, que pena! Tínhamos praticamente o fórum inteiro só para nós!

Ora, o que é que uma jovem da minha idade podia fazer numa situação destas? Jogar no telemóvel parecia-me uma excelente ideia! Sejamos sinceros, havia mesmo outra opção?

Eu sabia que não fazia sentido assim de repente, mas sentia-me.... Observada! Os meus olhos abandonaram o telemóvel e o meu coração quase explodiu ao descobrir que o Samuel me fitava fixamente. Assemelhava-se a uma autêntica estátua! Ele... Estava sequer a respirar?

- Samuel? - Chamei a estalar os dedos à frente da sua cara. Incrível! Nem pestanejava! Eu não me drogava, portanto, não era uma alucinação de certeza! Comecei mesmo a ficar preocupada. - Samuel?! - Voltei a tentar num ritmo mais acelerado. Raios! - Samuel?! - Desta vez bati com toda a força na mesa, acordando-o finalmente. O rapaz  tomou uma golfada de ar. Eu sabia! 

- Saudações. - Disse ele cordialmente como se nada fosse. Até fiquei parva!  - Agradeço-te muito por me teres alertado, por vezes estou tão absorto nos meus pensamentos, que me olvido de respirar. Felizmente, a frequência não é abundante. 

- Mas... Sentes-te bem? - Questionei ainda notavelmente abalada. 

- Sim.

- Mesmo?

- Sim.

Levei as mãos à cara para depois suspirar... Credo, que cena! Eu sei que encomendei uma caixinha de surpresas no preciso momento em que decidi levar avante uma amizade com este gajo, mas esperava uma caixinha de surpresas com um palhacinho que salta e que ao qual achamos piada logo a seguir. Não queria de facto ficar com a de Pandora durante muito mais ou pelo menos, gostava de me adaptar a ela o mais depressa possível.

Pronto, sim, era uma choramingas e então? Nunca fui boa a lidar com grandes camadas de nervos e cheirava-me que aprender a conviver com o meu novo amigo me prometia um grande desafio emocional. Fiquei mesmo bastante assustada quando ele falou dos meus amigos na festa universitária. Estaria uma inimizade prestes a desabrochar?

Não, não podia ser! Não ia aguentar! Estava desejosa de assistir ao desfecho desta reunião. Esperem, eu cheguei a contar aos meus outros amigos que o Samuel vinha? Não me lembro! Bom, convenhamos, o convite do dito foi feito um pouco em cima da hora... Cruzes canhoto!

Apesar de por norma ter um sorriso sincero estampado na cara e ser extrovertida, às vezes apenas sorrio para não gritar ou chorar.

- Há quanto tempo é que estás aqui?

- Há 30 minutos e 16 segundos. Não, 17. Desculpa, 18. Afinal, são 19. - Ri-me genuinamente.

- Por que ficaste aí especado?

- Encontravas-te ocupada, não quis ser mal-educado e interromper-te.

- Isso só seria aplicável se fosse alguma coisa importante ou estivesse a falar com alguém, mas estava a jogar no telemóvel. Bom, haveria uma excepção se estivesse prestes a passar um nível avançado, porém, não era o caso. Podias ter-me ligado. - Achei por bem sugerir isto, dado que seria uma forma de evitar transmitir a ideia de estar agarrada. Não conseguia acreditar que tinha passado tanto tempo com as unhas no ecrã! - Há algo de errado com a minha cara para teres estado a olhá-la fixamente? Tenho a boca suja ou algum gorila a querer sair da jaula? - Seguindo esta linha de pensamento, já estava por tudo, provavelmente até me podia cair o tecto em cima, que só teria medo de não bater o meu recorde no Candy Crush. 

- Não, toda a tua face está idêntica ao que é habitual, eu mirava-te, contudo, não te via, somente as imagens atribuladas e rápidas da minha mente. - Dito isto, apercebeu-se de que travava contacto visual e procurou fugir-lhe como de costume. Como se não bastasse, fora-se outra vez, paralisou a olhar para o chão.

- Ei, acorda. - Após um ou dois estalidos de dedos, lá consegui fazê-lo regressar à Terra. - Então, ela é assim tão gira? - Brinquei eu a rir-me.

- Quem? Terás de ser mais específica. 

- Estou a reinar contigo. A distracção é um dos sintomas de estar apaixonado, portanto, quando alguém anda muito na lua, a malta manda estas piadolas. 

- Ah. Quando uma pessoa se apaixona, perde em média dois amigos. 

- Oh! Que pena!... Mas tens alguma na mira? - Pela expressão facial, não me percebeu, claramente. Céus! Era impossível evitar rir-me quando ele fazia aquela cara. - Tu sabes, estás interessado nalguma jeitozona do trabalho ou do ginásio?

- Não.

- Por que não? Não me digas que não há raparigas bonitas nos lugares que frequentas.

- Há, mas não possuo preferência por nenhuma. Gosto de as ver de longe como quem contempla as estrelas a brilhar no céu. Tampouco nutro vontade de interagir com elas, não há nenhuma razão para tal. 

- É claro que há. Tipo: elas serem giras.

- Continuo a não perceber qual a relevância do aspecto físico.

- Eh, pá, é sempre uma característica chamativa. É como olhares para um bolo enfeitado, os enfeites dão-lhe um ar mais atractivo. Os olhos são os primeiros a comer.

- Não os meus.

- Muito bem, vou tentar de outra maneira: quando dizes que gostas de as ver de longe, a que te referes exactamente? 

- À qualidade da sua expressão pessoal. Atento no vocabulário, na linguagem corporal e na energia que emanam. Meço tudo ao pormenor: a frequência da tristeza, da alegria, da agressividade, da erudição...

- Está bem, já percebi. 

- E as mais bonitas são sempre as mais bondosas. As intelectuais e as criativas também, mas atribuo primazia às que possuem um coração de ouro. Em relação à parte física, limito-me a pô-la de parte, não a compreendo. Sou incapaz de distinguir graus desse tipo de beleza porque não os vejo simplesmente, estão em toda a gente de forma igual e diferente ao mesmo tempo. Tudo o que é criado pela Mãe Natureza é belo e único, por que divergiriam as pessoas? 

Os magros só são bonitos devido à existência dos obesos e vice-versa. O encanto dos olhos castanhos e dos azuis existe por se diferenciarem uns dos outros. Os olhos azuis não seriam bonitos se só houvesse olhos azuis, o que também é aplicável aos castanhos e aos diferentes formatos de corpo. 

Os cientistas dizem que é uma questão de simetria. Quanto mais simétrico for alguém, mais atraente parece aos olhos dos outros. Creio que não nasci com esse sistema de separação incutido. Olhar para uma mulher desnuda ou para uma petúnia entusiasmam-me ao mesmo nível, embora de maneira distinta. 

- Pronto, respeito o teu ponto de vista, mas continuo a não ver razão para não te meteres com elas. O que interessa é que têm algo que te cativa, seja físico ou psicológico. 

- Por que não são elas a meter-se comigo?

- Sê sincero: gostavas mesmo que isso acontecesse? - Após um momento de silêncio que denunciou as suas engrenagens bem oleadas a trabalhar, o rapaz proferiu o que eu esperava:

- Não. 

- Ora aí está. Foste mesmo ao ponto que eu queria. Samuel, eu estou a brincar, não precisas de arranjar uma namorada à força, a tua tal virá na altura certa. Entretanto, falo a sério enquanto brinco, devias tentar ser mais aberto às pessoas - mulheres ou homens. Não precisas de conversar como se fossem amigos de infância, leva a coisa com calma, ia fazer-te muito bem. 

Um bom dia, uma boa tarde, pequenas sementes como estas tornar-se-ão em empatias e algum tempo depois, quem sabe, em amizades. 

- Eu cumprimento sempre toda a gente.

- Não é o suficiente se acabas por te isolar. Eis um facto científico: a solidão pode matar. - Subitamente, lembrei-me dos pulos constantes que o sistema nervoso dele dava. - Calma! Não pretendo assustar-te, apenas dar-te um alerta. Tu deves e consegues conquistar uma melhor qualidade de vida. Eu sei que te custa do pêlo à brava, mas não faz mal, todos temos pontos fortes e fracos. Contudo, é para vencer os segundos que cá estamos. Eu estou cá para ti. - Finalizei ao segurar-lhe as mãos agitadas, meigamente. Não sou capaz de precisar o que é que ele apanhou do meu discurso ou se o apanhou sequer, pois estudei-lhe os olhos e apercebi-me logo de que somente o corpo se encontrava neste planeta. 

 

 

 

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