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É Contar e Encantar

Com o que é que te apetece sonhar hoje?

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31
Out19

Terror Pouco Aterrorizante

Olavo Rodrigues

Por estranho que pareça, apesar do que escrevi, não gosto de terror ou, ao menos, não do pesado. Sempre adorei a colecção dos Arrepios, de R. L. Stine, mas nada mais. A história abaixo tem cinco ou seis anos e nunca antes tinha saído do caderno, o que calculo que tenha a ver com o facto de que a minha tentativa de criar terror chocante falhou, pois como disse, não aprecio o género.

Se assim é, porque carga de água quis tecer uma história deste tipo? Para ser sincero, nem eu o sei muito bem. Acho que um dia, num intervalo da escola em que não havia nada para fazer e estava sozinho, decidi sair da minha zona de conforto pelo simples prazer de me desafiar. Resume-se a isso: estava à procura de algo diferente que me desafiasse e, a razão de ter falhado, é a minha natureza ter intervindo e criado algo mais cómico (creio) do que assustador. No início, ainda tentei escrever algo sinistro e desconcertante, mas depressa me perdi (como sempre) e, pronto, o resultado está à vista. Que melhor altura que o Dia das Bruxas para publicar um texto destes? 

Salvo alguns erros e repetições excessivas típicas de um rascunho, mantive o estilo de escrita de forma a marcar a minha evolução. Não sei se alguma vez irei desenvolver esta históriann, mas por enquanto serve só para divertir, porque a sério... isto de terror tem muito pouco. 

 

Excerto 1:

Estava a caminho do pavilhão para ter aula de Educação Física. Quando virei a esquina para o campo de jogos, perto da entrada, vi o Mauro, ao longe, a aproximar-se de um pombo. Normalmente, estas aves são medrosas e afastam-se quando outra criatura está por perto. Mas aquele pombo ATACOU o Mauro!

Quando o rapaz estava a uns três passos de lhe chegar, o bicho saltou-lhe para a cara e começou a bicá-lo na testa. Felizmente, ele conseguiu agarrá-lo e mandá-lo para o chão com toda a força. O pombo, agora sim assustado, levantou-se rapidamente e partiu desajeitado a voar. O atacado parecia ter posto a cabeça num alguidar de sangue. O líquido escorria-lhe cara abaixo, saído das feridas feitas pelas garras e bico da ave.

Começou a cambalear. Porém, não sei se estava prestes a desmaiar ou se o fazia por hábito como normalmente. Eu estava chocada com aquilo! Totalmente apavorada! Quis ajudá-lo, mas quando dei o segundo passo, ele levou a mão à ferida da testa, mas não delicadamente. Parei. O gesto fez-me impressão. Só de imaginar a dor que deve ter causado... desviou a mão do rosto lentamente e ficou a olhá-la durante uns instantes. Agora também estava encharcada de sangue.

Oh, não! Eu não acreditava que ele tinha feito aquilo! Porra! Não sei se consigo dizer isto - ele... ele... ele LAMBEU-A! E fê-lo até à última gota do líquido vermelho desaparecer como se a mão nunca se tivesse sujado... bolas, falar disto é horroroso... e nojento! Meus ricos cereais preferido! Não estavam a gostar da estadia. Tinha de sair daqui depressa!

Neste momento, as minhas pernas estavam na posição vertical, mas o resto do corpo estava debruçado. Agarrei os joelhos com as mãos, com toda esta confusão emocional a andar às voltas no meu estômago. Não sabia se ia vomitar o pequeno-almoço ou o coração, que saltava tão alto como se estivesse num trampolim. Talvez quisesse fugir a sete pés tanto quanto eu. Ia fazer-lhe a vontade. 

Mas assim que me virei, soltei um breve grito. Isto era inacreditável! Ele estava à minha frente! Mas como raio era isso possível?! Ainda há uns segundos estava a uns vinte metros de distância! E... as feridas e o sangue! Desapareceram! O Mauro estava novinho em folha como se nada tivesse acontecido. O que estava a sentir eram as minhas cuecas a ficarem sujas?

O meu coração estava a fazer tanta força para sair do peito! Não imaginam como estava a conter-me para não lhe vomitar em cima. Ele estava a fazê-lo outra vez. Fazia-o sempre. Olhava para mim fixa e inexpressivamente. Reparei agora que FAZIA QUESTÃO de me olhar nos olhos! Mesmo que tentasse desviar o meu olhar, não conseguia, porque ele seguia-me com o seu. Além do mais, o silêncio misturado com todas as outras cenas sinistras só dava energia à minha pilha de nervos. Então, tentando desesperadamente manter a calma, disse com medo no tom:

- O-Olá. Estás bom? - Perguntei com uma grande pausa entre o cumprimento e a questão. Ficou sem responder durante um bocado e a insistir em olhar-me daquela maneira arrepiante, mas depois lá respondeu:

- Sim. - Disse no tom morto e seco do costume.  - Era sempre assim. Não se conseguia ter uma conversa com ele. Era tão vazio! E transmitia uma energia tão negativa. Ai, o meu estômago! 

- Que bom!... - Continuei ainda com miúfa. - As tuas feridas... desapareceram. Foi tão rápido! Que rica rica regeneração, hã? - Depois libertei uma pequena risada nervosa. Era para lhe dar um murro no ombro, na brincadeira, mas hesitei, porque o Mauro desviou o olhar sinistro para o meu punho a meio caminho andado. E voltou a colocá-lo nos meus olhos mal recuei com a mão. Passaram mais uns segundos e o rapaz disse novamente:

- Sim. 

Estava a uma unha negra de me passar! Apetecia-me virar-lhe a cara com um chapadão bom, doce e bem assente. Assim, pelo menos o olhar arrepiante mudava de direcção. Cada vez mais tinha vontade de sair daqui e ele não parava de me pôr fora de mim! Ia-me embora antes de que fizesse alguma coisa de que me arrependesse. Então, com um último esforço sobre-humano, despedi-me amavelmente. 

- Olha... eu vou para ao pé da porta do pavilhão. - Não me respondeu imediatamente, mas desta vez foi mais rápido.

- Está bem.

Comecei a andar para virar a esquina, mas não sem saber porquê, não consegui deixar logo de olhar para ele. Era um sentimento estranho, não sabia defini-lo muito bem. Sabia que apesar da situação assustadora, havia algo no Mauro que era tão interessante como aterrorizante e que tinha de ser desvendado. A nossa ligação visual acabou quando lhe virei as costas. Quer dizer, pelo menos, falo por mim. Com o medo, o meu passo era rápido. Sempre que olhava para trás, lá estava ele! Não me deixava da mão! Não consegui evitar correr. Soltei um grito.

Que horror!

 

Excerto 2:

Depois daquela confusão toda, precisava de relaxar. O meu estômago parecia um poço sem fundo. Tinha de o preencher com alguma coisa. Fui até à cozinha e abri tudo o que pudesse ter comida: o frigorífico, os armários... não sabia o que se passava comigo. Seria esta fome natural? Só sabia que queria comer e descansar. A agitação dos recentes acontecimentos estava a dar cabo de mim. 

Peguei na maior quantidade de comida que podia carregar: montes de sacos de aperitivos, bebidas suficientes para encher um tanque, queques, chocolates, gomas e muitas outras gulosices para que as pernas do sofá se rendessem ao poderoso peso do meu rabo. Tinha dificuldade em carregar toda aquela comida. Cambaleava como... o tipo de quem não queria falar, pois não queria que nada caísse a caminho da sala. Pensando bem, podia ter posto as coisas num saco. Devagar, devagarinho, cheguei à meta e larguei tudo à toa. A disposição dos alimentos foi da sua própria escolha: uns ficaram-se pelo sofá, outros estatelaram-no chão e houve os que gostaram mais da mesa central, que foi onde pus os pés descalços depois de me sentar. 

Agarrei num pacote de cones de milho, abri-o e comecei a devorá-lo. Hum...! Péssimo para a saúde, perfeito para a minha felicidade. Eu sabia que não podia ter o azar de deixar migalhas no sofá, porque se não, a Mãe ficava tão aterradora como o... ai! Porque é que não parava de pensar nele?! Liguei a televisão. Talvez uma distracção me ajudasse a processar a preocupação. Que estranho! Não havia imagem. Bem... havia, mas não a que eu esperava. O ecrã estava turvo e cheio de tons de cinzento. Também saía um som esquisito do aparelho. 

Mudei de canal e vi a mesma coisa. Viajei pela grelha televisiva e nunca aparecia uma transmisão. Por fim, cheguei a um canal sintonizado e tive de desligar a televisão. O meu grito foi tão alto que podia ter deitado o prédio abaixo. Não, isto não era possível, eu devia estar maluca. Eu não podia ter visto o Mauro na minha televisão. Mas pensando bem, transportou-se para a minha frente quando estava a uns vinte metros de distância! Atirei-lhe o meu calhamaço d'"Os Maias" à cara e ele não reagiu: nem se quer um "ai"! (1)

Eu testemunhei esses acontecimentos ao vivo e a cores e tinha a certeza absoluta, sintética, analítica de que foram reais! Se ele conseguiu isso, que razão haveria de o impedir de aparecer no ecrã da minha televisão?! E quem sabe o que mais podia fazer? Tinha de me proteger, estava a ser perseguida! 

Todavia, antes de me passar, fez-se luz na minha cabeça. Se calhar, havia mesmo uma probabilidade de estar doida. A mente humana é matreira. Às vezes, algumas situações são tão impactantes que nos alteram. O que tinha visto podia mesmo ter sido uma ilusão causada pelo medo. Voltei a ligar a televisão. Oh!

- Júlia, por favor... - disse ele. Ou, pelo menos, tentou. O que raio queria?! E porquê a minha televisão?! 

Pronto: hora de entrar em pânico! Comecei a gritar histérica e levantei-me aterrorizada. A comida que estava em cima do meu colo, caiu no chão. A Mãe ia fazer-me pagar caro por aquilo. Queria ir para o quarto, mas ao correr assustada, escorreguei num saco de aperitivos e caí. Au! Doeu bué! No entanto, levantei-me depressa e despachei-me a ir para o quarto. Tranquei a porta na esperança de o Mauro não conseguir entrar. Oh, não, as janelas! Corri até elas, mas acelerei demasiado e bati com a cara no vidro. Talvez me magoasse mais a tentar salvar-me do que por causa do Mauro, que só me arrepiava. 

Contudo, nunca se sabia. Fechei a janela que abrira de manhã para entrar ar fresco no quarto e baixei a persiana. Ficou tudo às escuras. Sentei-me na cama, receosa, não sabendo o que esperar. Olhava à volta freneticamente. Procurava sinais de presença dele: um vulto, um som. Mas claro: não conseguia ver puto com o quarto assim e o escuro tornava os sons mais assustadores. Esperta! Pronto, eu sabia que não tinha sido uma ideia brilhante, mas foi o melhor que me ocorreu num momento de desespero. Tranquei-me no quarto e pu-lo às escuras, porque isso costuma impedir as pessoas normais e era isso mesmo que me punha fora de mim: não saber quais eram os limites dele.

Sendo assim, deitei-me à espera do fim, desejando que fosse o mais rápido e menos doloroso possível. Já algumas lágrimas me escorriam pelo rosto quando ouvi a campainha. Seria o Mauro Tinha muito medo de abrir a porta. E se fosse mesmo ele? Quem quer que estivesse lá fora, tocou outra vez. Ai...! Decidi enfrentar o/a fulano/a. Imaginem que se fosse realmente o Mauro, ele se passava e entrava pela casa adentro, arrombando a porta. Se ia morrer de qualquer maneira, ao menos que a casa dos meus pais ficasse intacta. Devagar, devagarinho, dirigi-me à porta. 

- Quem é? - Perguntei num tom nervoso.

- O Micael. - Ufa! Que alívio! - Esperem, seria mesmo ele? O Mauro podia estar a fazer-se passar pelo meu amigo. 

- A sério?

- Ah, não, desculpa, tens razão. Lembrei-me agora de que sou o vizinho da esquina. - Respondeu ironicamente. - Júlia, então?!

- Prova que és mesmo o Micael. 

- Como é que é? Vá, deixa-te de tretas e abre-me a porta!

- Prova-o ou não entras!

- Ah... sei lá... fiz chichi na cama até aos dez anos. - Pareceu-me suficientemente credível. Só eu sabia do problema urinário dele. Abri-lhe a porta e o Micael estava com cara de poucos amigos. 

- Mas que raio?! - Resmungou. 

- Chiu! Entra depressa! - Disse a puxá-lo bruscamente para dentro da minha casa. Mal fechei a porta, abracei-o. Estava mesmo a precisar de alguém. Queria guardar segredo, porque de certeza que ninguém acreditaria numa coisa destas, mas não aguentava mais. O rapaz não estava à espera do abraço, portanto, ficou surpreendido por uns instantes. - Que alívio! Estou tão feliz por te ver!  -Retribuiu o gesto de afecto, mas perguntou:

- O que é que te deu? - Largámo-nos e eu disse:

- O Mauro está a perseguir-me. 

- O Mauro? Aquele miúdo esquisito lá da escola? Ele magoou-te?

- Não, mas anda atrás de mim e está a dar comigo em doida. - O Micael soltou um pequeno riso e depois respondeu:

- A sério? Vais mesmo deixar que um puto te atazane o juízo? 

- Sim! Quer dizer, não! - Os nervos não me deixavam dizer coisa com coisa. - Eu gostava de o parar, mas não consigo. Ele... - não acabei a frase, porque tive medo de que o Micael me achasse maluca. Melhor dizendo: lunática. Maluca toda a gente sabia que o era.

- Ele o quê? - Perguntou-me o rapaz preocupado a avançar na minha direcção para me confortar.

- Vais achar que sou maluca. Ou lunática ou sei lá!

- Júlia, tu és maluca. Toda a gente o sabe. - Eu disse-vos. - Vá, conta-me o que se passa. - Insistiu. Então, respirei fundo e acabei por lho contar: 

- O Mauro não é normal...

- Eu sei. 

- Não, não sabes. Esconde mais do que aparenta. 

- Vá, desembucha. Estás a deixar-me nervoso. - Eu sentia-me mesmo desconfortável.

 

(1) No primeiro excerto isto não acontece, porque acho que só me lembrei deste toque a meio do segundo e escrevi-o para me lembrar de o adicionar à primeira parte quando passasse o texto a computador, o que ficou por fazer. 

 

FIM!

 

 

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