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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

04/03/16

Banho de Maionese (5) 1 - Sai da Casca, Samuel!

por Olavo Rodrigues

stock-photo-side-profile-young-woman-using-working(Constança a narrar)

Cheguei ao centro comercial entusiasmada. Esperava-me um dia em grande na companhia dos meus amigos... Incluindo na do Samuel, vejam só! Depois de ter travado uma boa luta de argumentos, pois contra ele não era nada fácil, lá consegui convencê-lo a comparecer apesar da má recordação da festa universitária.
Não me acompanhava de momento, havíamos combinado encontrarmo-nos no sítio anfitrião, visto que o rapaz estava a meio da sua hora da solidão. (Ei, rimou! Ah! Ah! Ah!)

Apercebi-me rapidamente de que estava sozinha. Ninguém do meu grupo tinha chegado antes, procurei-os por toda a parte. Cansada e entediada, sentei-me a uma mesa na zona gastronómica. Felizmente, era sexta-feira, o Samuel estava de folga e não havia aulas à tarde para mim e para os meus outros companheiros. Olha, que pena! Tínhamos praticamente o fórum inteiro só para nós!

Ora, o que é que uma jovem da minha idade podia fazer numa situação destas? Jogar no telemóvel parecia-me uma excelente ideia! Sejamos sinceros, havia mesmo outra opção?

Eu sabia que não fazia sentido assim de repente, mas sentia-me.... Observada! Os meus olhos abandonaram o telemóvel e o meu coração quase explodiu ao descobrir que o Samuel me fitava fixamente. Assemelhava-se a uma autêntica estátua! Ele... Estava sequer a respirar?

- Samuel? - Chamei a estalar os dedos à frente da sua cara. Incrível! Nem pestanejava! Eu não me drogava, portanto, não era uma alucinação de certeza! Comecei mesmo a ficar preocupada. - Samuel?! - Voltei a tentar num ritmo mais acelerado. Raios! - Samuel?! - Desta vez bati com toda a força na mesa, acordando-o finalmente. O rapaz  tomou uma golfada de ar. Eu sabia! 

- Saudações. - Disse ele cordialmente como se nada fosse. Até fiquei parva!  - Agradeço-te muito por me teres alertado, por vezes estou tão absorto nos meus pensamentos, que me olvido de respirar. Felizmente, a frequência não é abundante. 

- Mas... Sentes-te bem? - Questionei ainda notavelmente abalada. 

- Sim.

- Mesmo?

- Sim.

Levei as mãos à cara para depois suspirar... Credo, que cena! Eu sei que encomendei uma caixinha de surpresas no preciso momento em que decidi levar avante uma amizade com este gajo, mas esperava uma caixinha de surpresas com um palhacinho que salta e que ao qual achamos piada logo a seguir. Não queria de facto ficar com a de Pandora durante muito mais ou pelo menos, gostava de me adaptar a ela o mais depressa possível.

Pronto, sim, era uma choramingas e então? Nunca fui boa a lidar com grandes camadas de nervos e cheirava-me que aprender a conviver com o meu novo amigo me prometia um grande desafio emocional. Fiquei mesmo bastante assustada quando ele falou dos meus amigos na festa universitária. Estaria uma inimizade prestes a desabrochar?

Não, não podia ser! Não ia aguentar! Estava desejosa de assistir ao desfecho desta reunião. Esperem, eu cheguei a contar aos meus outros amigos que o Samuel vinha? Não me lembro! Bom, convenhamos, o convite do dito foi feito um pouco em cima da hora... Cruzes canhoto!

Apesar de por norma ter um sorriso sincero estampado na cara e ser extrovertida, às vezes apenas sorrio para não gritar ou chorar.

- Há quanto tempo é que estás aqui?

- Há 30 minutos e 16 segundos. Não, 17. Desculpa, 18. Afinal, são 19. - Ri-me genuinamente.

- Por que ficaste aí especado?

- Encontravas-te ocupada, não quis ser mal-educado e interromper-te.

- Isso só seria aplicável se fosse alguma coisa importante ou estivesse a falar com alguém, mas estava a jogar no telemóvel. Bom, haveria uma excepção se estivesse prestes a passar um nível avançado, porém, não era o caso. Podias ter-me ligado. - Achei por bem sugerir isto, dado que seria uma forma de evitar transmitir a ideia de estar agarrada. Não conseguia acreditar que tinha passado tanto tempo com as unhas no ecrã! - Há algo de errado com a minha cara para teres estado a olhá-la fixamente? Tenho a boca suja ou algum gorila a querer sair da jaula? - Seguindo esta linha de pensamento, já estava por tudo, provavelmente até me podia cair o tecto em cima, que só teria medo de não bater o meu recorde no Candy Crush. 

- Não, toda a tua face está idêntica ao que é habitual, eu mirava-te, contudo, não te via, somente as imagens atribuladas e rápidas da minha mente. - Dito isto, apercebeu-se de que travava contacto visual e procurou fugir-lhe como de costume. Como se não bastasse, fora-se outra vez, paralisou a olhar para o chão.

- Ei, acorda. - Após um ou dois estalidos de dedos, lá consegui fazê-lo regressar à Terra. - Então, ela é assim tão gira? - Brinquei eu a rir-me.

- Quem? Terás de ser mais específica. 

- Estou a reinar contigo. A distracção é um dos sintomas de estar apaixonado, portanto, quando alguém anda muito na lua, a malta manda estas piadolas. 

- Ah. Quando uma pessoa se apaixona, perde em média dois amigos. 

- Oh! Que pena!... Mas tens alguma na mira? - Pela expressão facial, não me percebeu, claramente. Céus! Era impossível evitar rir-me quando ele fazia aquela cara. - Tu sabes, estás interessado nalguma jeitozona do trabalho ou do ginásio?

- Não.

- Por que não? Não me digas que não há raparigas bonitas nos lugares que frequentas.

- Há, mas não possuo preferência por nenhuma. Gosto de as ver de longe como quem contempla as estrelas a brilhar no céu. Tampouco nutro vontade de interagir com elas, não há nenhuma razão para tal. 

- É claro que há. Tipo: elas serem giras.

- Continuo a não perceber qual a relevância do aspecto físico.

- Eh, pá, é sempre uma característica chamativa. É como olhares para um bolo enfeitado, os enfeites dão-lhe um ar mais atractivo. Os olhos são os primeiros a comer.

- Não os meus.

- Muito bem, vou tentar de outra maneira: quando dizes que gostas de as ver de longe, a que te referes exactamente? 

- À qualidade da sua expressão pessoal. Atento no vocabulário, na linguagem corporal e na energia que emanam. Meço tudo ao pormenor: a frequência da tristeza, da alegria, da agressividade, da erudição...

- Está bem, já percebi. 

- E as mais bonitas são sempre as mais bondosas. As intelectuais e as criativas também, mas atribuo primazia às que possuem um coração de ouro. Em relação à parte física, limito-me a pô-la de parte, não a compreendo. Sou incapaz de distinguir graus desse tipo de beleza porque não os vejo simplesmente, estão em toda a gente de forma igual e diferente ao mesmo tempo. Tudo o que é criado pela Mãe Natureza é belo e único, por que divergiriam as pessoas? 

Os magros só são bonitos devido à existência dos obesos e vice-versa. O encanto dos olhos castanhos e dos azuis existe por se diferenciarem uns dos outros. Os olhos azuis não seriam bonitos se só houvesse olhos azuis, o que também é aplicável aos castanhos e aos diferentes formatos de corpo. 

Os cientistas dizem que é uma questão de simetria. Quanto mais simétrico for alguém, mais atraente parece aos olhos dos outros. Creio que não nasci com esse sistema de separação incutido. Olhar para uma mulher desnuda ou para uma petúnia entusiasmam-me ao mesmo nível, embora de maneira distinta. 

- Pronto, respeito o teu ponto de vista, mas continuo a não ver razão para não te meteres com elas. O que interessa é que têm algo que te cativa, seja físico ou psicológico. 

- Por que não são elas a meter-se comigo?

- Sê sincero: gostavas mesmo que isso acontecesse? - Após um momento de silêncio que denunciou as suas engrenagens bem oleadas a trabalhar, o rapaz proferiu o que eu esperava:

- Não. 

- Ora aí está. Foste mesmo ao ponto que eu queria. Samuel, eu estou a brincar, não precisas de arranjar uma namorada à força, a tua tal virá na altura certa. Entretanto, falo a sério enquanto brinco, devias tentar ser mais aberto às pessoas - mulheres ou homens. Não precisas de conversar como se fossem amigos de infância, leva a coisa com calma, ia fazer-te muito bem. 

Um bom dia, uma boa tarde, pequenas sementes como estas tornar-se-ão em empatias e algum tempo depois, quem sabe, em amizades. 

- Eu cumprimento sempre toda a gente.

- Não é o suficiente se acabas por te isolar. Eis um facto científico: a solidão pode matar. - Subitamente, lembrei-me dos pulos constantes que o sistema nervoso dele dava. - Calma! Não pretendo assustar-te, apenas dar-te um alerta. Tu deves e consegues conquistar uma melhor qualidade de vida. Eu sei que te custa do pêlo à brava, mas não faz mal, todos temos pontos fortes e fracos. Contudo, é para vencer os segundos que cá estamos. Eu estou cá para ti. - Finalizei ao segurar-lhe as mãos agitadas, meigamente. Não sou capaz de precisar o que é que ele apanhou do meu discurso ou se o apanhou sequer, pois estudei-lhe os olhos e apercebi-me logo de que somente o corpo se encontrava neste planeta. 

 

 

 

17/01/16

Banho de Maionese (4) 2 - Morrer É Renascer

por Olavo Rodrigues

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 (Constança a narrar)

Estávamos a almoçar tranquilamente, mas havia algo de constrangedor no ambiente. Os velhotes conversavam sobre assuntos quotidianos e o Samuel comia sem tirar os olhos do prato. Se estivesse numa situação diferente, eu não ia de modas e punha na mesa um tópico interessante para todos debatermos. No entanto, o meu estado físico não era propriamente bom, não me apetecia mesmo nada pensar.

A dor de cabeça tinha voltado a aumentar de intensidade, aquilo de que eu precisava  mesmo era de uma boa noite de sono sem interrupções. Além disso, também me sentia um pouco envergonhada por ter conhecido os avós do meu amigo neste estrafego. 

Ah, que se danasse! Atirei a primeira coisa que me veio à cabeça:

- Então, Samuel, o que planeias fazer depois do almoço?

- Hoje é uma excepção, normalmente não planeio, a vida flui e eu acompanho-a. Ser espesso é doloroso. Mas por ter deixado a minha hora da solidão a meio de modo a auxiliar-te, vou ter que cumprir a meia hora que falta. Tirando isto, as únicas imposições às quais obedeço são as laborais e as dos meus avós. - A seguir a um pequeno riso, reinei:

- Então e as dos teus pais, não contam?

- Sim, prestar-lhes-ia devoção com o mesmo prazer se estivessem vivos. - Raios, já me arrependi à grande!

- Ó, Samuel, lamento imenso. Ai, eu e a minha grande boca!

- Porquê? A culpa não é tua. 

- Sim, é verdade, mas... Toquei numa ferida sensível, deve doer-te à brava.

- Não, nem por isso, a morte é um acontecimento natural e inevitável. Passa por toda a gente mais tarde ou mais cedo. - O que mais me surpreendia era a frieza pura que empregava nas palavras, destroçava-me o coração! Estaria a adoptar aquela posição para se defender contra a dor? Quer dizer, o Samuel era a pessoa mais distante dos padrões da sociedade que eu já tinha conhecido, mas caramba, não deixava de ser humano!

- Bom... De certeza que gostavas de os ter cá. Eram... Teus pais. - Disse eu com um travo do choque misturado com a voz.

- De certo modo sim, os progenitores são uma parte integral do crescimento saudável de qualquer indivíduo, contudo, por outro lado, escolheria manter a minha vida tal e qual como está. Gosto do que é meu porque é meu.

 Os velhotes olhavam para mim, indicando-me que não devia aprofundar o tema. Assenti, regressando à ingestão da sopa, incrédula, mascando o que acabara de ouvir. 

 

(Samuel a narrar)

 Um desconforto mental tomou os meus pensamentos. Havia agitação na vibração energética da divisão. Localizei a fonte! Era a Constança! Mas por que motivo? Não estaria a sopa do seu agrado? Seria o efeito da veisalgia ainda muito intenso? De repente, vi-a pousar a colher. 

- Lamento, D. Carla, por favor, não me leve a mal, mas não consigo comer mais. A sopa estava óptima, obrigada. - Agradeceu ela enquanto entregava o prato à minha avó. 

- Mas estavas quase a terminar. Como é que consegues sentir-te bem contigo própria ao deixares algo incompleto?

- Não sei, não me apetece comer mais. 

Não lhe apetecia comer mais? Mas... A noite passada ela consumiu bebidas alcoólicas em excesso, o que é um indicador de que as mencionadas se encontravam no patamar óptimas. Ora, também definiu a sopa como sendo óptima, portanto, colocou-a ao mesmo nível que as bebidas. Todavia, se assim era, por que bebeu tanto e agora estava a menosprezar a comida? Eu.... Não percebo....

Comecei a piscar os olhos a um ritmo desmesurado, levando a energia da Constança a voltar a aumentar o grau de agitação 

- Samuel, estás bem? - Após um efémero exercício de respiração, afirmei finalmente:

- As outras pessoas são estranhas... E fascinantes!

- Ah... Fixe. Estás bem, certo?

- Sim. - No espaço de um fósforo, acabei com o pouco alimento que ainda se encontrava no meu prato e levantei-me para me dirigir ao meu quarto.

- Aonde vais? - Questionou a rapariga antes de eu abrir a porta.

- Para o meu quarto, vou cumprir o tempo que falta da hora da solidão. 

- Boa, posso ir contigo?

- É a hora da solidão. 

- Oh! Certo, não me ligues. Então, mas o que é que eu faço?

- Por que hei-de eu saber?

- Bom... Sou tua convidada, não é muito simpático pores-me de parte. - Fiquei visivelmente incomodado por uns momentos, até que da maneira mais calma que consegui, expus o meu ponto de vista:

- Se estabelecêssemos um interlúdio no momento presente, este duraria quase de certeza até ao fim do dia. Seguindo esta linha de raciocínio, a meia hora da solidão que está em falta aproximar-se-ia demasiado ou coincidiria com a versão nocturna da mesma actividade. Isso seria incoerente. A incoerência não é nada boa.

Olha o exemplo da Natureza, a nossa espécie perturba-a todos os dias e a Mãe Suprema já apesenta sinais de desgaste. Aprende com a Natureza, Constança, há muita sabedoria a retirar dela. - Oh, não, o tique dos olhos outra vez!

- Pronto, está bem, a gente encontra-se noutra altura.

Posto isto, abandonei a cozinha, senti-me muito mais calmo quando cheguei ao quarto. Ah! Que alívio! A grande confusão constante que habitava o meu âmago era bem melíflua comparada com a que o atormentava ao tentar socializar com outro ser-humano. Precisava do meu espaço, de mim, como sempre.

Após fechar a porta, descalcei-me e pus os ténis no mesmo sítio do costume sem falhar um milímetro. Claro que usei uma régua para o confirmar, sabia que devia confiar nos meus sentidos apurados, mas nunca era de mais averiguar.

Em seguida, deitei-me na cama, ignorando o conforto do interior dos cobertores. A acção foi empreendida devagar para não os amarrotar. Da divisão onde anteriormente me encontrava, a minha audição captou a conversa que decorria entre a convidada e os meus avós. Dei conta de que se esforçavam para falar baixo.

- Lamento, menina. Por favor não fique ofendida, ele não faz por mal. O Samuel sempre teve bastante dificuldade em integrar-se na sociedade, por isso é saudável ter estes momentos de descanso. - Começou o Avô.

- Eu sei, só gostava que ele não fosse tão fechado. É perfeitamente perceptível que há muitas dúvidas e frustrações a borbulhar dentro daquela cabecinha pensadora. É um rapaz simplesmente incrível em tantos aspectos.

Foi por esta razão que insisti na história dos pais, faz-me uma aflição tremenda que ele fale dum acontecimento assim com tanta frieza. Peço imensa desculpa se pisei algum risco. Já agora, trate-me por tu. - Riu-se a minha amiga

- Deixa lá, não te rales com isso. - Era a vez da Avó. - Por muito estranho que pareça, o Samuel nunca reagiu mal ao falecimento dos pais e já tinha idade para que isso o abalasse a valer, com treze anos... Vá lá, vai. 

- Céus!

- Sim, estranhou a ausência deles durante mais ou menos um mês, mas acabou por se adaptar. Como ele nunca mais tocou no assunto, nós também decidimos não insistir. Além disso, nunca mudou a sua maneira de estar, sempre foi invulgar, portanto, não havendo anomalias, não havia muitas preocupações. 

Contudo, não penses que ele não é capaz de sentir afecto. Quando te conheceu, chegou aqui a dizer que no café se tinha cruzado com uma rapariga portadora de uma óptima vibração energética, limpaste-lhe a alma como a Coca-Cola limpa canos. - A Constança largou uma gargalhada que quase fez o meu coração saltar do peito. Credo! Tenho de a ensinar a moderar o registo vocálico. 

Enquanto a piada da minha avó provocava risos, o tema da morte permanecia-me na mente. A nossa convidada parecia ter ficado extremamente perturbada ao passo que eu não visava nenhum género de motivo para sentir mágoa. E falávamos dos meus pais. Por que ficavam as pessoas tão angustiadas, por que levavam meses, anos a chorar nas camas sem forças para se erguerem e voltarem a encarar o mundo? Morrer era tão natural como nascer.

Aliás, conduzindo o tópico para uma textura mais suave, até podia ser mais saboroso. Quando se morria, descansava-se! Descanso! Não era isto que todos os habitantes desta sociedade devoradora ambicionavam diariamente? Então, por que se afligiam tanto quando chegava por fim?

A meu ver, morrer era como chegar à meta e ganhar o grande prémio da competição. Não devíamos ficar tristes, mas sim felizes por os nossos entes queridos terem ganhado, por terem cumprido a sua missão. E o melhor disto tudo, era que ninguém morria verdadeiramente, na Natureza tudo se transformava, não existiam desperdícios.

Também se tinha outra vida. Uma vida que superava esta aos pontos. Seria demasiado ingrato se assim não fosse, havia fenómenos que o demonstravam. Pelo menos eu gostava de quase acreditar que sim, a pulga nunca saía de trás da minha orelha, mas havia coisas que me faziam mais sentido que outras. Reflectia e retirava conclusões, sempre a desconfiar. 

Ai a tristeza! Este sentimento que se recusava a deixar-me ter um encontro com a paz. Pensando bem, quiçá não fosse assim tão mau usar esta emoção para traduzir o carinho que sentíamos pelos nossos. Sem tristeza, não havia felicidade e talvez fosse por encarar tudo de forma tão natural que eu não era feliz. Talvez. Não sabia. Estava fora do meu alcance compreender isto...

Fui ligar a aparelhagem e pus a tocar música clássica num volume mediano. Já embalado pelo seu inigualável charme, voltei a sentar-me na cama de olhos fechados. Que bom era perder-me na tagarelice de tão boa melodia...

 

 

 

 

29/12/15

Banho de Maionese (4) 1 - Zaragataram os Três e Caíram os Quatro

por Olavo Rodrigues

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 (Constança a narrar)

O Samuel afastava-se de mim a um passo apressado enquanto eu sentia um aperto no coração e a preocupação e a tristeza a fervilhar. Talvez tivesse sido melhor começar por algo mais simples como uma pequena reunião de amigos num restaurante. 

Apanhei de facto um susto de morte, por momentos pensei que ele fosse desmaiar ou ter um ataque cardíaco. Tenho imensa pena de esta experiência haver sido um fracasso para o rapaz, achei que seria fantástico ele conseguir articular toda aquela genialidade que demonstra sem estar prestes a explodir. Precisava de amigos, amigos que o percebessem. 

Um sorriso instalou-se nos meus lábios. Eu formava-me em Psicologia e tinha como amigo o meu desafio supremo. Se bem que trabalhar com autistas não devia ser nada fácil. O meu grupo veio encontrar-se comigo.

- Ei, o teu amigo está bem? - Questionou a Madalena.

- Há-de ficar... Pelo menos foi o que ele disse.

- É um bocado estranho. - Afirmou o Gabriel.

- Não é nada! - Rosnei eu movida por um impulso. - É só diferente. - Retomei num tom mais calmo.

Não tenha medo de me "agarrá"

Toca em mim e me aperta,

Me amassa... hum, hum...!

Assim não dá, 'tou a "gostá"

(...)

- Oh, fixe, é o Controla, vamos lá para dentro. - Exclamou a Liliana a suar entusiasmo.

Os outros seguiram-na igualmente famintos de ouvir a música, porém, eu fiquei na rua durante mais uns momentos. Pensava no bem-estar do Samuel. Mas depressa percebi que estava sozinha feita ursa e entrei por fim.

 

Eram oito da manhã e eu estava com uma dor de cabeça do piorio! Sim, era verdade, tinha exagerado na bebida. Depois de uma directa, por mim ficava em casa, o meu desempenho na faculdade não seria o melhor, contudo, os meus pais pagavam uma nota preta para eu tirar o curso e se não me aplicasse, eles não hesitariam em dar-me com o chinelo embora tivesse vinte anos. Portanto, a imitar os pinguins, dirigia-me à paragem de autocarro.

No entanto, enquanto andava, ou melhor, cambaleava, tropecei nalguma coisa e espalhei-me ao comprido, dando um beijinho ao chão. 

 

Zonza, abri os olhos e dei conta de que me encontrava numa casa que não conhecia, deitada no sofá. Levantei-me sobressaltada, porém, um velhinho com um ar amistoso apareceu de súbito com um copo de água.

- Sente-se bem, menina? - Questionou amavelmente com um sorriso na cara antes de me entregar o copo. 

- Mais ou menos, obrigada. - Hum! Água! Há imenso tempo que não me sabia assim! - Quem é você?

- É o meu avô.  - Respondeu uma voz familiar atrás de mim. Era o Samuel! - Bebeste whisky, cerveja e vodca. És decerto uma melhor entendida em consumo de álcool do que eu, devias saber que as misturas são altamente nocivas. Estavas mesmo a pedi-las.

Se tivesses optado por ir a um sítio no qual houvesse fornecimento de batidos de banana, agora não estarias nesse estado e terias optimizado a tua memória e qualidade de aprendizagem, como já referi antes. Tenho a certeza de que precisas dessas capacidades para o sucesso académico. - Não conseguindo conter o espanto, perguntei à ganância:

- Como é que sabes o que eu bebi? 

- Através do cheiro do teu hálito.

- Foi o Samuel que a socorreu. - Explicou o velhote enquanto recolocava o gelo caído no meu galo. - Estava muito bem no quarto a fazer... O que é hábito, quando de repente saiu disparado sem passar cavaco a ninguém e voltou consigo inconsciente nos braços. 

- Senti uma perturbação na tua energia normalmente positivíssima. Também tive de alternar diversas vezes entre carregar-te e descansar devido à minha constituição franzina, mas o que é importante é que nenhum dos dois se magoou ao longo dos 150 m. - 150 m?!

- Uau! Obrigada, Samuel. - Agradeci do fundo coração e a sorrir abertamente, no entanto, recebi o seu tom frio e distante do costume.

- De nada, só fiz o meu dever.

- Bom, muito obrigada pela preocupação e hospitalidade, mas eu tenho de ir, é dia de escola. - O rapaz deteve o meu movimento ao pressionar-me o ombro.

- Não é boa ideia, já é uma sorte não estares em coma. Não estás em condições de ir a lado nenhum, ficas aqui e almoças connosco. 

- Almoçar? Mas eu acabei de conhecer o teu avô. 

- Então e também vai conhecer a avó. - Riu-se o senhor.

- Agradeço imenso, mas não consigo comer agora, o meu estômago está a andar às voltas. 

- Essa é uma das consequências da veisalgia, popularmente conhecida como ressaca. O corpo faz um esforço tremendo para processar o excesso de álcool e as respectivas toxinas. Quando o trabalho acaba, o fígado, o órgão mais sacrificado, quer mais e mergulha num género de depressão, gerando o caos no metabolismo. O sistema nervoso também afectado tem uma reacção parecida e manifesta-a em forma de dores de cabeça, náuseas, cansaço extremo, sensibilidade à luz, ao barulho... (https://pt.wikipedia.org/wiki/Veisalgia)

- Samuel, não precisas de descrever isso, estou a senti-lo. - Disse eu agarrada à cabeça.

- Com tudo isto quero insinuar que para combateres melhor esse desconforto, tens de nutrir o teu corpo. Compreendo que não sejas capaz de ingerir grandes quantidades de alimento, mas o jejum é de longe a melhor solução. E garanto que não tomaste o pequeno-almoço. 

- Mas...

- Constança, para quem quer introduzir-me no âmago da sociedade, não estás a aceder à atitude correcta.

E com esta arrumou-me. Como se não bastasse, ele detectou-me do quarto a 150 m de distância e distinguiu o cheiro de três bebidas diferentes já consumidas. Talvez não fosse boa ideia contrariá-lo. Dei o braço a torcer-me, rindo-me.

- Está bem, acho que posso aceitar uma tigelinha de sopa. 

26/12/15

Banho de Maionese (3) 2 - Entre o Badoxa e um Batido de Banana

por Olavo Rodrigues

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 Havia somente um rapaz e as duas raparigas trajavam roupa ousada.  A minha... Amiga passou às apresentações.

- Pessoal, este é o Samuel. Samuel, estes são a Madalena, a Liliana e o Gabriel. - O rapaz iniciou as saudações, estendendo-me a mão.

- Cumprimenta-o. - Incitou a Constança depois de algum tempo de inactividade.

- Não percebo este tipo de comportamento.

- Quando alguém te estende a mão assim é para lhe dares um passou-bem. - Expus desentendimento através do rosto. - Esse vocábulo é-me igualmente desconhecido. - O tal Gabriel agarrou na minha mão e fez o que era suposto. - Obrigado pelo esclarecimento. - Agradeci sem sorrir ao contrário dele. Isso não pareceu agradar-lhe.

 Estava prestes a fazer o mesmo à Madalena e à Liliana quando a Constança deu um grito que quase me rebentou os tímpanos, tendo ficado com uma ligeira dor de cabeça, os meus eram muito sensíveis. 

- Ai eu não acredito, é o Badoxa! - Exclamou ainda com o entusiasmo no auge.

Num estalar de dedos, a música electrónica que invadia todo o perímetro da festa foi trocada por um ritmo tipicamente africano, que eu também não apreciava. O indivíduo que se encontrava no palco não fez questão de prolongar a espera, lançando-se ao espectáculo com uma enorme paixão.

Essa parte deu-me gosto de ver, ele era um dos poucos sortudos que conseguiu fazer com que a vida cantasse a sua vontade. Admirava-o a ele e a todos os outros, que apesar de serem maiores e vacinados, nunca deixaram de desfrutar da sua infância. Conservaram os sonhos como prioridade e quais estrelas continuam a precisar de combustível para brilhar, portanto, não cessam de procurar objectivos concretizados.

O seu tipo de música não era de todo o meu estilo, mas eu começara a adorar o Badoxa. Nunca tinha ouvido falar de tal personagem, mas o seu sorriso sincero no rosto cativara-me... Causara-me inveja. Eu ainda não tinha um sonho definido, o que era grave a esta altura do campeonato. Quando dei por mim, encontrava-me nas entranhas da caixa, que me digeria lentamente, tratava-se de uma prisão bastante difícil de superar. Podia estar atrasado, mas nunca seria tarde de mais.

O meu maior prémio - a vida. Tem uma personalidade dos diabos, bem como uma beleza inigualável que tortura a minha mente todos os dias com os seus quebra-cabeças intermináveis. Aproveitava-a com o maior prazer, proíbia-me a mim mesmo de perder a esperança por muito que me custasse.

- Samuel! - Gritou a Constança.

- Bolas, isso é mesmo necessário?! - Resmunguei.

- Desculpa, mas já te tinha chamado três vezes. Queres uma bebida?

- Sim. Um batido de banana, por favor. Tenho de estabilizar as minhas reservas de potássio. 

- Lamento, aqui não há disso. Não preferes antes um whisky? - Questionou ao mostrar-me o seu copo.

- Não, obrigado. Por que não me avisaste de que este sítio carecia de elementos salubres? Podia ter trazido um batido caseiro. - Ela riu-se.

- Ninguém vem a uma festa para estimular a saúde. As pessoas costumam gostar do que faz mal, é o que sabe melhor. 

- Isso não faz qualquer sentido, estou seguro de que o bem-estar sabe muito melhor. O potássio previne doenças cardiovasculares ao aliviar a hipertensão arterial, nivela a quantidade de açúcar no sangue, evitando tanto os picos como a escassez (esta característica torna-o um óptimo nutriente para os diabéticos), contribui para o bom funcionamento eléctrico dos neurónios. Sem potássio, os mesmos demonstram uma comunicação prejudicada. A dose ideal desta substância auxilia a boa memória e a aprendizagem... (http://www.mundoboaforma.com.br/9-beneficios-do-potassio-para-que-serve-e-fontes/)

Ei, importas-te de que saia daqui? As luzes fluorescentes são deveras incómodas para a minha vista e além disso, cheira a tabaco, bem como àquelas estranhas ervas medicinais. Detesto ser um fumador passivo, com a respiração não se brinca, é o instrumento mais precioso da nossa saúde. Por favor, Constança, tira-me daqui...! - A ansiedade havia tomado o meu autocontrolo, de momento piscava os olhos sem parar e tremia imenso.

Como se não bastasse, os amigos de quem me acompanhava observavam-me de uma maneira que não conseguia descodificar, mas que me era assustadoramente familiar. Sempre que alguém me olhava assim, sentia uma pressão esmagadora.

- Ah... Está bem, vamos lá para fora um bocadinho. - Se não me enganava, a rapariga que me convidara aparentava estar preocupada. - Peço desculpa. - Afirmou aos outros.

Quando chegámos ao exterior, pude finalmente entrar em contacto com oxigénio de qualidade. Principiei um exercício de inspiração e expiração profundas de modo a acalmar-me, só conseguiria comunicar outra vez depois de voltar ao estado neutro. A Constança tentou estabelecer contacto, mas eu instruí-a a esperar quando levantei o dedo indicador.

Assim que recuperei o controlo das minhas emoções, ainda que estivesse ofegante, começou o diálogo:

- Céus! Estás bem? Por que ficaste assim, só te ofereci uma bebida, estava a tentar ser simpática. Não me digas que entraste em pâncio porque não podes beber um batido de banana.

- Não, não é isso, as minhas divagações são meros resultados dos meus nervos. Este evento é demasiado complexo para mim. Tanto barulho, tantos estímulos visuais, tantos cheiros esquisitos e credo! Por que é que tu e tantas outras raparigas gritam? O Badoxa não pode responder-vos. 

- Desculpa, é a força da emoção. - Brincou ela.

- Outro factor horrendo foi o olhar dos teus amigos.

- Como assim?

- Não é a primeira vez que alguém me olha assim, eu não me apercebo por olhar para as pessoas, mas sim por sentir que me observam daquela forma. Não sei o que significa, contudo, não gosto nada. - A Constança não disse uma única palavra durante momentos, apenas acalmava a fera com o seu toque físico tranquilizador.

- Queres ir para casa? - Atirou finalmente num tom meigo.

- Sim, adoro o refúgio da solidão.

- Está bem, deixa-me despedir-me dos meus tropas. 

- Oh, não. Por favor, não estragues a tua noite por minha causa.

- Não vou estragá-la.

- Falo a sério. Não cometas o mesmo erro que eu, diverte-te do melhor prisma.

- De certeza que ficas bem?

- Hei-de ficar, sim. 

- Muito bem, vai lá. - Antes de me conseguir levantar para partir, a nossa interacção foi concluída por um abraço face ao qual me vi incapaz de retribuir. Pus-me a caminho logo após ter terminado, com um nervoso miudinho a processá-lo.

 

 

 

 

 

12/12/15

Banho de Maionese (3) 1 - Na Festa dos Sentidos Emaranhados e Olhos Encarnados

por Olavo Rodrigues

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 (Samuel a narrar)

Cheguei à porta da Constança com um ramo de rosas brancas. Procurei a campainha, mas não a encontrei. As campainhas costumam ser botões quando inseridas em prédios e são salientes e estão envolvidas por um contorno quadrangular no caso de servirem casas rasteiras como a da minha... Amiga.

Não havia claramente nenhum adereço na paredes que seguisse tais padrões, portanto, bati à porta com força. Achei por bem meditar nas palavras, pelo que quando a Constança me abriu a porta, o meu regresso ao mundo real foi repentino e abrupto, tendo-me isto saído isto instintivamente:

- São brancas porque não quero fazer sexo contigo! - Ela não sabia se havia de ficar chocada, confusa ou divertida.

- Ah... Muito bem, está registado... Não te preocupes. - Riu-se por fim ao aceitar as flores. - Uau, Samuel, sinto-me lisonjeada, mas... Não é suposto isto ser um encontro.

- Oh, as minhas desculpas, não sabia qual a ocasião certa e achei por bem trazê-las na mesma, não fosse eu cometer uma falácia. 

- São verdadeiras, ena! 

- Calculei que isso ampliaria o efeito positivo sobre ti. Não sabia quantas devia trazer, por isso, decidi guiar-me pelo número de letras do teu nome, que vem de Constantius em latim. Significa constante, determinada e também uma variante medieval de Constância (o feminino de Constâncio) encontrada em escritos portugueses dos séculos XIII e XIV. (http://www.dicionariodenomesproprios.com.br/constanca/)

Cheguei a pensar que seria melhor seguir a quantidade de letras de Constantius, pois tal como as rosas podias querer que tudo fosse o mais natural possível, no entanto, por outro lado...

- Calma, eu adoro-as, são perfeitas independentemente do número. - Aproveitei a oportunidade para recuperar o fôlego. 

- Obrigado, estou-te eternamente grato por me teres interrompido. 

- Isso são tudo nervos por causa da festa? - A rapariga largou uma gargalhada. - Não te preocupes, passam-te com uma bruta duma bebedeira. Anda. - E com isto, deixando-me completamente atónito e sem palavras, pegou-me na mão e começou a andar, estava claro que chegaríamos atrasados se eu ficasse ali a matutar.

O caminho foi todo feito em silêncio, quer a andar, quer nos transportes públicos. Quando entrámos, senti que a música me penetrava de tão alta que estava. Além disso, detestava-a, era electrónica.  À minha volta, uma tempestade de sensações tomava forma - a música quase me rebentava os tímpanos (obviamente), ouvia as pessoas a rir, a falar... A vomitar, inalava diversos cheiros de toda a espécie... Era impressão minha ou alguns eram originários de ervas medicinais? Cores vibrantes por todo o lado! Das vestimentas, das luzes fluorescentes que me encadeavam e massacravam a vista. 

 Ainda a processar tanta informação, dei por mim ao pé de indivíduos que não conhecia de lado nenhum. A expressão que mostravam ao retirar prazer das ervas medicinais era estranha... Mas que raio?! Não paravam de se rir sem motivo aparente. Seria a depressão o problema deles?

- Samuel, estás com o grupo errado. - Disse a Constança do nada enquanto me arrastava para uma reunião com outros desconhecidos.

 

 

02/12/15

Banho de Maionese (2) - "Arrgh"! Salvem-Me de Mim!

por Olavo Rodrigues

stock-photo-young-business-man-getting-stressed-an(Samuel a narrar)

Estava sentado num banco de um jardim ora solitário, ora confuso e por vezes as duas coisas. É assim que constantemente vejo o mundo - nada me faz sentido, tudo me parece incerto porque o certo não existe simplesmente. Toda a Existência é vibração energética abstracta como o barro. Contudo, há um propósito - cumprir uma missão, missão esta que requer aprender e evoluir.

Para grande desgosto meu, carrego o terrível fardo de não conseguir dar estes passos por as respostas que encontro não me satisfazerem. Obtenho tanta informação e o resultado é a substituição de todo o conhecimento por dúvidas. Eu não me realizo porque questiono a própria dúvida, tudo me parece desconfiável. Até pode haver uma ou várias respostas certas, mas aos meus olhos serão sempre hologramas. 

Cada imagem, cada som, cheiro ou sabor é aspirado e processado pela minha mente hiperactiva, que os dispõe brutalmente a uma velocidade exuberante, sendo a minha cabeça um ninho oficial de tornados. 

A Lua! Leva 27 dias a completar uma órbita completa à volta da Terra, A Lua é o único satélite natural do nosso planeta e o quinto maior do Sistema Solar. É o maior satélite natural de um planeta no sistema solar em relação ao tamanho do seu corpo primário, tendo 27% do diâmetro e 60% da densidade da Terra, o que representa 1⁄81 da sua massa. Entre os satélites cuja densidade é conhecida, a Lua é o segundo mais denso, atrás de Io. (Wikipédia)
É o símbolo do feminino e da sensibilidade, a mãe da noite, o cartão verde para a aparição de criaturas fictícias criadas por imaginações férteis.

Oh!!! Lá estou eu outra vez! Dói-me a alma por não saber usá-la, adoro sentir e pensar, mas não misturar os dois, o que é inevitável. Se sinto, penso no que sinto, se penso, sinto o que penso e como sinto e penso tanto, sou apenas uma consciência caótica que às tantas não discerne qual é o primeiro agressor. Somente sabe que pensa, que sente e que está intensamente dorida.

É à conta disto que dificilmente me faço entender perante os demais, que não sabem nem querem ser abstractos ou cujo barro foi moldado de uma maneira diferente. Raios! Detesto viver no desespero de não encontrar um objectivo...

- Olá, Samuel.

Uma voz interrompeu-me os devaneios. Era doce, melódica e consequentemente muito agradável de se ouvir. No entanto, um pânico irracional impediu-me de direccionar o olhar para a proprietária, limitando-me a ficar parado como uma estátua. Sem qualquer aviso, a Constança põe-se à minha frente com um grande sorriso, pregando-me um susto de morte.

- Estás bem? Estás tão pensativo. - Afirmou antes de se sentar ao meu lado.

- A segunda parte da tua premissa é um hóspede obeso mórbido que declarou a sua presença permanente em mim, pelo que o verdadeiro significado da primeira metade é difícil de deslindar. Tanta coisa em que reflectir, tanta dúvida que criar, sim, porque eu só crio vazio.  - Continuava a não estabelecer contacto visual, mas consegui sentir que a rapariga ia demorar a mascar a minha deixa.

- Há alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar? - Perguntou por fim ao pôr-me a mão suave no ombro.

- Não, obrigado, esta é uma tarefa que me cabe a mim cumprir.

- Mas tudo é melhor com a ajuda dos amigos. - Não sabia se fora mal-educado, mas revelei-me incapaz de mostrar a minha surpresa.

- Nós somos amigos?

- Bem.. Quer dizer, como disseste acabámos de nos conhecer, porém, eu teria muito gosto em ser-te útil. Olha, sabes do que é que tu precisas? Disso mesmo: amigos. A minha faculdade organiza imensas festas, vem comigo à próxima, é daqui a três dias. - Voltei a desviar os olhos, estava novamente em pânico. Tremia como uma vara.

- Vá lá, Samuel, não vais deixar-me plantada outra vez. - Disse a Constança enquanto me punha de novo a mão no ombro e procurava o meu olhar com o dela.  Após algum tempo, piscou-me o o olho para me tranquilizar. - Então? - Raios, não conseguia tirar as palavras da boca. Para a moça não foi problema, tomou o meu silêncio como um sim. - Vemo-nos daqui a três dias, vai buscar-me à minha casa às 20:30.

Decoras a minha morada?

- Decoro quantos grãos de areia têm cinco metros quadrados ou mais.

A Constança despejou todos os dados da sua morada com a sua nata alegria que eu invejava. O estado da minha cabeça piorou, nunca soube como enfrentar este tipo de desafios.

 

 

 

 

26/11/15

Banho de Maionese (1) - A Mergulhar na Maionese Desconhecida

por Olavo Rodrigues

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(Constança a narrar)

Entrei num café e pedi uma bica a qual o empregado afirmou servir-me de imediato. Agradeci, no entanto, após ter dado o primeiro gole, depressa dei conta de que toda a gente interagia menos eu e... O rapaz mesmo ao meu lado. Tinha vestido um fato de treino e avaliando como comia o seu croissã de chocolate e bebia o seu sumo de laranja natural, devia ter acabado de vir do ginásio perto deste estabelecimento, pois estava esgalgado de fome.

- Olá. - Disse amigavelmente. Não me respondeu.  - Olá. - Nada. - Sabes, quando alguém te cumprimenta, é suposto retribuíres. - Finalmente olhou para mim, estava surpreendido. 

- Olá. - Retribuiu numa versão mais tímida.

- Sou a Constança, muito prazer.

- Samuel. - Respondeu depois de um longo intervalo.

- Eu sou nova aqui na vila, portanto, não tenho amigos por perto. Achas que podes mostrar-ma?

- Depende. Segundo as circunstâncias, acabei de te conhecer, o que significa que a ligação entre nós é nula. Além do mais, a região não possui nada de extraordinário, o que pode variar perante a perspectiva de cada um.

Caso achemos que vale a pena, temos de considerar o nosso tempo livre, pois se na tua óptica a visita for interessante, provavelmente ficarás frustrada por não ser possível dar-lhe continuidade devido a um conflito hipotético.  - O rapaz bebeu um pouco do sumo para pausar. - Mesmo que estejas inteiramente disponível, não sei se serei capaz de te providenciar a melhor transmissão de conhecimento, tal dependerá da tua interacção.comigo. - Eu estava nitidamente confusa. Hã?!!! - Desculpa, não consegui perceber se aceitaste a minha proposta ou não. - O Samuel olhou-me durante algum tempo. 

- Depende. Segundo as circunstâncias, acabei de te conhecer...

- Espera, espera. Mais fácil - eu gostava de ver a vila independentemente das circunstâncias, estou aqui para me divertir.

- És epicurista? É uma escolha arriscasda.

- Sou o quê? - Ai, o que é que eu fui fazer?

 - Epicurismo descende de Epicuro, um filósofo da Grécia Antiga que defendia a preservação total do prazer em detrimento das precupações. As célebres palavras carpe diem ou colhe o dia ligam-se à teoria em questão, tendo sido formuladas pelo poeta Horácio mais tarde.

O teu enunciado foi que estavas aqui para te divertir, se não procuras o equilíbrio entre o regozijo do ócio e o tédio das obrigações, a tua vida ficará instável a qualquer momento. - Não evitei rir-me. 

- Não, não percebeste, estou aqui para me divertir agora, mas estou a licenciar-me em Psicologia para um dia arranjar trabalho. E tu, que fazes?

- Ingiro uma refeição leve para compensar o desgaste do exercício físico.

- Não, refiro-me à tua ocupação. Estudas ou trabalhas? O que fazes exactamente?

- Trabalho num call center de modo a ser apto a auto-sustentar-me. Porém, na verdade, nada mais faço do que falar com os sentidos e formular pensamentos através dos mesmos nesta fartura cheia de vazio.

- Ah... Óptimo. Eu cá gosto de sair com os meus amigos da faculdade, de curtir a noite e... O regozijo do ócio. - Soltei uma gargalhada, mas o Samuel não ma devolveu, limitando-se a comer.  Outra tentativa foi atirada sem ele esperar. - Então, vamos dar uma volta ou quê?

- Lamento, mas ocorreu-me que eu possuo um conflito. - Em todo o processo de tirar o dinheiro do bolso e pô-lo no balcão, a vida do rapaz aparentava correr perigo, pelo que assim que o terminou, saiu do café.

- Ah, está bem, adeus. - Disse eu na esperança falhada de prolongar o contacto um pouco mais. - Ele é autista? - Perguntei ao empregado?

- Por incrível que pareça, conheço-o há alguns anos e sei tanto como tu. É provável que sim, ninguém sabe muito da sua vida, apenas que vem sempre aqui depois dos treinos, que come mais ou menos em meia hora e que vai... Fazer o quer que seja.

Fiquei a olhar para a porta enquanto matutava na situação. Creio que o assustei, não acabou o lanche. Sorri pela ideia de que uma amizade com aquela personagem invulgar seria interessante a valer.

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