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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

25/03/17

"Buuum"!

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Vimo-lo a sair da sua casa e a sentar-se na bicicleta para ir passear. O Ernesto tinha regressado do exército há alguns dias para estar com a família durante duas semanas. Ele já era bastante velhote e estava fora de forma, reconheçamos, no entanto, continuava a adorar o que fazia e voltava sempre para a tropa, disponibilizando-se para o que desse e viesse: administrar, orientar os recrutas, mostrar-lhes as instalações e por aí fora. 

O mais fixe era que o Ernesto normalmente tinha imensas histórias relacionadas com a pressão esmagadora sob a qual se está quando se é um militar ou, então, com relatos de tipos ainda mais velhos que ele, que estiveram em guerras de pôr os nervos e as veias à flor da pele.

Contudo, hoje o Ricardo e eu não fomos lá para o ouvir, mas sim para experimentarmos uma coisa que nos punha em pulgas desde os seis anos. Agora tínhamos dez, portanto, já éramos suficientemente maturos para nos divertirmos com uns brinquedos especiais que o Ernesto guardava na cave. 
Escondidos na esquina, esperámos que ele saísse do quintal e assim que se afastou o suficiente, corremos em direcção ao portão, os nossos pés tão silenciosos como penas. 
Quando chegámos, o Ricardo inseriu um bocado de arame muito bem moldado na fechadura e para nosso grande espanto e adrenalina, o portão abriu-se. Tive de me conter para não verbalizar o meu entusiasmo muito alto, pois caso contrário, teríamos problemas com as habituais espias ultra-secretas, que observavam tudo e todos das suas janelas. 

Tendo isto em conta, apressámo-nos a entrar no quintal do Ernesto, fechando o portão com a maior das cautelas. Ao usar o mesmo bocado de arame, não foi difícil entrar na casa e descer as escadas até à cave. Encontrámos várias torres de caixas, algumas delas mais velhas que outras e também mais mal-cheirosas que o perfume de qualquer doninha, diga-se de passagem. Íamos levar séculos a encontrar os brinquedos… Ou então, não. O Ricardo começou a explorar enquanto eu me perdia nos meus pensamentos e descobriu que muitas das caixas continham granadas e outros tipos de material militar.

Estaria o Ernesto a pensar vingar-se de todos os velhos rabugentos ou em dominar a vila? Se fosse o caso, podia contar comigo para ser o seu fiel ajudante, visto que não era o maior fã da D. Márcia, que tinha a mania de me ficar com as bolas quando iam parar ao quintal dela e sempre que eu o contava aos meus pais, dizia-lhes que não sabia de nada. Porém, volta e meia encontrava os seus netos a brincar com o que supostamente nunca tinha sido visto. 

E se fôssemos donos da vila, ninguém se atreveria a obrigar-me a ir à escola, considerando que eu seria um dos chefes. Já para não falar das montanhas de doces que toda a gente teria de me doar. 

Enfim, fartámo-nos de correr até à zona rural e os nossos pés quase não tocavam no chão. Sentíamos a brisa a fazer-nos festas na cara e uma mistura de alegria e adrenalina a servir de combustível interminável. Senti um nó na barriga, será que era uma boa ideia?... Bom, só havia uma maneira de o descobrir. 

Mal chegámos aonde estava o charco, tirei a granada da mochila e depois de darmos uns quantos passos para trás, tirei a cavilha e cumpri por fim um sonho que o meu amigo e eu tínhamos há muito. Atirámo-nos para o chão de imediato, mesmo a tempo. Uma explosão enorme quase nos ensurdeceu, bem como a uma parte da vila, dado que mal a explosão acabou e os meus ouvidos pararam de zumbir, ouvi gritos de pânico e bastante arrepiantes, como se tivéssemos sido postos num filme de terror. 

E não estávamos de facto muito longe dessa realidade, para o provar bastava olhar para o cenário. As canas foram completamente ceifadas e havia água por todo o lado, inclusive perto de nós. Oh, céus! O que é que acabámos de fazer?!

 

Felizmente, nunca chegámos a ser descobertos, pois o Ernesto não nos denunciou. Era quase um tio para nós, por isso, por muito que quisesse, não conseguia zangar-se connosco a sério. As pessoas foram-se acalmando com o tempo e eventualmente, esqueceram a explosão. A única desvantagem agora era que ninguém podia fazer chichi atrás das canas sem ser visto. 

O Ricardo, o Ernesto e eu prometemos que era um segredo que levaríamos para o túmulo e uma história que daria muito que rir quando fôssemos ter com o velhote ao Céu... Isto se nos autorizassem a entrar, porque depois do que fizemos, estava com muitas dúvidas. 

Adiante, a razão pela qual o militar guardava tudo aquilo na sua cave devia-se ao facto de um ou de uns engraçadinhos terem feito o mesmo onde ele trabalhava e assim sendo, os seus superiores pediram-lhe que mantivesse todo o material na sua casa enquanto não se descobrisse o/s responsável/éis. O nosso velhote countou-no-lo mesmo sabendo que éramos travessos porque não imaginou que fôssemos pisar o risco daquela forma. 

Devido ao perigo que representavam, as armas foram todas transferidas para a cave de outro militar cujo nome o Ernesto se recusou a dizer-nos. Só nos revelou que era um velho rabugento, portanto, o seu contacto com as crianças não devia ser frequente. 

Por falar nisso, assim não ia conseguir vingar-me da D. Márcia. Pior! Tinha de ir à escola! Bom, ao menos, já havia um motivo para me aplicar. Inventar bolas que se teletransportam era o meu novo sonho. 

 

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