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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

24
Abr20

É a Minha Folha de Papel

Olavo Rodrigues

Adalgisa dirige-se em passo acelerado à máquina de vendas automática. Toda ela trémula tenta retirar a carteira do bolso, que persiste em não colaborar. Quando por fim consegue extraí-la, cai-lhe das mãos e a mulher bufa. No mesmo instante, apanha-a do chão e tenta tirar moedas do estreito espaço do respetivo compartimento, o qual está selado por um fecho. Contudo, uma vez mais, os dedos atrapalham-na como se fossem ramos de árvores à mercê do vento. É incapaz de os coordenar para pegar na minúscula cabeça do fecho.

Como resultado, ela concentra toda a sua força em atirar a carteira ao chão, seguindo-se um estrondoso pontapé na máquina, qual bola de demolição. Não tarda a cair um sem-fim de garrafas e latas, mas Adalgisa não agarra em nada. Fica, em vez disso, encolhida a um canto e abraçada aos joelhos, enquanto lhe correm cascatas pela face.

O grito do impacto e o choro, ao ponto de respirar como se estivesse a sufocar, atrai a atenção de Tiago, o qual vem a passar com um copo de café na mão. Depois de se deter à frente da mulher, começa a cantar:

- One day when the light is glowing

I’ll be in my castle golden

But until the gates are open

I just wanna feel this moment

Whoooah!

I just wanna feel this moment!

Whoooah!

I just wanna feel this moment

O homem estende-lhe a mão.

- A sua pronúncia do inglês é horrível. – Diz ela com a voz embargada e a respiração entrecortada. Nem sequer olhou para ele durante a atuação.

- É um facto, mas no que toca a voz, não estou longe do Freddie Mercury. – Nada obtém além de mais lágrimas e soluços. – Um ser humano chora em média, ao longo da vida, o suficiente para encher uma garrafa de um litro. É muita água, já pensou? A esse ritmo vai encher um garrafão.

- O quê?

- Pronto, acabei de inventar isso, mas é verdade que a água constitui cerca de 70% da massa do corpo humano. Já viu o tempo que vai ter de passar a compensar essa perda quando podia emborcar cerveja? Ou leite com chocolate? Hum! Porque é que eu tirei café e não leite com chocolate? Que desperdício de dinheiro!... E de água!

- O que quer de mim? Se for para me atazanar, deixe-me em paz! – Tiago senta-se ao seu lado e olha para a janela do corredor, absorto. Por fim, responde:

- Não faço ideia. Só sei o que não quero. Que tal você ajudar-me a descobrir o que quero? Eu sou o Tiago e você?

- Adalgisa…

- E o que tanto a agoniza, Adalgisa? O que a inferniza e antagoniza a poetisa da vida que visa e já não protagoniza enquanto come piza? Desculpe, no final descarrilei.

- Acabei de ser despedida e não tenho onde cair morta.

- O seu trabalho era uma seca?

- O que é que o cu tem a ver com as calças? – Pergunta a rapariga, que o encara pela primeira vez.

- Tem muito a ver. Era ou não?

- Ah… às vezes… sim.

- Isso é o mesmo que dizer “meh!”. Acredite que não perdeu grande coisa. Pense assim: não foi uma perda, mas sim uma substituição: antes tinha o dinheiro e não o gosto e agora, apesar de já não ter o dinheiro, ganhou a oportunidade de procurar o gosto.

- Mas o que é que eu faço, entretanto? Não posso comer do ar. Esse discurso é bastante bonito, mas se não tiver como pagar as contas, de que me servem essas palavras de sonhador ingénuo?

- Calma, ainda há de receber o guito do trabalho deste mês e uma carta para o fundo de desemprego.

- Não, porque foi por justa causa.

- Então, mande-os à merda. Não tem mesmo nada a perder.

- Não posso mandar o meu patrão à merda outra vez, sobretudo depois de termos tido um caso. Eu amo-o. – Adalgisa torna a estremecer como varas verdes.

- E ele trocou-a por outra? Que falta de chá! Não sei o que fez para que a despedisse, mas foi bem feito.

- Na verdade, eu também sou adúltera.

- Melhor para si.

- Não percebo…

- Disse que amava o seu patrão, certo?

- Sim…

- Então, porque não haveria de investir na pessoa de quem realmente gosta?

- E o meu marido?

- Fica triste, supera e segue em frente tal como você vai superar essa tristeza e reinventar-se. “A monogamia não é natural”, já dizia Albert Einstein e isto também não estou a inventar. Se preferir um aforismo mais bonito, guie-se por Robert Frost: “em duas palavras consigo resumir tudo o que já aprendi sobre a vida: ela continua”. Não consideram estes tipos inteligentes por acaso.

- Filosofias de vida à parte, nada invalida que perdi tudo o que estimava e me mantinha de pé: o meu marido, o meu amado – Adalgisa é de novo derrubada pelo pranto – e agora o meu emprego.

- E o que é que fez ao Pereira, que lhe fritou a mioleira? – Interroga o rapaz após os momentos mais intensos.

- Ele não se chama Pereira.

- Precisava de uma rima.

- Entornei-lhe uma caneca de café quente no portátil e fi-lo perder imensa informação importante. Não aguentei que ele, além de ter escolhido a esposa, também tivesse passado quinze minutos, sem parar, a elogiá-la e a justificar a sua opção com qualidades que ela tem e eu não.

Já não andávamos bem há algum tempo. Espalham-se rumores de que o chefe se enrola com uma maria-vai-com-todos – porque é sempre esse o rótulo para as mulheres – mas não se sabe que sou eu. O meu patrão alegou que era melhor demitir-me para me proteger da maldade das pessoas, mas é tudo tanga. Ele não gosta de mim e muito menos da esposa. Ele é tão ou mais nojento que eu e despediu-me, principalmente, porque estava a dar-lhe problemas de reputação. De certeza que, não tarda nada, arranja outra amante. Já o vi fazer olhinhos a uma ou duas colegas minhas e há sempre alguém que se deixa levar pelo charme e pelos privilégios de ser a predileta do CEO.

Sinto que me deitou fora como se fosse uma pastilha elástica sem sabor.

- Isso parece um enredo de telenovela. Apresente uma proposta a um canal de televisão e fica com o problema do dinheiro resolvido. Há sempre audiência para coisas assim.

- Você parece uma criança. Tudo é facílimo para si. Saiba que o mundo real é mais complexo que isso.

- Defina “mundo real”.

- Tiago, não estou mesmo com disposição para debates filosóficos.

- É muito mais do que filosofia: é um mapa para entender a vida… ou parte dela. Quer reconstruir a sua vida, correto?

- Sim.

- Para tal necessita de saber com que linhas é que se cose. Como espera edificar uma nova vida se não tiver uma definição, nem que seja vaga, do meio que a condiciona?

- Eu tenho, só não me apetece discuti-la consigo.

- Prefere que lhe diga o que quer ouvir?

- Não… para começar, nem sequer sei porque estou a falar consigo. Nunca o vi mais gordo, mas, por alguma razão, achou que era boa ideia abordar-me com uma música comercial sobre aproveitar o momento quando eu estava a chorar. Estou na merda, caso não tenha reparado, portanto, enfie o seu momento onde o sol não brilha! Não me apetece entrar em clichês mais recorrentes que a estupidez do meu patrão e das interesseiras que o rodeiam como abelhas famintas de néctar.

- Quando estava a chorar, certo?

- Sim. Não reteve nada de jeito, homem?

- Quando estava a chorar, sim, também me parece.

- O que é que lhe deu? Riscou o disco? Sim, eu estava a chorar… oh! Eu estava…

- Whoooah! I just wanna feel this moment!

- Pare, por favor.

- É um excelente lema! O que eu daria para gozar a sua liberdade.

- Deixe-se de parvoíces.

- Estou a falar a sério. Eu entendo que seja aterrorizante a carência de bens essenciais, mas não acredito que a Adalgisa esteja completamente sozinha. De tantas pessoas que aqui trabalham, não há rigorosamente ninguém com quem simpatize e que possa dar-lhe uma mãozinha? Os seus pais iam recusar-se a ajudá-la?

- Não quero ser um fardo para ninguém e os meus pais estão chateados com o que fiz ao meu marido. Não significa que não me oferecessem apoio pecuniário, mas iam chagar-me a cabeça sem parar e não é disso que preciso para a minha saúde psicológica agora.

- Somente os parasitas são um fardo. Se a alguém a acolhesse, ficaria deitada no sofá o dia inteiro sem mexer uma palha?

- Não, claro que não. Ia certificar-me de mostrar à pessoa a minha gratidão ao procurar emprego com regularidade e contribuir para a lida da casa.

- Ora aí está. Não se esqueça de que é jovem e que este recomeço não será o último. Por muito feia que esta situação aparente ser, encare-a como uma conquista em vez de uma perda. Há um parvalhão tóxico que a obriga a afastar-se dele? Isso é como uma doença exigir que o paciente seja curado. De momento, você não tem nada. Bola. Zero.

- Já percebi.

O que pode ser mais entusiasmante do que já não ter responsabilidades e pessoas que nos sugam a vitalidade? O facto de já não ser passível de perder alguma coisa, significa que tem uma probabilidade simétrica de ganhar o que quer que seja. Se ainda tivesse uma estrutura, até se justificava melhor temer uma mudança que a faria passar de cavalo para burro, mas não.

O nada não é bom nem mau: é a única coisa que toda a gente começa por ter. É a neutralidade pura e absolutamente versátil. O meu objeto favorito é a folha de papel, completamente em branco de preferência, porque é a materialização da neutralidade que acabei de referir. Não é o caderno nem o livro, só a folha. Serve para escrever, desenhar, resolver equações, fazer origami ou uma máscara ou colagem; recortar formas, despedaçar a folha e fingir que os bocadinhos são pó mágico…

- Já percebi.

- Se não me tivesse interrompido, eu continuava e nunca mais era sábado. Repito: a probabilidade de sucesso para qualquer coisa é de 50%. Dentro de cada possibilidade, há até diversas “subpossibilidades”. Só entre os tipos de texto, por exemplo, encontra: poemas, contos, cartas, conjuntos de máximas, ideias para ensaios científicos, ensaios filosóficos, ensaios artísticos, romances; também há crónicas…

- Tiago!

- Agora estava só a provocá-la. O que é que gosta de fazer?

- Não sei bem.

- Então, aproveite para refletir e experimentar. Olhe que outra grande riqueza está ao seu dispor! Quantas e quantas pessoas adorariam dispensar tempo? De certa forma, invejo-a, devo dizer, o que me leva a reforçar: você não tem nada a menos, pois o que difere é a qualidade da posse e não a quantidade. Mesmo numa situação mais grave, relacionada com a idade, por exemplo, haveria sempre volta a dar.

Não vou mentir-lhe: é muito provável que demore a entrar tudo nos eixos. Quando funcionar no amor, é possível que descambe nas amizades e no trabalho e assim sucessivamente. Tenha paciência.

- Eu gosto mesmo muito dele. Não sei porquê, visto que é um bronco manipulador, mas… - a dor volta a morder a entoação de Adalgisa - eu amo-o.  

- E está tudo bem. Na Grécia Antiga havia a crença de que o órgão pensador era o coração e não o cérebro. Aristóteles dizia que encerrava a consciência humana. Talvez haja um pouco de verdade nessa teoria, pois embora os pensamentos não se gerem no coração, este parece ter uma certa vontade própria alheia ao constante esforço que o cérebro emprega em racionalizar tudo. Você sabe que, pela lógica, é insalubre estar apaixonada por uma pessoa dessa natureza, mas não consegue evitá-lo, porque não é só a mente que manda.

No entanto, se não se apaziguar com o facto de isso ser uma característica humana, só vai enterrar-se ainda mais na melancolia. A Adalgisa tem tempo. Tempo para deixar o desapego ir fluindo, dado que vai conhecer outras pessoas; tempo para reconstruir a sua vida profissional e tempo para se reconciliar com os seus pais. – A rapariga suspira ao ouvir a última parte. – É o seu momento, Adalgisa. Um dos escassos momentos de verdadeira paz que a vida fornece. Não tenha pressa.

Aliás, sugiro-lhe que hoje não faça nada de jeito. Aproveite para parar no tempo: saia daqui e vá divertir-se. É um dia de folga, é o dia zero, é o dia em que se desperdiça tempo só para o aproveitar melhor amanhã. Vá para o parque correr, empanturre-se de comida de plástico ou relaxe na cama o resto do dia.

Vá, de é que está à espera?

- O quê, mas agora?!

- Agora mesmo! Não há tempo a perder! Ou melhor: há, mas não aqui! – A mulher apressa-se a levantar-se. Contudo, após alguns passos, retoma a direção a Tiago.

- Podemos trocar os nossos números?

- Claro. – Ele também se põe de pé e diz-lhe o seu. Quando está isto tratado, Adalgisa recupera a conversa:

- Sempre descobriu o que queria?

- Por hoje, sim. O resto logo se vê.

- Obrigada. – Vislumbra-se um ténue sorriso na cara dela.

 - Se fosse obrigado, não fazia. Cuide-se.

Separam-se em sentidos opostos e, durante breves momentos, só se ouve o eco dos seus passos no corredor, até que Tiago bate a uma porta. Um homem atende-o e, ao longe, Adalgisa capta o início da conversa:

- Então, mano, estava a ver que nunca mais vinhas. – Comenta o proprietário do gabinete. Aquela voz atrai o olhar da rapariga que, de novo, está ofegante.

- Estive a ajudar uma rapariga com umas cenas. Ias gostar de a conhecer… para depois a despedires, claro.

- Que conversa é essa?

- Foi um passarinho que me contou. – O convidado entra no gabinete e é então que o CEO avista a ex-amante a observá-los.

- Dá-me só um segundo. – O chefe sai da divisão, caminhando na direção dela, mas a mulher abre a porta de saída e abandona o edifício, o que congela o seu amado no lugar. O outro homem aproxima-se com a discrição de um fantasma e assusta-o ao afirmar:

- Estava a ver que ela nunca mais bazava. ‘Bora despachar aquilo, que eu quero almoçar. – Ato contínuo, Tiago dirige-se outra vez ao escritório à medida que o dono da empresa o segue e pergunta:

- O que é que ela te contou?

- O que é que isso interessa? Não vás atrás dela. Não olhes para trás sequer. A vida continua!

- Desembucha, mas é.

- I just wanna feel this moment! Já conheces o ensinamento do Pitbull e da Christina Aguilera?

- Tiago!

- Gritam o meu nome imensas vezes. Dava jeito num concerto.

 

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